Pós graduação deve acolher conhecimentos indígenas

No Amazonas, estado brasileiro que tem a maior diversidade indígena do país, é contraditório que as cotas para indígenas seja cancelada na pós-graduação

É notável que a Política Afirmativa no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) a cada ano vem amadurecendo e a implementação dessa política é uma tendência real de todas as universidades do Brasil.

No ano dia 31 março de 2010 foi aprovada a implementação da política afirmativa no Programa, conforme a Ata do Colegiado. Nesse ano, eu e mais três colegas indígenas ingressamos no programa sendo os primeiros beneficiados direto. No ano seguinte, não houve ingresso de indígenas no programa, pois nenhum candidato tinha alcançado a média exigida na seleção. Diante do fato, o Colegiado Indígena, recém-criado, apresentou uma proposta de seleção diferenciada. Essa foi acatada e implementada no ano 2012. Com isso tivemos ingresso de cinco indígenas conforme as vagas disponíveis.

Passados esses anos, nós indígenas, enquanto beneficiários dessa política, temos nossas experiências acumuladas para partilhar com professores, coordenação, conselho do PPGAS, reitorias e universidades, debater sobre os prós e contras, avanços, desafios e resultados.

Depois da minha defesa de dissertação, eu tenho participado de seminários, fóruns e mesa de discussão sobre ‘cotas’ em nível nacional e internacional. Tenho participado também nas exposições sobre o resultado da minha pesquisa nas universidades do Brasil e do exterior. Nas oportunidades tenho dedicado a expor minha experiência de mestrado como beneficiário da política afirmativa do PPGAS e apresentado o resultado de minha pesquisa sobre conhecimento Tukano, de modo que o PPGAS tem sido visto como exemplo de um programa com uma diferença substancial em relação a política afirmativa.

Outros colegas também estão engajados, uns estão atuando como Antropólogos, nas instâncias do governo federal, estadual e municipal. Produzem laudos antropológicos e atuam como assessores nas instâncias de decisão. Outros assessoram com competência as organizações indígenas, prestando serviço de qualidade aos movimentos indígenas. Os ganhos para os povos indígenas são imensuráveis, também creio que deva ser também para própria Ufam.

“Tenho participado de seminários, fóruns e mesa de discussão sobre ‘cotas’ em nível nacional e internacional. Tenho participado também nas exposições sobre o resultado da minha pesquisa nas universidades do Brasil e do exterior. Nas oportunidades tenho me dedicado a expor minha experiência de mestrado como beneficiário da política afirmativa.”

Por outro lado, implementar a Política Afirmativa significa apostar na existência de diferença de fato entre os modelos de conhecimentos, longe da ótica de justiça social, na medida em que, o mestrado e doutorado são espaços de produção de conhecimentos. Digo isso porque, Eu, ao lançar mão da Antropologia para estudar meu conhecimento (Tukano), pude perceber que a concepções Tukano, operam com categorias e conceitos que aproximam e distanciam dos conceitos da ciência sobre a mesma realidade e o mestrado foi um bom lugar para “revelar” tal diferença.

João Paulo (E) em seminário na universidade
João Paulo (E) em seminário na universidade

Esta decisão, para além da concessão da oportunidade de acesso dos indígenas ao ensino de pós-graduação, deve ser motivada, acima de tudo, pelo desejo e necessidade dos Programas de acolher em seu interior a contribuição, de fato, do conhecimento indígena. Este acolhimento significa, em última instância, uma pretensão de achatar a assimetria que tanto marca a oposição entre os chamados conhecimentos científicos e os conhecimentos tradicionais. Tal decisão, porém, exige certas mudanças, deslocamento e ajustes na estrutura e na forma de ação dos Programas, isto é, este não pode acolher os alunos indígenas esforçando-se apenas em adequá-los ao atual e característico modus operandi.

Dito de outra forma, é surpreendente o parecer da Procuradoria Jurídica da Ufam de acabar com a política de reservas de cota para alunos de pós-graduação, na medida em que a Política Afirmativa está sendo implementada há cinco anos no Programa. Acabou com a expectativa dos estudantes indígenas que estão dedicando na elaboração de projetos e nas leituras de textos para participar da seleção de forma diferenciada. Acabou com a expectativa dos povos indígenas. Por outro lado, essa tomada de decisão expôs a ‘cara’ da Ufam, isto é, a Universidade não tem a Política Afirmativa como Política Institucional, e é contraditório num estado com maior diversidade indígena do país. Enfim, a sociedade está em função da Lei? Ou a Lei que está em função da sociedade?

João Paulo Barreto é indígena da etnia tukano, nascido na aldeia São Domingos em São Gabriel da Cachoeira (AM). É graduado em Filosofia e mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Comentários

Comentários

Já que Tamo junto até aqui…

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Ajude

mais lidas