Protesto pede punição da Sabesp por homicídio de Guilherme, 15 anos

12/07/20 por Arthur Stabile

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Policiais suspeitos de matar adolescente faziam segurança de terreno da Globalsan, que presta serviços à companhia de saneamento

Manifestantes deixaram cartazes em frente à Globalson, terceirizada da Sabesp | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Familiares e amigos de Guilherme Guedes, 15 anos, sequestrado e assassinado no dia 14 de junho, protestaram neste domingo (12/7) para pedir justiça e relembrar um mês do homicídio. Ao marchar pelas ruas da Vila Clara, na zona sul da cidade de São Paulo, cobraram a responsabilização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e da Globalsan, empresas ligadas aos terreno vigiado por dois policiais militares suspeitos de matar Guilherme.

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O ato teve início na casa em que o adolescente morava com a avó, a cerca de 300 metros de um terreno pertence à Globalsan. A empresa presta serviços de encanamento e tubulações para a Sabesp, conforme explicado à Ponte por um funcionário dias após o sumiço e morte de Guilherme. Os caminhões apenas usam o logo da Sabesp, sem ter vínculo direto com a empresa, segundo este funcionário.

Mãe do adolescente, Joyce (braço cruzado) puxou a manifestação | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Na data do desaparecimento, duas pessoas entraram no terreno. Segundo apurado pela reportagem, eles iriam pular para um supermercado vizinho, onde pegariam comidas vencidas. Os dois teriam sido perseguidos por policiais militares que trabalhavam como seguranças do terreno. Ao saírem de um beco, os policiais encontraram e capturaram Guilherme, que não tinha relação com a invasão do terreno.

Os PMs eram contratados de forma terceirizada, por meio da empresa Campos Forte Portarias Ltda, da qual o PM Adriano Campos é um dos donos, junto com seu pai,  o PM aposentado Sebastião Alberto de Campos. Adriano está preso no presídio militar Romão Gomes, considerado pela Polícia Civil o principal suspeito pelo crime. A empresa prestava o serviço de segurança à Globalsan de forma irregular, pois está registrada como serviço de zeladoria (portaria).

Na caminhada de hoje, as pessoas levaram até a entrada da empresa. Nenhum funcionário foi ao portão questionar a movimentação. Era possível verificar apenas a presença de um cachorro. Depois de coro de “justiça” e exaltação da memória de Guilherme, os familiares deixaram os cartazes no portão da Globalsan.

Em determinado momento, a PM chegou e solicitou nome e RG de um integrante da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, que auxiliou no protesto e na elaboração dos cartazes. Segundo o sargento Cláudio, presença visava assegurar “segurança” na caminhada de volta à casa – o que de fato ocorreu com uma viatura e duas motocicletas da corporação.

Além de Adriano Campos, o ex-PM Gilberto Eric Rodrigues é suspeito de participar do sequestro e morte. Ele foi acusado de participar de chacina no Jardim Rosana, quando sete pessoas foram assassinadas, também na zona sul de São Paulo, em 2013. Dois anos depois, aprisionado no Presídio Militar Romão Gomes, Gilberto fugiu ao pular uma cerca do presídio.

Ao fim do ato, familiares e amigos colaram cartazes no portão da empresa | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Imagens de câmeras de segurança flagraram quando Adriano saiu de um beco de onde Guilherme foi levado. Outro homem também aparece. Para a Polícia Civil, se trata de Gilberto. Ele teria permanecido no banco traseiro do carro em que Guilherme foi levado, com o motorista sendo o PM dono da empresa de segurança, segundo a Polícia Civil.

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Advogado de Adriano, Gustavo Renato Nascimento Soares, responsável pela defesa do policial junto de Mauro Ribas, nega que ele tenha cometido o crime. Na quinta-feira (9/7), Adriano esteve no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e ouviu dos investigadores que será indiciado por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e não dar chance de defesa à vítima.

Antônia Arcanjo, avô de Guilherme, passa mão em arte feita em memória ao neto | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Segundo Soares, a defesa ainda não foi informada oficialmente do possível indiciamento. “O Adriano permaneceu em silêncio, como tem feito. Ele falará quando todas aprovas forem coletadas e se defenderá ponto a ponto”, afirma. O advogado admite que o PM esteve na Globalsan na madrugada do dia 14 de junho. No entanto, nega o crime. “Esteve lá por causa da invasão, recomendou o pessoal a chamar 190”, diz.

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A Ponte questionou a Sabesp por e-mail se a empresa mantém contrato com a Globalsan, se considera ter alguma responsabilidade pelo crime e qual resposta daria à família de Guilherme Guedes e aguarda uma resposta.

Em junho, após o crime, a empresa explicou que “o local não pertence à companhia. Trata-se de área particular, apartada, que serve de canteiro de serviços de empresa contratada por licitação. A Sabesp lamenta o ocorrido, pedirá esclarecimentos à empresa e está à disposição das autoridades policiais no que for necessário”. Outro posicionamento enviado à Ponte aponta que a área”não pertence à companhia nem está sob sua responsabilidade”.

Às 13h55 desta segunda-feira (13/7), a Sabesp enviou à reportagem o mesmo posicionamento dado anteriormente. “A Sabesp informa que o local não pertence à companhia. Trata-se de área particular, apartada, que serve de canteiro de serviços de empresa contratada por licitação. A Sabesp lamenta o ocorrido e está à disposição das autoridades policiais no que for necessário”, diz a nova nota.

Atualização às 14h17 de segunda-feira (13/7).

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