‘Segurança me deu soco porque questionei dois brancos furando fila do banheiro’, denuncia psicólogo negro

Jovem de 25 anos e a namorada denunciam ter sofrido agressões de funcionários do Mubarak Bar, em Guarulhos (SP), no domingo (19)

Railton Oliveira afirma que recebeu socos de segurança e acabou perdendo o alargador da orelha. Segurança tentou impedir registro | Fotos: reprodução

A bancária Camila Rodrigues, 33, conta que era a primeira vez que ia junto com seu namorado, o psicólogo Railton Oliveira, 25, para um show do rapper Djonga. Os dois compraram os ingressos, mas contam que não conseguiram nem ver a apresentação que aconteceu na madrugada de domingo para segunda-feira (20/12) porque foram agredidos por seguranças do Mubarak Bar, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

“Estávamos sentados em uma mesa, antes do show, meu namorado foi ao banheiro e voltou chorando”, lembra ela. Railton disse que levou dois socos no peito por um dos seguranças do estabelecimento. “Eu estava a fila do banheiro, já era o próximo a entrar, e passaram duas pessoas brancas e eu só questionei que tinha a fila e eles cortaram a fila”, afirma. “O segurança falou que eu estava tumultuando, me puxou para dentro do banheiro, me puxou para o canto e me deu dois socos no peito”. Segundo ele, as pessoas que estavam no local pediram para parar e Railton voltou para a mesa e contou à companheira o que havia acontecido.

“Nós pedimos para falar com o gerente e ele disse que eu estava exaltado, que eu estava tumultuando e que ele não poderia fazer nada naquela situação”. O casal voltou para a mesa onde estava. Depois, Railton decidiu ir ao banheiro novamente, mas desta vez acompanhado da namorada. “Ela foi para o feminino e eu para o masculino”, relatou. “Quando eu saí, o mesmo segurança estava arrumando confusão com outro cliente. Eu falei [para esse cliente] ‘cara, não discute com ele porque ele discutiu comigo e me agrediu'”. Em seguida, o psicólogo denuncia que o segurança o puxou e pegou pelo braço. “A Camila me segurou porque eles queriam me colocar para fora da casa, muito provavelmente para me espancar porque fora não tem câmera”, prosseguiu.

“A gente caiu no chão perto do camarote e, enquanto eu estava tentando me proteger, levei soco nas costas e a galera falando para não bater”, completou a bancária. Railton denuncia que recebeu socos, o que fez com o alargador que tem na orelha saísse. Os dois disseram que também perderam os óculos no meio da situação. “A todo o momento queriam me levantar para me colocar para fora e eu falei que só saía da casa com a polícia”, declarou o psicólogo.

Um dos vídeos gravados por Camila mostra um dos seguranças tentando impedir a filmagem. Em outro registro, em que não é possível ver os rostos, um diz que iria “meter o cacete lá fora”.

“Disseram que a gente estava errado, criando tumulto, paguei a minha conta e ficamos aguardando a polícia lá dentro porque esse mesmo segurança foi para o lado de fora e eles queriam que a gente saísse, sendo que eles me agrediram lá dentro”, relatou Camila. De acordo com ela, um rapaz que viu a situação chamou o casal para tomar uma água na mesa dele. Os dois decidiram ir para a frente do palco tentar relatar a Djonga, que já estaria no estabelecimento, mas não ainda no palco, o que havia acontecido. “A gente chamou o DJ, para explicar o que estava acontecendo, mas ele fingiu que não viu, tentamos outro que disse que não trabalhava na casa e ficamos esperando”.

O casal declarou que ao menos três pessoas reclamaram da presença deles ali e chamaram os seguranças. “Já pegaram ele com truculência de novo e fomos expulsos do local”, denunciou Camila. Os dois decidiram ligar para a Polícia Militar e ao menos seis viaturas teriam se deslocado para o local. “Toda a vez que a gente falava de racismo, um cabo perguntava ‘mas vocês sofreram alguma injúria racial?’, ninguém proferiu, mas você percebe que é um tipo de racismo velado”, explicou. “Duas pessoas brancas furam uma fila e um negro que está querendo falar que isso é errado é agredido: você vai me dizer que não é racismo? [O policial disse] ‘Quem vai dizer se é racismo ou não é o juiz'”.

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De acordo com o casal, um dos policiais disse que falaria com a gerência do bar, mas não retornou. Os dois foram encaminhados ao 1º DP de Guarulhos onde registraram o caso. Um dos seguranças, que segundo o casal foi quem segurou Railton, foi à delegacia, mas o agressor, que teria nome de Silvio, não. Os dois receberam apenas os termos de declaração sobre os depoimentos que fizeram e o pedido para exame de corpo de delito. Informaram que não receberam o boletim de ocorrência e que era a primeira vez que iam naquele bar.

O que diz o bar

Em uma troca de mensagens de Railton com um produtor do estabelecimento, de nome Rafael Marazzi, é dito que além da ocorrência dele de agressão, houve outra que não teria envolvido um segurança. E que ele estava aguardando retorno do dono da empresa de segurança, cujo nome não é mencionado. A Ponte tentou contato tanto com Rafael quanto pelos canais do bar, por e-mail, telefone e mensagem, mas não houve retorno.

O que diz a polícia

A reportagem também procurou a assessoria da Secretaria da Segurança Pública sobre o atendimento da PM e a investigação do caso pela Polícia Civil. A InPress, assessoria terceirizada da pasta, encaminhou a seguinte nota:

Os casos foram registrados pela Polícia Civil de Guarulhos. As vítimas foram orientadas pela equipe policial quanto ao prazo para representação criminal, por se tratar de crime de ação penal condicionada. As diligências prosseguem.

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