Prisão na ditadura mudou a vida de dois operários do cinema da Boca do Lixo

    Em 1973, Virgílio Roveda e Roberto Leme foram torturados no Doi-Codi; Virgílio conseguiu retomar a vida, mas o trauma fez Roberto perder o rumo para sempre: “virou outra pessoa”

    Virgílio Roveda, o Gaúcho, e Roberto Leme, o Robertinho: dois amigos, duas vidas dilaceradas pelo regime militar

    Rua Tutóia, bairro do Paraíso, zona sul da cidade de São Paulo. Toda vez que o avô Virgílio Roveda passa por esse endereço, sente um estranho desconforto. Sua voz fica baixa e ele pode chegar a tremer.

    Aos 74 anos, o baixinho, bigodudo e falastrão Roveda foi um dos técnicos mais atuantes do cinema paulista entre as décadas de 1970 e 1980. Trabalhou em mais de 60 longas-metragens nas mais variadas funções desde eletricista, assistente de câmera, diretor de fotografia e até produtor. Seu apelido na área cinematográfica é Gaúcho. Esse cognome foi dado pelo ator e cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ainda nos anos 1960. Os dois atuavam profissionalmente numa região do centro de São Paulo conhecida como Boca do Lixo.

    “Eu vim da minha terra natal (Vacaria, Rio Grande do Sul) e trouxe uma faca de presente pro Mojica. Mas ele ficou com medo e saiu correndo. Daí começaram a me chamar de Gaúcho, Gauchinho e ficou”, relembra rindo. Mesmo veterano, Roveda ainda busca novas oportunidades na sétima arte. Fotografa alguns trabalhos, mas sente dificuldade em se atualizar no atual momento do cinema brasileiro e da cultura nacional. Ele não tem encontrado muitas oportunidades. “Existem muitos preconceitos. Seja pela idade, pela gente ter militado na Boca ou mesmo porque esse negócio de editais é complicado”, diz ele, com um sorriso amarelo e sem muito otimismo.

    Roveda é avô de três crianças: Mariana, Murilo e da menorzinha Maria Luiza. Seus netos não sabem, mas Gaúcho sobreviveu a um dos momentos mais difíceis da sua vida na rua Tutóia. “Eu não gosto de falar disso. Não gosto mesmo”, fala, tentando mudar de assunto. “Toda vez que aparece algo sobre isso na televisão, ele começa a passar mal. Tem vezes em que ele está dormindo e se movimenta todo, começa a suar”, conta Norma Guirado Roveda, esposa de Gaúcho há mais de quarenta anos.

    Gaúcho segura a câmera durante a produção de “O Sexo e As Pipas” (1982), rodada em Salesópolis (SP) | Foto: Arquivo pessoal

    O episódio que marcou Gaúcho aconteceu no segundo semestre de 1973. Mas ele conseguiu vencer o problema e seguir em frente. Já seu ex-sócio e amigo de todas as horas o montador Roberto Leme, o Robertinho (1942-2004) não teve a mesma sorte. “O Roberto foi o melhor amigo que tive dentro da profissão. Nós nos conhecemos no primeiro filme que fizemos juntos: O Diabo de Vila Velha, em 1965. Fomos de trem juntos da estação da Luz para Ponta Grossa (interior do Paraná) onde foi filmada essa produção. Ficamos amigos dali até eu segurar o caixão no velório dele.”

    O amigo que os militares destruíram

    O magricela e boa-pinta Roberto Leme iniciou sua carreira no cinema naquele início da década de 1960. Tinha se formado como padre num seminário onde estudou filosofia e teologia. Mas não chegou a exercer o sacerdócio. “A irmã dele me contou que esse foi o primeiro baque dele. O Roberto foi dispensado porque achavam que ele não tinha vocação para ser padre. Isso o deixou profundamente chateado”, lembra Dalete Cunha, também montadora e viúva de Roberto. Ela ficou conhecida no meio da Boca paulista pelo apelido de Baixinha.

    O montador Roberto Leme (1942-2004): como Gaúcho, ele foi uma vítima da ditadura militar | Foto: Arquivo pessoal

    Mas Robertinho também tinha vocação musical. Ele estudou piano durante dez anos e conheceu canto gregoriano no seminário. “Eu não sabia que ele tinha tanta habilidade com piano. Só descobri isso na nossa lua de mel que foi num navio. Ele deu vários recitais chamando a atenção de todos. Aquelas músicas sobre o personagem do Zé do Caixão quem compôs foi o Roberto, mas nunca deram crédito ou pagaram algum direito musical”, rememora Dalete Cunha.

    Nos anos 60, uma rara imagem que mostra os dois amigos juntos numa filmagem; Gaúcho é o primeiro da esquerda e Roberto, o último à direita | Foto: Arquivo pessoal

    A paixão pela música levou Roberto para a carreira cinematográfica. Seu desejo inicial era ser ator. Mas acabou destacando-se na Boca por outra atividade profissional: a finalização, a montagem. “Dizíamos que a sala de montagem funcionava como sala dos milagres”, diz Gaúcho rindo. “A gente dizia que o Roberto não era um montador, mas sim um relojoeiro. Porque ele era extremamente concentrado e caprichoso no que fazia”, relembra o amigo. Os fatos comprovam isso. Roberto montou mais de 40 longas-metragens paulistas. “Ele era o melhor daquela geração de montadores”, opina Dalete Cunha.

    Roberto Leme tornou-se um dos técnicos mais requisitados do cinema de São Paulo. Ele trabalhou diversas vezes com a produtora Cinedistri do produtor Osvaldo Massaini (1920-1994). Mesmo com a erotização do cinema da época, Massaini conseguiu fazer algumas verdadeiras superproduções para a época: Independência ou Morte (1972) de Carlos Coimbra e O Marginal (1974) de Carlos Manga. Os dois tiveram participação direta de Roberto. “A verdade é que ele montou o Independência. Ele foi enviado para fazer essa montagem no Rio de Janeiro”, assegura Dalete, que trabalhou ao lado do marido diversas vezes. Apesar dessa versão, Roberto aparece como assistente de montagem na ficha técnica da produção.

    O Marginal foi um filme policial protagonizado por Tarcísio Meira e Vera Gimenez que conseguiu ser um sucesso de crítica e público. O argumento e roteiro foram assinados pelos dramaturgos Dias Gomes e Lauro César Muniz. A trilha sonora pela dupla de compositores Roberto e Erasmo Carlos. Roberto Leme foi o montador e editor.

    Robertinho também montou duas produções do ator e produtor Amácio Mazzaropi: O Grande Xerife (1972) e Portugal…Minha Saudade (1973). “O Mazza era o único da época que trabalhava com o som direto. Mas ele só contratava os melhores técnicos”, garante Gaúcho que foi assistente de câmera em nove filmes do produtor. Dalete lembra-se que uma vez ela e Roberto encontraram-se por acaso com Mazzaropi na Praia Grande, litoral sul de São Paulo. “O engraçado é que na vida real o Mazzaropi era uma pessoa muito séria. Andava de terno, cabelo engomado com gel, carro de chofer. Foi muito simpático conosco e gostava do Robertinho”, lembra.

    O dia que mudou tudo

    A carreira do montador poderia ter ido mais longe. Mas tudo mudou naquele segundo semestre de 1973. Nem Gaúcho nem Roberto tinham militância política ou eram de alguma organização contrária à ditadura. Gaúcho e Roberto eram operários do cinema. Não tinham ideais políticos. Os dois moravam num apartamento alugado na rua Helena Zerrener, 104, Baixada do Glicério, centro de São Paulo. A região sempre foi habitada por uma classe média baixa. Historicamente, os cortiços foram comuns no bairro. O problema é que eles alugaram o apartamento de um jovem estudante de economia chamado Pedro Camargo.

    “O Roberto tinha estudado na infância com esse rapaz. Então, um dia eles se encontraram na rua por acaso e o Pedro chamou os dois para morarem lá. Isso porque o Roberto contou que ele e o Gaúcho moravam nos estúdios de filmagem do Zé do Caixão. Dormiam dentro do caixão inclusive”, explica Dalete. Pedro estudava na USP (Universidade de São Paulo) e era suspeito de ter lutado contra a ditadura. Logo, todas as pessoas próximas a eles eram suspeitos de serem “subversivos” ou “terroristas”. Gaúcho e Roberto sabiam que essa possibilidade existia, mas não imaginavam que a violência do governo chegaria até eles como chegou.

    Os dois amigos foram capturados por duas viaturas policiais. Foram encapuzados e levados inicialmente para as dependências do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) localizado no largo General Osório, centro de São Paulo. Depois foram para o Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão localizado na rua Tutóia, dirigido pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chamado de “herói nacional” pelo atual presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

    Foi no Doi-Codi que que ficaram presos. Gaúcho acredita que por duas semanas. Dalete afirma que foi uma semana. “Eles perderam completamente a noção de tempo lá dentro. Isso fazia parte da tortura mental que fizeram com eles.”

    As lembranças são as piores possíveis. “É um pavor total. Você não tinha noção de nada: tempo, futuro. Você só ouve gritos, gemidos. É terrível”. Nos interrogatórios, davam um pedaço de papel e uma caneta. A ideia era que os dois dessem nomes de pessoas que estivessem colaborando com movimentos comunistas ou esquerdistas. Mas Roveda afirma que não conhecia ninguém que estivesse engajado na luta política. “Eu ia colocar o nome de quem? Mazzaropi? Mojica? David Cardoso?”. Os interrogatórios diários eram acompanhados de tortura física (socos, pontapés, golpes, palmatória, cadeira do dragão) e morais (simulação de execução, ofensas de baixo calão, ameaça de torturas de familiares). “Aquilo que fizeram com eles foi brutal”, explica Dalete Cunha, de maneira emocionada.

    Roberto e Dalete eram noivos quando aconteceu a prisão. O montador foi detido com uma aliança que levava o nome da amada. “Os militares queriam saber quem era aquela Dalete da aliança. As torturas aumentaram e mesmo assim ele não revelou. O Roberto manteve-se firme”, relembra emocionada. Na época da prisão, os dois foram tidos como desaparecidos. Dalete foi atrás do irmão de Roberto chamado Benedito, que era despachante, e eles passaram a correr pelos distritos policiais da cidade atrás dos dois. “Nós chegamos a ir no IML (Instituto Médico Legal) para abrir as gavetas atrás dos corpos deles”. A viúva afirma que a aliança e vários pertences dos dois amigos foram apreendidos pelas autoridades militares.

    Dalete lembra que Gaúcho e Roberto foram soltos num domingo. “Eles estavam física e emocionalmente arrasados, destruídos. Acabaram indo pra casa dos meus pais, onde ficaram meses dormindo em colchonetes. Não deixamos eles voltarem para o apartamento de jeito nenhum”.

    Roveda diz que a readaptação para a vida diária não foi nada fácil. “Você sempre fica suspeitando, olhando para os cantos. Com medo de te pegarem de novo, de viver aquilo tudo de novo. É terrível”.

    Os nomes de Roberto Leme e Virgílio Roveda estão nos arquivos do Dops. O boletim informa que os dois estiveram prestando depoimento no órgão entre os dias 3 e 4 de outubro de 1973 por terem ligações com Pedro de Camargo (vulgo “Fábio” Ou “Joel”). Existem diversos Pedro de Camargo citados nas fichas.

    Mas o único Pedro de Camargo que tem os codinomes Fábio e Joel nasceu em 9 de setembro de 1945 em Cerquilho, interior de São Paulo, e foi indiciado pela Lei de Segurança Nacional por “atividades subversivas terroristas” pelos grupos guerrilheiros ALN (Ação Libertadora Nacional), VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) e MR-8 ( Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Ele acabou preso em 4 de novembro de 1973. Em 1974, foi colocado em liberdade e, dois anos depois, julgado e condenado. Permaneceu preso por mais dois anos e seis meses, até ser libertado em 10 de abril de 1978.

    “Robertinho virou outra pessoa”

    Já Gaúcho e Roberto se tornaram sócios em 1974. Os dois fundaram a produtora Prodsul Cinema e Audiovisuais, empresa destinada a prestação de serviços dentro da especialização de seus sócios. Gaúcho atuava como assistente de câmera e diretor de fotografia e Robertinho como montador. O escritório da Prodsul era sediado num dos andares da mítica Rua do Triunfo, 173, na Boca paulista. Os dois chegaram a ser donos de uma sala de cinema chamada Cine São Paulo, na cidade de Dourado, interior de São Paulo. Ambos também produziram dois longas-metragens: O Sexo e As Pipas, de José Vedovato, e A Opção: Rosas da Estrada, de Ozualdo Candeias.

    Virgílio Roveda, o Gaúcho, como assistente de direção de “Meu Nome É…Tonho” (1969) de Ozualdo Candeias | Foto: Arquivo pessoal

    Dalete e Roberto se casaram no civil e no religioso numa quinta-feira, 5 de dezembro de 1974, na paróquia de Santa Ifigênia, centro de São Paulo. “Foi um momento inesquecível. Casamos pertinho da Boca para os amigos irem direto dos bares para a cerimônia. Enchemos a igreja de gente do cinema”, lembra Dalete. Na ocasião, Gaúcho foi padrinho, fez as fotos da cerimônia e gravou o filme.

    As sessões de tortura deixaram danos irreversíveis tanto em Gaúcho como em Roberto. O diretor de fotografia sulista sofre de uma deficiência no ouvido até hoje. Já o montador Roberto Leme sofreu alucinações e ficou com mania de perseguição. “O Robertinho virou outra pessoa. Ficou violento. Mudou a personalidade dele completamente”, garante Dalete, emocionada. Tanto que o próprio casamento dos dois foi abreviado e acabaram se separando alguns anos depois. Roberto não tinha hábitos etílicos. Após o episódio da prisão, começou a beber e a se atrasar para compromissos pessoais e profissionais. “Ele tornou-se alcoólatra. O Roberto bebia pinga pura. Tivemos duas filhas e aquilo foi me enchendo. Ele ficava muito desequilibrado e passou a ser um risco para as meninas.”

    Roberto anos antes de ser torturado; a ditadura destruiu “sua saúde, seus sonhos, sua família e sua vida”, conta a viúva | Foto: Arquivo pessoal

    O montador chegou a se atrasar inclusive para o casamento de Gaúcho e Norma em 1979. Acabou perdendo a chance de ser padrinho. “A Dalete acabou atrasando para o casamento e os tios da Norma substituíram eles”, lembra Roveda, rindo. Já Dalete Cunha conta outra versão. Ela garante que a culpa do atraso não foi dela: “O Roberto foi buscar uma câmera para gravar o casamento. Mas ele passou num boteco com um pessoal e atrasou tudo. Ele já não estava bem de cabeça”.

    Compositor, maestro, poliglota, seminarista, montador cinematográfico. Roberto Leme acabou encerrando sua vida como porteiro de um prédio. “O Roberto poderia ter sido muito mais. Tudo acabou sendo sequela daquele triste episódio. Destruíram sua saúde, seus sonhos, sua família e sua vida”, lembra Dalete.

    Casamento de Gaúcho e Norma em 1979: Dalete e Roberto chegaram atrasados | Foto: Arquivo pessoal

    Passados quase 47 anos da prisão dos dois, tanto Roberto como Gaúcho nunca receberam nenhuma indenização. Dalete entrou com um pedido num escritório de advocacia. “A advogada que cuida do caso afirma que os processos foram abertos. Mas até agora não obtivemos nenhuma resposta. Já faz três anos que entregamos os documentos que nos pediram. Mas, com esse governo infame que infelizmente está aí, não tenho esperança de que aconteça alguma coisa”, lamenta Dalete.

    Especializado em direitos humanos, o advogado Pablo Biondi é o encarregado do caso. Mas ele não tem grandes esperanças. “Infelizmente, os processos estão parados, já que a Comissão de Anistia está trabalhando num ritmo decrescente. Aliás, sob o atual governo, esse quadro se agravou muito. Sem nenhuma novidade ainda”, lamenta.

    Matheus Trunk é jornalista e autor dos livros O coringa do cinema (Giostri, 2013), que conta a vida de Virgílio Roveda e deu origem a um documentário, e Dossiê Boca: personagens e histórias do cinema paulista (Giostri, 2014)

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