Quatro PMs são presos suspeitos de matar jovem e alegar confronto em Goiás

24/08/19 por Sarah Teófilo, de O Popular

Compartilhe este conteúdo:

Segundo investigação, vítima de 20 anos foi colocada em viatura e morta em uma rua de terra; Polícia Civil chama caso de ‘provável e repugnante execução’

Thiago Renato foi morto por PMs em ação com suspeita de ilegalidade. “Só tive a confirmação (da morte) quando vi o carro do IML chegando”, conta a mãe, Márcia Braga Rocha, 52 anos | Foto: Douglas Schinatto/ O POPULAR

Quatro policiais militares do Batalhão de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) de Goiás foram presos preventivamente suspeitos do homicídio do estudante Thiago Renato Braga Rocha da Costa, 20 anos. Ele foi morto no Residencial Felicidade, em Goiânia, no dia 18 de julho, em uma ação registrada pelos militares como confronto. Testemunhas, entretanto, deram versões diferentes da dos policiais, alegando que o jovem foi abordado, colocado na viatura e levado a uma rua de terra, onde foi morto com dois tiros. Um deles atingiu o coração.

A investigação foi feita pela Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH) de Goiás, que em relatório de pedido de prisão preventiva afirma que a ação dos PMs não se trata “de um simples erro, mas de uma provável e repugnante execução, em que a vítima foi, sem qualquer justificativa, agredida, colocada em uma viatura e transportada para um lugar ermo, onde foi alvejada por disparos que tiveram origem nas armas de policiais militares”.

Os PMs suspeitos são Marcos Vinícius Martins de Lima, Mauro Roberto Ribeiro Júnior, Paulo César da Costa Santos e Carlúcio Evangelista Caiado, detidos no Batalhão da Rotam. Três deles foram presos no último dia 16 e outro no dia 19.

A Polícia Civil afirma no relatório que a versão dos policiais tem “características de dissimulação”. Uma das testemunhas ouvidas no inquérito diz ter sido parada pelos quatro militares antes da abordagem que vitimou Thiago. A testemunha afirmou que estava com outros dois amigos no Jardim Guanabara no momento em questão. Os três foram levados a um terreno baldio onde, conforme depoimento, foram agredidos. Os militares tinham como intuito que eles confessassem supostos crimes, assim como a localização de armas ou de possíveis comparsas, segundo a testemunha.

Em determinado momento, conforme relato, um policial disse que se não dessem o nome de algum traficante, tinham armas na viatura “que era para trocar tiro” e depois colocar neles. Após cerca de 30 minutos, um deles disse o nome de Thiago “Goku”, apelido de Thiago Renato. A testemunha, entretanto, disse acreditar que o amigo indicou o jovem apenas para cessar as agressões e porque seu colega “não gostava de Thiago”.

Os três foram colocados na viatura para encontrar o jovem, que foi visto em uma praça do bairro. Thiago teria ido ao local para jogar futebol, como relatado pela própria família. Depois de encontrado, um dos policiais levou os três que estavam na viatura para outra rua e os liberou.

Na abordagem, Thiago estava próximo a um muro do aeroporto, ainda na praça, com outros três colegas. Um deles afirma que haviam parado de jogar bola para fumar maconha. Conforme outro depoimento, os policiais perguntaram quem era “Goku”. Depois, perguntaram o nome de cada um. Quando Thiago disse o seu, um dos policiais teria dito: “é esse, Stive.” “Stive” é uma forma como policiais por vezes usam para se dirigir a outros policiais durante ocorrências. 

Dos quatro jovens, dois foram liberados. Em seguida, o outro foi solto, restando apenas Thiago. Uma testemunha conta que viu Thiago levando socos dos policiais e em seguida sendo colocado na viatura. Um policial, que foi devolver duas bicicletas dos abordados, chegou a dizer a uma das testemunhas que iriam liberar Thiago, mas que ele pulou o muro e fugiu.

Depois que a viatura saiu, no entanto, um familiar que também estava no local seguiu o veículo de bicicleta, junto com um amigo de Thiago, ao mesmo tempo em que informava aos pais do jovem o que estava acontecendo. Thiago foi, então, levado a uma estrada de chão, onde os PMs alegaram a troca de tiros.

A reportagem apurou que o familiar de Thiago juntamente com um amigo do jovem chegaram perto do local, mas saíram correndo para uma rua de asfalto ao ouvir barulho de tiros e se esconderam embaixo de um veículo. A estrada de chão tem um matagal de ambos os lados. O corpo de Thiago ficou bem próximo à mata, no fim da rua.

Os militares também estão sendo investigados por fraude processual e denunciação caluniosa, por suspeita de terem plantado arma na cena do crime, e constrangimento ilegal, por obrigar testemunhas mediante grave ameaça a se manterem afastadas do local do crime.

Relato PM

O relato dos policiais em depoimento (veja mais no quadro abaixo) é no sentido de que estavam em patrulhamento, viram uma motocicleta com dois indivíduos em atitude suspeita, deram sinais para que parassem, mas ordem não foi obedecida.

Durante a perseguição, conforme militares, o homem que estava na garupa, identificado depois como Thiago, saltou e começou a disparar contra a viatura. Três dos quatro policiais, então, revidaram e Thiago foi atingido. Eles alegam que o motociclista fugiu e que pela baixa visibilidade, por estar escuro e ter muita poeira, não conseguiram ver as características da moto.

Próximo à vítima, segundo policiais, foi encontrada uma mochila com droga e duas balanças de precisão, além do revólver calibre 38, que teria sido usado contra a equipe, e munição.

Pais foram ameaçados ao tentar ver filho

Os pais de Thiago Renato Braga Rocha da Costa, 20 anos, morto por policiais militares no dia 18 de julho, afirmam que foram ameaçados pelos militares quando tentaram se aproximar do filho que havia acabado de ser baleado. Thiago foi morto em uma ação registrada pela Polícia Militar como confronto, mas que está sendo investigada pela Polícia Civil por indícios de ter se tratado de um homicídio em ação ilegal da PM.

Márcia Braga Rocha da Costa, 52 anos, disse em depoimento que no dia do fato foi informada pela filha mais velha que Thiago havia sido levado dentro de uma viatura do Batalhão de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam). Então, ela e o marido, o pintor Raimundo José da Costa, 56 anos, iniciaram buscas pelo filho no setor.

Ao chegar no local onde Thiago foi baleado, Márcia conta que desceram do carro, mas foram ameaçados por um dos policiais. Segundo ela, esse policial afirmou que se eles não deixassem o local, iria matá-los, e chegou a apontar uma arma para o seu marido. “Ele disse: ‘some daqui agora. Se você não sumir, eu vou atirar na sua cabeça e na dele. Vai morrer os dois aqui agora'”, contou.

Mesmo tendo visto o filho no chão de forma rápida, ela contou à reportagem que conseguiu identificá-lo pelas roupas e o corte de cabelo. Márcia diz que perguntou se era seu filho, ao que o PM respondeu que “não tinha filho de ninguém ali”. Apesar de todas as tentativas para saber se era Thiago, a mulher só conseguiu a confirmação quando o corpo do jovem estava prestes a ser levado.

“Eu achava que ele estava vivo, que só estava no chão. Fui na Corregedoria pedir ajuda duas vezes. Só tive a confirmação quando vi o carro do IML (Instituto Médico Legal) chegando. Aí acabou tudo”, relata. E completou: “Agora como que a gente pede ajuda a alguém se um policial faz isso? Que segurança a gente vai ter?”.

A reportagem enviou perguntas à Polícia Militar, mas não houve resposta até o fechamento desta edição. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou em nota apenas que “as investigações que culminaram no cumprimento de mandados de prisão contra quatro policiais militares estão sob a responsabilidade da DIH”, que “a Corregedoria da Polícia Militar também apura o caso” e que “as duas frentes investigativas contam com total apoio” da pasta.

Mais casos

Em abril deste ano, O Popular divulgou reportagem com dados que mostraram que nos primeiros dois meses deste ano havia tido um aumento de 39,4% no número de mortes em ações registradas com confronto contra a PM, comparando com o mesmo período do ano passado. Observando todo o ano de 2018, em relação a 2017, o aumento foi de 57%. Dados apontam uma média no ano passado de uma morte em confronto a cada 20 horas.

Um dos casos citados na reportagem foi o do estudante Kayque Denúbio Correia Mendanha, de 15 anos, e o autônomo Guilherme Junio Ferreira Evangelista, de 27. Os dois foram mortos no dia 2 de fevereiro na casa em que o adolescente vivia com os avós e um tio, no Jardim Progresso, em Goiânia. O caso foi registrado pela Polícia Militar como confronto, mas investigação mostrou diferente. Em relatório, a Polícia Civil também chamou o caso de “repugnante execução”. Dois policiais militares foram indiciados por homicídio simples na época.

Também neste ano houve a morte de Jefferson Alves Martins, de 25 anos, em Aragarças (GO), no dia 9 de fevereiro. Na ocasião, a ocorrência foi registrada por policiais militares como confronto. Jefferson, entretanto, enviou áudios para familiares minutos antes de ser morrer dizendo que estava detido, mas que acreditava que logo seria liberado, pois teria ocorrido um mal-entendido. Dois policiais chegaram a ser presos temporariamente suspeitos de matar Jefferson e fraudar a cena do crime. 

Publicado originalmente em O Popular

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo: