Aluna de escola estadual é vítima de comentários racistas de professora

Garota de 12 anos ouviu que seu cabelo era feio e que precisava ser alisado caso quisesse ficar bonita. Episódio aconteceu em Junidaí (SP) nesta sexta-feira (10)

Fachada da escola Cecília Rolemberg Porto Gueli, em Jundiaí (SP) | Foto: Reprodução / Google StreetView

O volumoso cabelo cacheado, unido aos olhos verdes e a pele negra da filha de Karen Daiana Naves Pinheiro sempre chamou a atenção e valorizou ainda mais a beleza da garota. Porém, o que é motivo de orgulho e empoderamento para a menina de 12 anos virou motivo de chacota e comentários de cunho racista vindos da sua professora de geografia na última sexta-feira (10/12), na escola Cecília Rolemberg Porto Gueli, em Jundiaí, interior do estado de São Paulo. 

Segundo a estudante, a professora Margarete Klovrza fez críticas ao seu cabelo da jovem dentro da sala de aula e na frente de todos os alunos. “Ela disse que meu cabelo é muito feio e não combina com o meu olho verde. [Falou] que eu precisava fazer uma escova ou passar um creme porque ele é muito bagunçado”, relatou a garota em um vídeo que ela postou nas redes sociais depois do episódio. 

A menina que foi agredida pela professora tem um irmão gêmeo que tem a mesma cor dos olhos e a tonalidade da pele e a textura de cabelo diferente. Dentro de casa isso nunca foi uma questão, de acordo com Karen Pinheiro, que tem mais um filho de 17 anos. Ela conta que no dia em que ocorreu o episódio a filha ficou muito abalada e chorou o dia inteiro.

“Eu cheguei em casa por volta das oito da noite e percebi que ela estava muito triste e com os olhos inchados de tanto chorar. Pedi para ela me contar o que tinha acontecido e ela disse que durante a aula a professora começou a falar dos meninos que eles eram bonitos e usou até o exemplo do irmão dela que tem o cabelo liso e que ele se tornaria um garanhão quando crescesse. Ainda falou que as meninas tinham que se cuidar e se arrumar”, revelou a mãe da garota.

Após ter sido constrangida pela própria professora na frente dos amigos, a estudante do sexto ano do ensino fundamental procurou a coordenação da escola para comunicar o fato, mas segundo Karen Pinheiro a menina não foi acolhida pelo corpo docente da escola, que se limitou a fazer com que a professora lhe fizesse um pedido desculpa e que tudo não tinha passado de uma brincadeira.

A mãe tentou contato por telefone com o coordenador do estabelecimento de ensino, identificado apenas como Adriano, mas informou que não foi atendida pelo profissional. “Eu liguei e ele me disse que não poderia me atender naquele momento porque estava dirigindo. Retornei a ligação momentos depois e ele não me atendeu mais”, relata a Karen Pinheiro.

A escola entrou em contato com a família apenas na segunda-feira (13/12), informando que a professora seria advertida por conta das declarações. Karen não está satisfeita com a postura da escola e abriu um boletim de ocorrência no 1º DP de Jundiaí. O caso foi registrado pela Polícia Civil como injúria racial. Em outubro deste ano, o Supremo Tribunal Federal  equiparou a pena deste tipo de delito com os crimes de racismo e não podem mais ser prescritos. Caso seja condenado, o autor das ofensas pode pegar uma pena de três a cinco anos. Se o crime for praticado contra menor de dezoito anos a pena é acrescida por mais um terço do tempo.

A frente Jundiaí Sem Racismo está acompanhado o caso ocorrido na cidade e compartilhou o vídeo feito pela estudante. O grupo repudia os fatos ocorridos na escola e a falta de iniciativa de acolhimento da professora. “O que aconteceu com esta garota em um colégio público estadual, onde a ação da professora, e a não tomada de decisão e providências cabiveis para omomento, o grau de importância zero para o ocorrido, por parte da direção e da coordenação do colégio, prova que a luta antirracista em conjunto com uma educação antirracista, se faz cada vez mais urgente e necessário”, disse o coordenador da frente Vanderlei Vicitorino.

Karen Pinheiro, negra como a filha, revela que também foi vítima de racismo na cidade. “Eu sou empresária e tenho duas lojas aqui em Jundiaí, uma delas na principal rua de comércio do município e muitas vezes as pessoas duvidam que eu seja a dona da loja por conta da cor da minha pele”.

A jovem está fazendo acompanhamento com psicólogos e também tem recebido muito apoio dos amigos de escola e da família. Como forma de resistência, ela termina o vídeo onde contou o ocorrido afirmando que não irá se abalar com comentários como os feitos pela sua professora. “Chega de preconceito! O meu cabelo não é bagunçado e não é feio. Eu sou crespa e não vou alisar o meu cabelo”.

Ajude a Ponte!

A Ponte entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

Por meio de nota, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo informou que abriu um processo de apuração preliminar e que vai ouvir todas as pessoas envolvidas no caso. A pasta ressalta que colocou à disposição a assistência do Programa Psicólogos na Educação. A secretaria diz que faz um trabalho conscientização contra o racismo em toda rede de ensino.

“Com o compromisso de combater casos de racismo, a Seduc-SP implementou neste ano a Trilha Antirracista, com formações presenciais e online destinadas a toda rede”, diz o comunicado.

Comentários

Comentários

Já que Tamo junto até aqui…

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Ajude

mais lidas