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‘Ideologia mata’, diz PM ao reprimir candidata negra

16/08/18 por Caê Vasconcelos

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Policial apreendeu material de campanha da vereadora Talíria Petrone e apontou arma para jovem negro que tentou defendê-la; quando disseram ‘arma mata’, PM respondeu ‘ideologia mata mais’

Vereadora Talíria Petrone | Foto: Reprodução/Facebook

A vereadora e candidata à deputada federal pelo Psol Talíria Petrone, 33 anos, usou as redes sociais para denunciar uma abordagem policial truculenta durante travessia que liga Niterói ao Rio de Janeiro. Dentro da balsa, um policial militar apreendeu o material de campanha da vereadora e apontou uma arma para um jovem negro que tentou defendê-la. Num vídeo feito pelo Jornal do Brasil, o PM afirma “ideologia também mata” e “ideologia mata mais” a uma mulher que havia lhe dito que “arma mata”.

“Isso expressa esse momento que a gente está vivendo e me dá muita convicção do caminho que a gente tem que seguir. Estou cada vez mais convicta de ir em frente. A luta não é uma escolha, não tem possibilidade de não seguir enfrentando esse estado que é tão violento e racista”, contou a vereadora à Ponte. A vereadora, que também é professora de história e feminista negra, preside a Comissão de Direitos Humanos, da Criança e do Adolescente na Câmara Municipal de Niterói.

No primeiro dia de campanha, Talíria, pegou a balsa rumo à Praça XV, região central da cidade do Rio, onde faria panfletagem da sua candidatura como deputada federal pelo Psol (RJ) De acordo com informações de Isabella de Oliveira, que faz parte da equipe de comunicação da vereadora, Talíria estava acompanhada por ela e mais três mulheres, aliadas de seu mandato, e decidiu tirar uma foto divulgando o panfleto da campanha. Foi neste momento que um policial militar fardado, mas com a identificação tampada, abordou o grupo. A ação aconteceu por volta das 9h da manhã. Somente às 16h, depois de prestar depoimento, o documento da vereadora foi entregue pela PM.

“Ele nos abordou de forma truculenta, tentando arrancar o celular da nossa mão, retirou os nossos panfletos. A gente questionou o que teria motivado essa ação, já que nada do que estávamos fazendo era ilegal, não tinha nenhum crime associado, e ele foi ficando cada vez mais exaltado, cada vez mais violento e grosseiro, até que a Talíria se apresentou enquanto uma figura do Estado, enquanto vereadora”, conta Isabella.

Em seguida, o PM pediu um documento de identificação da vereadora que entregou prontamente. Talíria pediu que ele tirasse uma foto e devolvesse o documento, mas ele teria se recusado. O grupo foi encaminhado para o 4º DP, na região central do Rio.

“Foi uma série recheada de abuso de poder. Nesse momento, outras pessoas se levantaram para tentar questionar a situação e se iniciou outra confusão generalizada. A gente já estava nesse bate boca, já mais perto do RJ, quando um jovem negro se levantou para questionar o policial e teve voz de prisão decretada por desacato”, relata Isabela, que trabalha na equipe de campanha de Talíria. “O jovem em nenhum momento se exaltou, e o policial foi para cima dele, para obrigar ele a sentar, e acabou derrubando ele no chão, nesse momento a gente perguntou por que ele estava agindo daquela forma. Aí o policial sacou uma arma e mirou para as pessoas. A barca já estava bem mais vazia, pois já tinha abarcado no Rio de Janeiro, mas tinha uma aglomeração de pessoas próximas e nesse momento falamos de ir para a delegacia”, prossegue.

Talíria Petrone ao lado da amiga Marielle Franco | Foto: Reprodução/Instagram

Talíria, que era amiga de Marielle Franco, alega que só pode lamentar que algumas ideologias sigam propagando o ódio.  “Eu só penso que a ideologia do ódio mata, a ideologia daqueles que não querem direitos para pessoas negras, LGBTs, que não querem enfrentar a pobreza. A ideia dessa candidatura para deputada federal é uma decisão justamente pela urgência que se despertou com a execução de Mari, que traz pra nós uma necessidade de ampliar os nossos espaços para além de Niterói, isso veio como resposta a execução da Marielle”, salienta Talíria.

Procurada pela reportagem, a assessoria da Polícia Civil do RJ (PCERJ) informou que “o caso foi registrado na 4ª DP (Presidente Vargas) e encaminhado para apreciação no Juizado Especial Criminal (Jecrim)”.

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