PM usa balas de borracha contra blocos no Carnaval do Espírito Santo

Famílias com crianças, mulheres e idosos foram atacadas na praia em Guarapari pela polícia. “Criminalizaram a diversão do pobre”, disse uma vítima

O Espírito Santo nem bem curou a ferida da greve da Polícia Militar, realizada no ano passado, e a relação dos capixabas com a corporação continua tensa. Neste Carnaval de 2018, antes e durante os dias oficiais de folia, houve forte repressão da PM aos blocos carnavalescos. Pelo menos em três episódios, houve repressão direta, com uso de spray de pimenta, bombas de efeito moral e balas de borracha, ações que resultaram em feridos e pânico num período destinado à diversão e à alegria.

PM ataca foliões em praia de Guarapari | Foto: arquivo pessoal

O episódio mais violento foi registrado no balneário de Guarapari, considerado um dos municípios mais turísticos do Sul capixaba. Na madrugada de terça-feira (13/2), por volta das 3h, o calçadão da Praia das Castanheiras, que integra o centro da cidade, os PMs usaram armamento menos letal, como spray de pimenta, bombas e balas de borracha, contra a população. Houve pânico, correria e pessoas atingidas pelas balas de borracha. Entre os foliões, estavam famílias inteiras reunidas, inclusive crianças e idosos.

A PM afirma que a ação foi necessária porque foliões teriam jogado garrafas contra homens da corporação. Mas quem estava no local e presenciou todos os fatos tem outra versão. Relatos dão conta de que, do começo ao fim do Carnaval, a PM lançou mão do spray de pimenta para dispersar os foliões das ruas em Guarapari, depois que a programação oficial da cidade com desfile de blocos era encerrada. Uma espécie de toque de recolher.

A estudante Taís Ramalhete, de 18 anos, que mora em Guarapari desde que nasceu, contou que, em nenhum momento, os foliões provocaram a PM. “Não houve isso. Muito pelo contrário, na noite de sábado, a PM constantemente tacava spray de pimenta sem razão alguma; não vi briga em momento algum”, disse. Segundo ela, as garrafas foram lançadas quando vários PMs vieram do início ao final da praia atirando spray de pimenta e bombas em todos que estavam lá.

“A PM disse que havia som alto. Mentira! Desde o primeiro dia de Carnaval, ouvi turistas reclamando que não tinha som no Carnaval. Eles [os PMs] não foram recebidos com pedradas e garrafadas. Desde o início da festa, já estavam no local! Um monte de viatura e um monte de PM no meio da ‘muvuca’, fiscalizando. Todos eles andavam juntos, notificando quem estava com caixinhas de som. Eu mesma vi isso acontecer umas três vezes. Na minha opinião, foi tudo premeditado para a festa não durar até de manhã. Tanto que, antes da confusão começar, uns 20 carros [da polícia] passaram e todo mundo estava se perguntando qual a necessidade daquilo, sendo que não tinha briga nem nada”, contou Taís.

Gabriely Rocha, também de 18 anos, foi atingida por balas de borracha nas pernas, que causaram ferimentos graves. “Muitas pessoas como eu, que não estavam fazendo nada, apenas curtindo, pagaram o pato”, relatou. A estudante passava o carnaval na Praia das Castanheiras quando foi baleada.

Gabriely mostra marcas de balas de borracha disparadas contra ela na praia | Foto: Facebook

A jovem fez um desabafo no Facebook sobre o episódio: “Nunca fui de comentar e expor minha opinião em nenhuma rede social por “n” motivos. Mas ontem passei por uma situação criada pelos policiais, que não desejo a ninguém. Estava curtindo o carnaval no centro, quando os nossos queridos policiais começaram a tacar bomba de “efeito moral” nas pessoas e infelizmente acabei sendo atingida por uma. Vi pessoas caindo no chão e eles continuaram a jogar essas bombas, pais de família protegendo os seus filhos que gritavam de medo, uma situação criada sem necessidade”, disse em um trecho da postagem.

Moradores questionaram o despreparo da PM para enfrentar a situação. “Por que tratar todo mundo como vagabundo?”, disse uma moradora, que preferiu não ser identificada.

Segundo o arquiteto César Pinheiro, a repressão policial atua mais em locais onde há público de pessoas com menos recursos financeiros, que escolhem o carnaval de rua gratuito. Em Guarapari, há casas de shows frequentadas por jovens de classe média, em que há som alto durante toda a noite incomodando moradores, e que nunca sofreram fiscalização, segundo ele. “Estão criminalizando a diversão de quem é mais pobre”, disse César.

Ataque na capital

Foliões do bloco “Nós, Eva e Adão”, que se divertem há quatro anos no Carnaval do centro da capital Vitória, foram duramente reprimidos, na noite do dia 8, na Praça Ubaldo Ramalhete. Agentes do Disque-Silêncio, acompanhados de homens da Polícia Militar, obrigaram os integrantes do bloco a encerrar a apresentação, usando inclusive spray de pimenta, que atingiu mulheres e crianças. Isso tudo antes das 21 horas. O poder público alegou que o bloco não tinha autorização e que moradores da região estavam reclamando do barulho.

Um folião, que estava ali antes mesmo de o bloco começar, acompanhou todo o desenrolar dos fatos. Nil Noslin narrou os agentes da prefeitura e os policiais chegaram por volta das 19h, dizendo ter sido acionados por moradores em razão do barulho. “Nesse momento, conversamos e dissemos que o som não estaria alto e que a programação seria encerrada cedo, antes das 23h. Houve o batuque do grupo Sol Nascente e, quando fomos tocar a primeira marchinha, a PM veio pra desligar tudo, desplugando, tirando caixa de som, querendo apreender o equipamento. Daí houve reação, e a galera começou a vaiar. Os policiais perderam o controle, começaram a lançar spray de pimenta e imprensar pessoas conta a parede. Foi uma cena horrível, mães com crianças passando mal por causa do spray, gente correndo; não gosto nem de lembrar”, disse Nil.

O “Nós, Eva e Adão” não é um bloco que desfila pelas ruas do Centro, apenas concentra pessoas na praça Ubaldo Ramalhete para tocar marchinhas de Carnaval. Segundo Nil, por esse motivo e também porque não existiu tempo hábil, não pediram autorização à Prefeitura, apenas fizeram um comunicado a respeito da apresentação, divulgada pelos meios de comunicação. ‘”Nós, Eva e Adão’ é um bloco crítico e contestador, mas não existiu nenhum motivo pra tanta truculência. Me parece até repressão aos movimentos sociais e culturais”, desabafou Nil, que completa: “Um amigo veio do interior pra curtir a folia na Capital e ficou horrorizado; outros que moram aqui pensam em sair, como ficar na cidade para curtir o Carnaval desse jeito?”.

A Secretaria de Turismo de Vitória foi extinta e agora pertence à Companhia de Desenvolvimento de Vitória, a CDV. Leonardo Caetano Krohling, responsável pela pasta, não foi localizado até o fechamento dessa matéria. Em entrevista à imprensa na manhã de sexta-feira (16/2), o secretário de segurança de Vitória, Fronzio Calheira Mota, afirmou que apenas 18 blocos estão autorizados pela prefeitura para desfilar na cidade.

Vila Velha

Esses não foram os únicos casos de repressão a um bloco de Carnaval na Grande Vitória, muito menos o único nos últimos anos. Em 14 de janeiro, a Polícia Militar foi protagonista de uma luta quase campal com integrantes do bloco Orla Folia 2018. Isso em plena avenida principal de Coqueiral de Itaparica, Vila Velha. Entre as versões, há a de que foliões jogaram garrafas contra os PMS, que passaram a usar balas de borracha, bombas de gás e até cavalaria pelas areias da praia.

Outra versão, no entanto, afirma que as garrafas teriam partido dos prédios, o que foi interpretado pela polícia como princípio de briga. Havia o agravante de que os foliões estavam insatisfeitos, pois uma das bandas esperadas não se apresentou no evento. As cenas gravadas por quem estava no local impressionam..

A Polícia Militar se manifestou por meio da seguinte nota.

“A Polícia Militar trabalhou de forma preventiva em todo litoral capixaba. Com a Operação Verão houve um aumento de 2.300 policiais durante o Carnaval. Em Guarapari o efetivo foi dobrado, com 270 PMs a mais. Na noite da última terça-feira (13), além deste efetivo, o policiamento contou com reforço de policiais da Companhia Independente de Missões Especiais (CIMEsp), Força Tática e Companhia Especializada de Operações com Cães (CEOC). Os policiais realizavam patrulhamento e receberam denúncias anônimas de moradores que apontavam tráfico de drogas, sexo em local público, exposição de menores e competições de som automotivo. Ao iniciar abordagens, os militares foram hostilizados e atacados com pedras e garrafadas. Foi preciso emprego de táticas de dispersão. Nas redes sociais moradores flagraram o momento em que os policiais foram agredidos e apoiaram ação de dispersão. Uma pessoa foi detida por incitar violência e encaminhada à Delegacia Regional de Guarapari”.

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