PM prende rapper que estava indo apresentar peça de teatro em SP

22/05/19 por Maria Teresa Cruz

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Kawex integra o elenco de peça sobre trabalho de redução de danos desenvolvido pelo psiquiatra e palhaço Flávio Falcone, que atua há 7 anos na região da Luz, centro de SP; testemunhas afirmam que policiais não informaram para onde estavam levando o artista

Kawuex (à esquerda) na peça ‘Dr. Palhaço e o Fluxo’ e o médico Flávio Falcone, que também atua no espetáculo | Foto: Ibrahem Hasan

(Colaboração: Caio Castor)

Antonio Carlos Nascimento, o MC Kawex, foi detido no último domingo (19/5) a caminho do Teatro Cacilda Becker, na Lapa, onde se apresentaria na terceira sessão da peça “Dr. Palhaço e o Fluxo”. O espetáculo criado pelo psiquiatra e palhaço Flávio Falcone trata das relações que ele, enquanto profissional que atuou por 7 anos com redução de danos na região da Luz, centro de São Paulo, estabeleceu com aquela população vulnerável e os talentos, como o de Kawex, que conseguiu encontrar escondidos pela invisibilidade social. Na manhã desta quarta-feira (22/5), ele saiu do 77º Distrito Policial, na Santa Cecília, e foi encaminhado para alguma unidade prisional não informada pela SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), que apenas confirmou a transferência para o “sistema da SAP”.

De acordo com Falcone, que estava junto com o rapper no momento da abordagem, a Polícia Militar foi agressiva e só moderou a ação quando ele se apresentou como médico e mostrou os documentos. “Estávamos em quatro pessoas, todos integrantes do elenco, indo para a apresentação. Saímos do ‘fluxo’ [local na Cracolândia onde há comércio e uso de drogas], passamos pela Helvétia e depois Dino Bueno quando aconteceu a abordagem. Os policiais disseram que ele era procurado da Justiça, mas não explicaram para onde ele estava sendo levado”, conta o psiquiatra.

Kawex foi processado em 2014 por desacato a autoridade, foi condenado e recebeu uma “sentença restritiva de direitos”, ou seja, a Justiça de São Paulo decidiu que ele deveria pagar uma multa no valor de um salário mínimo. Como ele não cumpriu a ordem, a pena foi convertida em prisão de 7 meses em regime semi-aberto. Ele sofre de epilepsia e apenas na tarde desta terça-feira voltou a tomar a medicação.

Falcone pondera que, considerando a situação de vulnerabilidade de Kawex, ele não teria como arcar com a multa e que, na visão dele, isso teria que ter sido considerado pelo Judiciário. “Ele tinha que pagar um salário mínimo de multa mesmo sendo morador de rua. Por não ter pago, ele está preso. Preso com o figurino que usou na apresentação do sábado. O nome disso é criminalização da pobreza”, escreveu o psiquiatra em seu Facebook.

Por estar preso, Kawex não está conseguindo cumprir a temporada da peça, que começou na semana passada, e terá sessões nessa e na próxima semana.

Kawex é um dos muitos diamantes escondidos no abandono da região da Luz, no centro de São Paulo, conhecida como Cracolândia (porque há venda e uso de drogas, mas não apenas do crack, como o próprio Falcone alertou em recente entrevista à Ponte). O nome tem muito mais ligação com a tentativa de criminalizar aquelas pessoas atravessadas por diversas violações, e que encontram naquele espaço o último local para tentarem existir, do que com a droga em si.

Kawex em samba realizado na região da Luz, no ano passado | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Foi nesse local que o psiquiatra-palhaço Flávio Falcone, que atuou por anos com redução de danos em programas do governo, encontrou Kawex, o “Sabotage da Cracolândia”, e percebeu que ali havia talento e muita vontade de sair daquele ciclo de violência. O rapper foi tema de algumas reportagens, como esta da Agência Pública, em que fala dos 20 anos de vida na Luz e a trajetória de luta e resistência. Kawex até apareceu na cobertura da Ponte sobre uma roda de samba que rolou na Cracolândia, organizada pelo movimento Craco Resiste, em dezembro do ano passado. Neste vídeo da Pavio, o rapper aparece apresentando seus versos cheios de verdade e crítica durante um ato de moradores da região contra as ações de violência no poder púbico no local.

Kawex em vídeo feito por Caio Castor para a Agência Pública | Foto: reprodução

Há dois anos, uma forte investida da gestão do então prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) – atualmente governador de SP – espalhou pânico na região e movimentou o “fluxo”, local de venda e uso de drogas, que antes estava concentrado na Alameda Dino Bueno e agora foi para a Alameda Cleveland. Na ocasião, o tucano chegou a anunciar o “fim da Cracolândia”.

Outro lado

A Ponte procurou a SSP-SP e a PM para questionar sobre a alegação de que a abordagem realizada no último domingo foi violenta e por qual razão as pessoas que estavam com Kawex não foram informadas do paradeiro dele. Em nota, a Polícia Militar esclarece que “o preso tem o direito de notificar alguém, seja familiar ou advogado, mas não necessariamente no momento da abordagem” e também informou que na abordagem “após consulta no sistema foi identificado um mandado de prisão em aberto”. A pasta também confirmou a transferência de Kawex para alguma unidade prisional de São Paulo nesta quarta-feira (22/5), contudo não disse qual.

*Reportagem atualizada no dia 22/5 às 12h19

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