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Professor gay morto em Jaú (SP) foi vítima de homofobia, aponta pesquisador

19/03/21 por Caê Vasconcelos

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Para Dennis Pacheco, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o assassinato de Ricardo Nicola, 52, após marcar encontro em aplicativo, tem indícios de homofobia porque os suspeitos premeditaram o tipo de vítima que atacariam

Ricardo Nicola foi morto dentro de casa depois de um encontro em um aplicativo de relacionamentos | Foto: Reprodução/Facebook

O professor Ricardo Nicola, 52 anos, tinha paixão por ensinar, contam as suas alunas ouvidas pela Ponte. Ricardo era docente de comunicação da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em Bauru, interior de São Paulo, desde 1986. Mudou a vida de muitos alunos.

Elas também contam o espanto de saber que o querido professor foi brutalmente assassinado dentro da própria casa depois de marcar um encontro, segundo as alunas entrevistadas, no aplicativo de relacionamentos Tinder. O corpo dele foi encontrado no fim da manhã desta quarta-feira (17/3), no bairro Jardim Parati em Jaú, também no interior.

Segundo o UOL, a polícia investiga o assassinato do professor como latrocínio, roubo seguido de morte, porque os suspeitos levaram o carro, o celular e os cartões bancários do docente. Nicola foi encontrado com marcas de agressão e perfurações “provavelmente causadas por facadas”. Os suspeitos, ainda de acordo com o UOL, foram presos na Lapa, zona oeste da cidade de São Paulo, a 287km do local do crime.

Apesar de o crime ser investigado como latrocínio, alunos e ex-alunos apontam indícios de homofobia na morte. A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública sobre as investigações e se homofobia fazia parte da linha da Polícia Civil. Em nota, a pasta informou “o caso segue em investigação como latrocínio pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Jaú, que apura todas as hipóteses do crime”.

Ana Carolina Boccardo Alves, 43 anos, gerente de comunicação, aluna de Nicola em 1998, conta que ele “nunca esteve no armário”. “Ele sempre foi assumido e isso nunca, obviamente, nunca foi um problema, nem deveria ser pra ninguém. Sempre foi uma coisa bem clara lá na universidade”.

Leia também: LGBTIfobia virou crime: por que nem todo mundo está comemorando

Para Dennis Pacheco, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crime pode ter sido latrocínio, mas a homofobia não pode ser descartada. “Quando você se cadastra [no Tinder], você pode escolher se o seu interesse é por homens ou mulheres. Eles escolheram homens, então a motivação de homofobia é explícita. É algo que, para mim, não cabe nem discussão nesse aspecto da motivação”.

Dennis também avalia que é preciso uma responsabilização do aplicativo de relacionamento em um caso como esse. “Quando você tem uma plataforma que se diz diversa, que tem, portanto, pessoas LGBT, como que você se propõe a lidar com a vulnerabilidade deste público? Me parece que o Tinder e outros aplicativos não estão preocupadas com a integridade física dos usuários, com a cooperação em relação a quebra do anonimato”.

O pesquisador aponta, ainda, que é preciso identificar, na perícia e no laudo médico, a intensidade das facadas. “Em um caso de feminicídio, por exemplo, é comum que a intensidade da facada não mude. Em um crime comum tem redução da força da facada conforme o tempo passa. Então, a última é mais fraca que a primeira. Em um crime de ódio, essa diferença entre a força não muda”.

Órfãs de orientador

Em entrevista à Ponte, a professora Luciana Marostica, 46 anos, que dá aulas para o ensino fundamental há 25 anos, conta que Nicola a motivou a voltar a estudar. Depois de um longo período de idas e vindas, ela decidiu começar a fazer mestrado e era orientada pelo docente.

“Nos conhecíamos há 20 anos mais ou menos. O conheci em uma palestra na rede de ensino e nos tornamos amigos. Ele era um profundo admirador dos profissionais da educação e sempre tentou contribuir pra isso também. E eu sempre dizia pra ele que eu queria fazer mestrado, mas com ele, queria ser aluna dele”.

Nicola dizia para Luciana que, quando ela estivesse pronta, era só procurá-lo. “Por diversas circunstâncias pessoais isso não foi possível. Mas, há um ano, eu comecei a repensar, voltei a falar com ele sobre isso. Ele perguntou se eu tinha certeza que estava pronta para isso”.

E ela estava. Preparou o projeto e participou do processo seletivo de mestrado. “Entrei como aluna especial do mestrado em Mídias e Tecnologias. Tivemos duas aulas presenciais e a pandemia teve início. Voltamos pra dentro de casa”.

Durante a pandemia, Nicola não parou de ensinar e orientar seus alunos. “Eu tive aula com ele quarta-feira passada, ele fez uma aula inaugural e participei como ouvinte. Ontem de manhã eu tinha aula por chamada de vídeo, e ele era sempre foi pontualíssimo, tanto em âmbito profissional como social. Eu chamei e ele não visualizou”.

Estranhando a demora de Nicola de aparecer, Luciana acionou outra aluna. “A gente já começou a ficar preocupadas. Porque ele tinha não essa característica. Em pouco tempo, ficamos sabendo que ele havia morrido”.

Imediatamente Luciana ficou paralisada com a notícia. Para ela, é como se tivesse ficado órfã, mas de orientador. “Eu estava com meu note aberto, com meu material aberto pra falar com ele e ali eu fiquei durante três horas sem conseguia levantar. Eu não conseguia acreditar. Porque, até então, a gente sabia que ele tinha sido encontrado morto dentro de casa, mas não sabia os detalhes. E foram piores do que eu imaginava”.

“Eu eu não sei se foi um crime homofóbico, mas eu creio que em razão de ele ser homossexual, ficou mais vulnerável. Apesar da inteligência do Ricardo, da sabedoria dele, eu creio que talvez ele tenha caído numa armadilha, infelizmente”.

Leia também: ‘Além de crime, homofobia é pecado’: religiosos apoiam movimento LGBT+ na Parada

A jornalista Monique Souza, 34, também aluna de mestrado de Nicola, se emociona ao falar do professor à Ponte. Ela também conta como foi incentivada pelo professor a fazer parte do curso e também tem o sentimento de ter se tornado órfã.

Atencioso e cuidadoso são os adjetivos que definem Nicola para Monique. “Ele apostou em mim, me deu a oportunidade de ser mestranda dele. Ele sempre foi muito aberto, muito disposto, ele adorava dar aulas”.

“O tema da minha pesquisa era entender como as notícias nascem dentro do ambiente digital. E aí ontem eu recebi em um grupo de trabalho o link com a notícia. Foi 13h50, às 14h ele iria dar aula. Eu levei um choque quando vi a foto dele e o título da notícia”, lamenta.

“O que me deixou mais triste é que a gente vinha pesquisando esses fenômenos que acontecem a partir das plataformas digitais. E agora eu vejo ele lá, sendo compartilhado na web, nas redes sociais. E eu fiquei pensando, meu Deus, Nicola, agora é ele aí na rede”.

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Monique conta que o professor tinha um “coração aberto” e que os suspeitos usaram isso. “Essa pessoa se aproveitou da bondade do Nicola. Ele foi muito ingênuo, acredito, né? É tanta bondade que não viu a maldade, o risco, né? Não descarto a possibilidade que seja homofobia, mas foi alguém muito interesseiro. Muito maldoso e interesseiro”.

Outro lado

Em nota enviada por e-mail, em inglês, o Tinder informa que “estamos profundamente entristecidos em saber do terrível assassinato de Ricardo Nicola. Nossos pensamentos estão com a família dele e as pessoas que ele amava. Como em todos os casos, nos prontificamos a cooperar completamente com as autoridades em apoio às investigações”.

ATUALIZAÇÃO: esta reportagem foi modificada às 20h57 do dia 19/3/2021 para incluir o posicionamento do Tinder

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