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‘A morte de Keron vai servir para a gente conversar bastante para entender isso’, lamenta amigo

11/01/21 por Caê Vasconcelos

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Uma semana após o crime que chocou Camocim (CE), amigos e ativistas protestam contra assassinato de Keron Ravach, adolescente trans morta com pauladas, socos, chutes, facadas e pedradas no mês da visibilidade trans

Keron faria 14 anos no próximo dia 28 de janeiro, um dia antes do Dia da Visibilidade Trans | Foto: Arquivo pessoal

A cidadede Camocim (CE), localizada a 457 km de Fortaleza, não se conformou com a execução brutal de Keron Ravach, espancada até a morte na madrugada de 4 de janeiro. A crueldade do crime chocou a todos: pauladas, socos, chutes, facadas e pedradas.

Em sua homenagem, no dia que o crime completa sete dias, uma manifestação foi marcada para a tarde desta segunda (11/1), na avenida Beira Mar, de Camocim, em frente ao monumento com o nome da cidade.

Com faixas de “tire seu preconceito do caminho, vamos passar com o nosso amor” e “e se fosse sua filha”, a Caminhada do Amor, como foi intitulada a manifestação, contou com participação de amigos de Keron e da ONG Mães pela Diversidade do Ceará, que chamava a todos para comparecer ao evento, levando “amor e acolhimento”.

Ato reuniu ONG Mães pela Diversidade e amigos de Keron | Foto: Felipe Oliveira

Com bexigas brancas, o grupo de pessoas andou da praia até a a delegacia de Camocim, onde o caso é investigado. De lá, os manifestantes foram para a prefeitura da cidade.

Manifestantes em frente à delegacia da cidade | Foto: Felipe Oliveira

À Ponte, Ray Fontenelle, 30 anos, chefe de cozinha e estudante de Química, amigo de Keron, contou um pouco sobre a menina que amava jogar carimba (ou queimada) e dançar. Keron faria 14 anos no dia 28 de janeiro, um dia antes do Dia Nacional da Visibilidade Trans e sonhava em ser influenciadora digital, como muitas outras adolescentes de sua idade.

Ato foi encerrado em frente à Prefeitura de Camocim | Foto: Felipe Oliveira

Keron tem um irmão gêmeo e ambos não foram criados pela mãe biológica, que não tinha condições para criar as crianças. Ela foi criada por uma prima de sua mãe e o irmão de Keron foi criado por amigos da família. A mãe de Keron morreu em outubro de 2019, em decorrência de um derrame cerebral.

Leia também: Keron, 13, brutalmente assassinada no mês da visibilidade trans: a vítima mais jovem do transfeminicídio no país

O grupo que se reunia todos os dias para jogar carimba, conta Ray, era diverso: formado por LGBTs de todas as orientações, identidades e idades que variavam de 13 a 30 anos. Eles eram como uma família, onde o acolhimento, que muitas vezes não tinham em casa, era encontrado ali.

“Keron foi mais uma dessas crianças que se aproximaram e se sentiram acolhidas pelo grupo. A gente brinca, grita, dança. Keron amava dançar. O sonho dela era ser mulher”, lembra o amigo.

Foto: Felipe Oliveira

Ray conta que a transição de Keron aconteceu de forma tranquila. “Ela deixou o cabelo crescer, começou a usar calcinha e começou a ter receio de mostrar os seios na praia. Você percebe essa transição silenciosa. Ela se denominava de Keron e pedia para ser chamada assim”.

O chefe de cozinha conta que não acreditou quando soube do brutal assassinato de Keron. “Dois dias atrás ela estava com a gente, conversando e tal. Aí de uma hora para outra ficamos sabendo disso, que ela foi morta dessa forma. É uma crueldade sem tamanho”, lamenta.

Leia também: Misoginia, transfobia e falta de dados: a equação do transfeminicídio

Apesar da timidez, continua o amigo, Keron era uma ótima pessoa, que gostava de compartilhar momentos de alegria com os amigos. Somente sua mãe de criação e dois irmãos foram ao velório. “Camocim tem matado muitos LGBTs, precisamos de políticas públicas que tenham efetivamente o poder de mudar a vida das pessoas LGBTs”, conta Ray.

“Crianças como a Keron ficavam na rua de madrugada, bebendo, fumando. Temos que mudar essa história. Todos eles sabem: eu não deixava eles beberem, não gosto que eles fumem, sou bem o irmão mais velho. Eu falava para esperarem fazer 18 anos para fazer isso, por enquanto deviam estudar”, completa.

Foto: Felipe Oliveira

Em 2020, os casos de transfeminicídios, até agosto, já haviam superado os números do ano inteiro de 2019, com 129 mulheres trans e travestis assassinadas no país. Em 2019 foram registradas 76 mortes. No estado do Ceará, em 28 dias, quatro mulheres trans e travestis foram brutalmente assassinadas.

“Onde está o erro? A morte dela vai servir para a gente conversar bastante para entender isso, para que isso nunca mais aconteça. Ainda mais uma crueldade de um adolescente para outro adolescente. Podem vir milhões de pessoas dizer, mas eu não acredito nessa versão do programa. Ela morava no interior do interior, não tinha maldade nenhuma”, questiona Ray.

Leia também: Mais mulheres trans e travestis foram mortas neste ano do que em todo 2019

Ray se recusa a acreditar na versão dada pelo suspeito de matar Keron, de que o crime teria acontecido por uma discordância pelo valor de um programa sexual. “A Keron era uma criança inocente, pobre, periférica, não tinha esse pensamento de mentalidade de trocar o sexo por dinheiro”.

“Ela era muito inocente e isso eu falo por convivência, por participar da vida dela. Como eu sou uma das pessoas mais velhas que brinca de carimba, ou queimaço, a gente conversava sobre vários assuntos. Ela sempre falava que não sabia nada sobre isso”, afirma.

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Segundo O Povo, o suspeito do crime é um adolescente de 17 anos, que foi apreendido 21 horas depois do crime. Na delegacia, o jovem teria confessado o crime, afirmando que encontrou a vítima para fazer um programa sexual e matou a menina por um desentendimento no pagamento. O caso é investigado pelo delegado Hebert Ponte, da Delegacia de Camocim.

No Boletim da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o órgão “descartou que o ato infracional tenha ocorrido em razão da orientação sexual da vítima”. A pasta destacou ainda que a investigação foi remetida ao Poder Judiciário, “para tomar as medidas necessárias em relação à infração do qual o adolescente é suspeito”.

Outro lado

A reportagem procurou, por duas vezes, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos, a Casa Civil e a Polícia Civil do Ceará, mas, até o momento de publicação, não obteve retorno.

ATUALIZAÇÃO: Reportagem atualizada às 10h19 do dia 12/1/21 para inclusão das fotos do ato

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