‘PMs apontaram a arma para mim porque eu estava mexendo no celular’, denuncia youtuber negro

Spartakus Santiago fez transmissão ao vivo apontando que foi abordado com truculência em viaduto na zona norte de SP; ‘qual a atitude suspeita de um homem negro parado mexendo no celular?’, criticou

Spartakus fez transmissão ao vivo durante a abordagem | Fotos: Reprodução/Instagram

O youtuber e apresentador da MTV Spartakus Santiago denunciou, em sua conta no Instagram, que foi abordado com truculência por dois policiais militares por estar parado no viaduto que atravessa a Praça 14 Bis, na região de Santana, zona norte da capital paulista, na manhã desta segunda-feira (4/10).

“Esses dois policiais vieram apontando a arma para mim, me tratando como se eu fosse um bandido, dizendo que eu estava com atitude suspeita porque eu fiquei 10 minutos parado mexendo no celular”, falou durante a gravação de uma transmissão ao vivo. “Eu quero saber qual é a atitude suspeita de um homem negro que não pode simplesmente ficar parado mexendo no celular?”, questiona.

Ele conta que estava correndo no parque, como faz diariamente, quando aconteceu a abordagem. Estava sem o RG, apenas com o celular. “Isso é racismo. Eu duvido que se fosse um homem branco com cara de gringo esses homens iriam me abordar, achando que eu sou bandido, achando que eu sou suspeito”, critica.

Os PMs, apontados apenas como cabo Marcel e soldado Da Silva, sendo um branco e outro negro, aparecem ao fundo falando em um radiocomunicador. Spartakus denuncia no vídeo que começou a transmissão porque estava com medo e que, independentemente da ascensão social, as pessoas negras sofrem racismo em qualquer tipo de espaço. “Isso aqui é para o Brasil ver o que acontece: se você é uma pessoa negra nesse país, você não é respeitado, você é tratado como bandido.”

Após quase 10 minutos de transmissão, um dos PMs diz que o jovem está liberado porque o número do documento fornecido é da Bahia e não teria sido identificado inicialmente pelo sistema da corporação. “Não tem nenhum ato ilícito com o senhor, nem indício ou cometimento de ato ilícito, apenas uma abordagem de rotina.”

Não é crime andar sem documentos e a pessoa pode fornecer os dados para serem consultados pelo policial. A pessoa tem direito a saber o motivo de estar sendo abordado de forma clara.

Ao final da transmissão, visivelmente abalado, Spartakus chora ao sair do viaduto após os policiais se retirarem. A Ponte procurou as assessorias da Polícia Militar e da Secretaria da Segurança Pública e aguarda uma reposta.

Política do enquadro atinge mais negros

Jovens negros de 15 a 19 anos aparecem sete vezes mais entre os suspeitos da polícia do que na população do local onde foram abordados, conforme apontou Jéssica da Mata, advogada da ONG Innocence Project Brasil e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), em seu livro A Política do Enquadro, em recente entrevista à Ponte.

Em 2019, a reportagem também divulgou um estudo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo que mostra que a “fundada suspeita”, que justifica uma abordagem policial e até mesmo busca pessoal (revista), prevista no artigo 244 do CPP (Código de Processo Penal), é baseada em critérios subjetivos e usada, muitas vezes, para criminalizar regiões, justificar violações e carimbar perfis como suspeitos.

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