PMs invadem casas sem mandado durante ação em favela no centro de SP

Testemunhas negam ligação dos três detidos com os quase 200 kg de drogas encontrados na Favela do Moinho; para advogado, ação foi ‘abusiva’

PM leva jovens detidos na Favela do Moinho até o 77º DP (Santa Cecília) | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte

Cerca de 30 viaturas da Polícia Militar, policiais entrando sem mandado nas residências e nenhum morador podendo entrar ou sair de casa. Assim foi a manhã desta sexta-feira (20/4) na Favela do Moinho, no centro da cidade de São Paulo, durante uma operação da PM. Três jovens acabaram detidas com aproximadamente 200 quilos de drogas. Testemunhas, porém, afirmam que eles não estavam no local onde a apreensão foi feita.

Segundo a PM, a ação começou com uma denúncia anônima dizendo que haveria um morador armado em um dos barracos. Ao chegar na favela, os policiais arrombaram várias portas de casas e as revistaram, sem apresentar nenhum mandado de busca e apreensão, conforme o relato de testemunhas ouvidos pela Ponte.

“Estava cheio de polícia do comando, da Força Tática, Rocam [Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas]… Entraram nas casas, os moradores ficaram sem poder sair. Fecharam a comunidade, não entrava nem saía carro. Entraram em todos os barracos. Quase apanho, queriam me levar preso, mas levaram seis moleques, todos menores”, explicou Humberto Rocha, diretor da associação de moradores da Favela do Moinho. A informação de Rocha não se confirmou: os detidos pela PM levados da favela ao 77º DP (Santa Cecília) foram três, todos maiores de idade.

Policiais carregam drogas apreendidas no Moinho para o 77º DP (Santa Cecília)| Foto: Daniel Arroyo/ Ponte

Testemunhas que foram até a delegacia negaram que os jovens fossem traficantes.”Eles estavam sentado em frente a um barraco, aí os policiais chegaram e levaram os três juntos. Tiraram as drogas na casa da parte de baixo e eles moram na parte de cima, estão lá há mais ou menos um mês”, conta Isabel Maria de Jesus, 36 anos, ajudante de cozinha e moradora do Moinho há duas décadas.

Segundo Isabel, as ações truculentas na favela se tornaram rotineiras. “Cada vez que entram, a coisa ferve mais”, diz, sem saber especificar quantas vezes houve entrada da PM nas últimas semanas.

Policiais carregam drogas apreendidas no Moinho para o 77º DP (Santa Cecília)| Foto: Daniel Arroyo/ Ponte

Raquel Barros dos Santos, 44 anos, também ajudante de cozinha, é mãe de dois dos três rapazes presos. Ela explica que estava no trabalho quando foi avisada da detenção. “Meus filhos trabalham com carroça, pegam recicláveis. Eles estão sem emprego, então trabalham com isso”, afirma.

As vistorias em várias casas da comunidade foram criticadas pelo advogado Ariel de Castro Alves, membro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos). “Entendo ser abusivo. Entrar na casa onde eles tem certeza da presença de drogas é justificável pela situação do flagrante, mas entradas aleatórias em varias casas, não poderiam. As pessoas da comunidade não podem ser tratadas como criminosas em razão da existência de pontos de tráfico em alguns locais da favela. Seus direitos foram violados”, avalia.

Nesta casa, os policiais encontraram 134 quilos de cocaína, 31 quilos de maconha, recipientes com lança perfume, balança, três coletes à prova de balas e duas balas de calibre 32, mas nenhuma arma. “Servição”, elogiou o delegado Francisco Castilho, titular do 77º DP.

Os policiais pegaram emprestado uma balança de grande porte em uma loja de materiais de construção em frente à delegacia. Segundo o delegado, o local só tem equipamento suficiente para pesar um quilo de substâncias por vez.

Objetos apreendidos pelos policiais militares | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte

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