Policiais matam homem negro no caminho do trabalho com seis tiros na zona sul de SP

15/05/21 por Beatriz Drague Ramos

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Gilberto Amancio de Lima era ajudante de pedreiro e tatuador, tinha um filho pequeno e foi morto pela Polícia Civil nesta sexta-feira (14). “Ele era trabalhador, na favela não tem só bandido”, diz padrinho

Morto aos 30 anos, Gilberto deixa um filho pequeno e saudade na Favela da Felicidade | Foto: Arquivo Pessoal

Morto pela Polícia Civil no início da tarde desta sexta-feira (14/5), Gilberto Amancio de Lima, 30 anos, é lembrado pela família e pelos vizinhos da Favela da Felicidade, da zona sul da cidade de São Paulo como um cara sorridente, pai de família e ainda um ótimo desenhista. Gibinha, como era chamado pelos amigos da comunidade, foi alvejado após policiais civis atirarem seis vezes em sua direção, por volta do meio-dia quando ia fazer um trabalho de tatuagem em um vizinho.

O caso aconteceu quando os policiais civis César Augusto de Oliveira, Emiliano Aparecido Podadera Bechelani e José Ney Lopes foram à Rua Um, na Falvela da Felicidade, no bairro Jardim São Luís, na zona sul de SP, atender a uma ocorrência relacionada ao combate ao tráfico de drogas, para realizarem a intimação de uma testemunha, de acordo com o boletim de ocorrência. O depoimento que consta no documento é do policial civil condutor Rodrigo Vieira de Oliveira, que não estava no momento da morte de Gilberto. 

O BO é assinado pelo delegado Henrique N. Stangari Angelo, da divisão de homicídios do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e aponta o crime de homicídio simples (cometida pelos policiais) e morte decorrente de intervenção policial.

Leia também: A cada cinco homicídios em SP, um foi cometido pela polícia

O documento diz que quando os três policiais foram procurar o imóvel onde fariam uma intimação perceberam a presença de duas pessoas, que segundo os policiais estavam em “atitude suspeita” e se aproximaram deles. O BO não especifica o que seriam as atitudes suspeitas, mas neste momento os policiais solicitaram que os dois homens erguessem as camisetas. 

Foi quando, segundo o BO, um dos homens correu e Gilberto ergueu a camiseta e teria sacado uma arma, apontando-a na direção dos policiais. Os três policiais logo dispararam seis vezes em sua direção. Ainda de acordo com o BO, o policial José Ney se aproximou de Gilberto e com o pé afastou a arma que estava próxima dele, que teria quebrado quando caiu no chão. Depois os policiais teriam descoberto que a arma na verdade era de brinquedo. 

Gilberto caiu sentado no chão e foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) que constatou o óbito na hora. O delegado considerou excludente de ilicitude na conduta dos policiais civis, ou seja, que os policiais agiram em legítima defesa. 

Família e vizinhos contestam versão dos policiais

A morte de Gilberto estarreceu os moradores da Favela da Felicidade. O tatuador e pedreiro negro foi nascido e criado na comunidade e era adorado por muitos no local. 

Segundo o analista de dados e irmão de Gilberto, Jefferson Lima, 24 anos, a arma de brinquedo foi colocada próxima a Gilberto após a perícia e na verdade o carro da perícia retirou seu corpo do local e não o SAMU. “Antes da perícia mexer no meu irmão não tinha nenhuma arma, depois que eles mexeram, tinha uma arma de brinquedo quebrada. Quem levou o corpo dele foi um carro da perícia e não o SAMU”, diz. 

À Ponte ele encaminhou fotos que mostram, segundo ele, imagens de seu irmão antes e depois da perícia. De acordo com Jefferson, a foto foi tirada por uma vizinha que não quer se identificar com medo de represálias.

Foto de um vizinho desconhecido que circula em redes sociais mostra que não tinha uma arma no local | Foto: Jefferson Lima

Jefferson conta que a primeira pessoa que soube da morte de seu irmão foi o tio, e depois disso uma saga para achar o corpo do tatuador começou. “Falaram para irmos no 92º DP (Parque Santo Antônio), chegando lá falaram para irmos no DHPP. Quando chegamos lá, disseram para irmos ao IML (Instituto Médico Legal) da Berrini, chegamos às 19h50 da noite e já estava fechado, mas nos atenderam e disseram que meu irmão chegou como um indigente”. 

Jefferson estava trabalhando quando seu irmão foi alvejado, mas logo que soube do ocorrido saiu do trabalho em um trajeto de 40 minutos e chegou até a viela onde estava, lá ele viu um carro da perícia científica retirando o corpo. 

Leia também: Filme as ações da polícia e mande para a Ponte

Na manhã deste sábado (15/5), ele lembra das últimas mensagens trocadas entre o irmão e a mãe de seu filho. No áudio, Gilberto perguntava como estava a criança e que horas poderia buscá-la. “Esse foi o último áudio que ele mandou para buscar o filho dele, mas infelizmente não deu tempo”, contou, triste. O velório de Gilberto foi realizado também no sábado, às 14h30, no Cemitério São Luiz, na zona sul da cidade de São Paulo.

O velório de Gilberto ocorreu neste sábado a tarde na zona sul de SP | Foto: Jefferson Lima

Na noite de sexta-feira (14/5), cerca de 20 pessoas permaneceram em uma rua não oficial da favela, chamada “Travessa do Carteiro” pelos moradores. Acompanhados de ativistas de direitos humanos e de movimentos sociais, os vizinhos conversavam e se solidarizavam por conta do ocorrido próximos a uma tabacaria. 

Em entrevista à Ponte no local, o padrinho de Gilberto, José Cícero da Silva, 36 anos, disse que o tatuador não era envolvido com o tráfico de drogas e não andava armado. “Conheço ele desde criança, nunca vi ele mexendo com nada de errado, era um menino que ajudava a gente sempre que precisávamos. Era um ótimo desenhista, desenhava tudo, era um ótimo garoto. Se perguntar para 90% da favela todos vão falar a mesma coisa, cuidou da bisavó até o fim dela”. 

Desolado, José lembrou que a morte aconteceu por volta de meio-dia e que Gilberto não representava ameaça alguma aos policiais. “Não houve tiroteio, ninguém saiu ferido. Falaram que ele estava com arma de brinquedo, mas não tinha nada, como ele ia atirar? Falaram para ele levantar a mão, quando ele levantou ele morreu”, disse.  

Favela da Felicidade nesta sexta-feira (14/05) onde vizinhos se solidarizavam por conta do ocorrido | Foto: Beatriz Drague Ramos/Ponte Jornalismo

Cansado da violência que acomete os mais pobres, José só pede que isso acabe. “Isso tem que parar. A periferia não é só lugar de bandido, tem trabalhador, tem pai de família, tem pessoas que querem um um futuro. Aqui foi a única oportunidade que tivemos para crescer, não é só porque moramos aqui que somos traficantes e ladrões. Não é assim. A gente também sai daqui quatro horas da madrugada, para bater marreta o dia inteiro, para poder trazer o sustento pros nossos filhos. É a mesma coisa que ele, que corria atrás de fazer uma tatuagem para sustentar o filho dele”.

Protesto de moradores da comunidade

Poucas horas após a morte de Gilberto, por volta das 17h, cerca de 70 moradores da comunidade se uniram em um protesto na avenida Guido Caloi, na região de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. A manifestação terminou em confronto com a polícia, que jogou bombas de gás lacrimogêneo e e disparou balas de borracha contra as pessoas, após um dos integrantes do ato colocar fogo em um ônibus e fazer barricadas na avenida. 

De acordo com Luana Oliveira, 39 anos, professora de geografia na Rede Pública Estadual, mestranda em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e articuladora da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, sete homens foram detidos e levados ao 47º Distrito Policial (Capão Redondo), na zona sul de SP, após a manifestação. Seis deles já foram soltos. “Um dos meninos foi acusado de ter atirado a pedra no policial, mas ele prestou depoimento e alegou que não foi ele, o policial fez o reconhecimento dele pelo cabelo, que é um black”, diz. 

“Daí a gente já consegue perceber que tem a boa e velha história do racismo, mas pouco tempo depois ele foi liberado”, criticou. Segundo Luana, um rapaz ficou detido porque já tinha passagem por tráfico e foi acusado de ter colocado fogo no ônibus. 

No protesto sete pessoas foram detidas após o confronto com policiais | Foto: Beatriz Drague Ramos/Ponte Jornalismo

Um dos moradores da Favela da Felicidade e liderança local que preferiu não se identificar, com medo de represálias da policia, contou que não é a primeira vez que os moradores presenciam esse tipo de ato vindo do Estado. “Em 2015 houve uma chacina aqui, os policiais ficaram rindo enquanto os moradores estavam morrendo agonizando. Tiveram outras ações, durante um pancadão que acontecia muito próximo de onde o Gilberto morreu, um policial atirou e acertou a cabeça de um dos visitantes do baile, não deixaram socorrer o menino e o ele morreu agonizando ali”. 

Segundo ele, todos estão indignados por saber do histórico de Gilberto: “Uma pessoa que nunca teve envolvimento com nada. A polícia dentro da favela é muito desrespeitosa. Se você corre, você é suspeito e se você fica, você é humilhado ou morto”.

No mesmo sentido, Antônio Wellington Gomes da Silva, 33 anos, co-vereador do mandato coletivo Quilombo Periférico (PSOL), da cidade de São Paulo, e que viveu no bairro a vida inteira, diz que a violência policial vem sendo cada vez mais grosseira na região. “Não temos uma perspectiva de sermos nem seres humanos aqui, na visão da segurança pública do estado aqui de São Paulo. O que acontece aqui, acontece no Jacarezinho, acontece em todas as favelas do Brasil, a forma como aconteceu esse assassinato tem a chancela do Estado”. 

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A Ponte procurou o ouvidor das Polícias, Elizeu Soares Lopes para falar sobre a conduta dos policiais. Elizeu afirmou que irá “requisitar informações sobre a operação policial, para compreender em quais circunstâncias e porque da necessidade da forma de agir dos policiais”, disse. “Lamento que uma pessoa tenha sido morta”, completou.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) do governo João Doria (PSDB) não respondeu as seguintes questões:

Os policiais seguiram corretamente o protocolo da polícia civil ao atirarem seis vezes sobre Gilberto?

Eles irão continuar exercendo suas atividades normalmente?

Do que se tratava a investigação dos policiais civis no local?

A que horas o SAMU chegou e por quem o corpo foi retirado do local?

Como a SSP explica a foto que circula pelas redes que não mostra a arma de brinquedo antes da perícia?

A SSP mandou a seguinte nota:

“Policiais civis da Delegacia Especializada de Investigações Criminais (Deic) de São Bernardo do Campo, ao realizar uma intimação, nesta sexta-feira (14), no Parque Santo Antônio, na zona sul da Capital, se depararam com dois indivíduos em uma viela. Um deles apontou uma arma, posteriormente identificada como um simulacro, na direção dos agentes, que intervieram. O homem foi atingido e socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Todas as circunstâncias relacionadas a morte do homem são investigadas pela Divisão de Homicídios do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). As diligências estão em andamento para esclarecer o fato”.

Reportagem atualizada às 13h34 de 17/05 para a inclusão da resposta da SSP.

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