A morte do radialista Valério Luiz: 5 anos sem punição

05/07/17 por Yago Sales

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Presidente do Atlético Clube Goianiense e dois policiais militares estão entre acusados pela morte do jornalista; manifestação hoje pediu justiça

Valério com os filhos no campo do Atlético, em 1973 | Foto: Arquivo pessoal

Desde 5 de julho de 2012, Valério Luiz Filho, até então um jovem advogado tributarista, tem se dedicado incansavelmente para ver na cadeia os assassinos do pai, o cronista esportivo Valério Luiz de Oliveira, que contava com 49 anos, dos quais 35 dedicados ao jornalismo. Nesta quarta-feira (5/6), completam-se cinco anos do crime, sem a punição dos acusados. Uma manifestação ocorreu pela manhã no centro de Goiânia para pedir punição aos apontados como assassinos do radialista.

Segundo investigações da Polícia Civil goiana, Maurício Borges Sampaio, à época vice-presidente do Atlético Clube Goianiense, encomendou o assassinato depois de comentários do jornalista no programa “Mais Esportes”, da PUC TV e na Rádio Jornal 820 AM, agora Rádio Bandeirantes, em desfavor da diretoria do time, especialmente a Sampaio, que nega envolvimento com a morte.

Na tarde do crime, como fazia cotidianamente, o jornalista ficou no ar de 12h às 14h da rádio Rádio Jornal, no setor Serrinha, em Goiânia. Ele chegou a dar partida no carro, mas seis disparos de revólver calibre 357 o atingiram dentro de seu Ford K preto, em frente à rádio. Valério morreu antes de o socorro chegar, deixando familiares, amigos de imprensa e fãs do futebol goiano perplexos com a barbárie.

Valério com os filhos | Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a apuração da Polícia Civil, estão envolvidos no homicídio o cabo da PM goiana Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, 44 anos, conhecido por Figuerêdo, o sargento Djalma Gomes da Silva, conhecido por Da Silva, o atual presidente do Atlético Goianiense,  Maurício Borges Sampaio, 59, o açougueiro Marcus Vinicius Pereira Xavier, 33, conhecido por Marquinhos, e Urbano de Carvalho Malta, 38,

No artigo Por que mataram meu pai, Valério Luiz Filho, advogado de acusação no caso e presidente do instituto que leva o nome do pai, lembra os momentos de angústia quando soube da morte do cronista e dá detalhes do inquérito. “Na véspera ocorrera nossa última conversa. Ele entrara na sala de televisão para me perguntar rapidamente sobre uma empresa que havia me contatado e fora dormir. No dia seguinte saiu cedo, não o vi. Fui almoçar em casa para conversarmos melhor depois do seu programa”, escreveu.

Em entrevista na sacada com vento friorento no 21° andar de um prédio em Goiânia, Valério Luiz Filho explicou à Ponte Jornalismo os motivos da morosidade no processo. “Teve uma decisão que os mandou a júri popular que saiu em agosto de 2014. Desta decisão cabe recurso e eles estão recorrendo”. Ele acredita que os réus vão “apelar para expedientes processuais o máximo que puderem” para adiar a data do julgamento e tentar “amainar a opinião pública, sair da atenção, para o caso ser esquecido”.

“Estamos com um trabalho há muito tempo para evitar que o caso caia no esquecimento, manter as atenções focadas para o andamento do caso, e evitar que a intenção deles se cumpram. A opinião pública propicia que o julgamento do caso corra mais rapidamente e os juízes tendem a julgar melhor e com mais atenção quando o caso tem alta repercussão”, afirma Valério Filho.

Valério e Valério Filho | Foto: Arquivo pessoal

O filho do radialista não tem dúvida a respeito do envolvimento dos cinco apontados pelo crime. “Várias ocorrências lhes colocam no local do assassinato. Em primeiro lugar, quem tinha um motivo para o crime era o Maurício Sampaio”.

Nos meses anteriores à morte do cronista esportivo, várias críticas no programa esportivo na TV e no rádio eram endereçadas à diretoria do Atlético Goianiense. “Especialmente ao vice-presidente, que à época era o Sampaio. Críticas muito pesadas, acusando-o de comprar resultados, que os patrocinadores do Atlético eram tenebrosos, com escândalos financeiros, afirmando que o clube funcionava como lavanderia de dinheiro. O clima ficou muito pesado entre meu pai e a diretoria do Atlético Goianiense a ponto de proibirem a entrada do meu pai no clube, por meio de um ofício enviado tanto à Rádio Jornal e à PUC TV, onde ele trabalhava”.

Sob determinação da diretoria, a equipe técnica do time se negava a dar entrevistas a veículos nos quais o cronista trabalhava. “O jornalista Charles Pereira, que trabalhava na rádio 730, que tinha como um dos donos o Sampaio, e com meu pai na PUC TV, foi forçado pelo Maurício a deixar o canal. Não admitia que quem trabalhava com ele andasse com seus inimigos”.

Manifestação pede punição dos assassinos de Valério | Foto: Reprodução

Um dos diretores na PUC TV chegou a procurar Sampaio, em seu cartório, para tentar dissuadi-lo de forçar o jornalista Charles Pereira a sair da equipe em que trabalhava o cronista esportivo. “Sampaio ficou irredutível e dizia a jornalistas que iria aposentar meu pai mais cedo. Todo este contexto colocou o Maurício Sampaio como um dos principais suspeitos”, diz.

Outro lado

A reportagem procurou os advogados de Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, Djalma Gomes da Silva, Urbano de Carvalho Malta, Maurício Borges Sampaio e Marcus Vinicius Pereira Xavier, mas não obteve respostas a pedidos de entrevistas. A assessoria de imprensa do Atlético Clube Goianiense disse que o time não se pronuncia sobre o caso, por se tratar de “cunho pessoal”.

Cronologia

5 de julho de 2012 – Por volta das 14h, o jornalista Valério Luiz de Oliveira deixa as dependências da Rádio Jornal 820 AM, entra em seu carro e é surpreendido por um homem que, montado numa moto, lhe desfere seis disparos de arma de fogo. O jornalista faleceu instantes depois, ainda dentro de seu carro.

10 de julho de 2012 – Carta anônima é enviada a todos os veículos de imprensa e gabinetes de autoridades de Goiás narrando diversos crimes perpetrados por policiais militares, ligando o assassinato de Valério Luiz à diretoria do Atlético Clube Goianiense e apontando o cabo da PM Ademá Figuerêdo como o autor dos disparos.

1 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás prende temporariamente o açougueiro Marcus Vinícius Pereira Xavier, o faz-tudo Urbano de Carvalho Malta e o sargento da PM Djalma Gomes da Silva, que atuava no Comando de Missões Especiais.

2 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás prende temporariamente o então cartorário e ex-vice-presidente do Atlético Clube Goianiense Maurício Borges Sampaio.

14 de fevereiro de 2013 – O cabo da PM Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, que também atuava no Comando de Missões Especiais e já se encontrava preso preventivamente por suspeita de envolvimento em uma chacina, é interrogado na sede da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH).

26 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás finaliza o inquérito, indiciando Marcus Vinícius Pereira Xavier, Urbano de Carvalho Malta e Djalma Gomes da Silva como articuladores do homicídio, Ademá Figuerêdo Aguiar Filho como autor dos disparos e Maurício Borges Sampaio como o mandante do crime.

27 de fevereiro de 2013 – O Ministério Público do Estado de Goiás denuncia os cinco indiciados por homicídio duplamente qualificado.

28 de fevereiro de 2013 – Maurício Sampaio consegue habeas corpus na 1° Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás.

1 de março de 2013 – O juiz Lourival Machado, da 2a Vara Criminal de Goiânia, converte em preventiva as prisões temporárias de Marcus Vinícius, Urbano Malta e Djalma da Silva, bem como decreta prisões preventivas para Ademá Figuerêdo e Maurício Sampaio, que retorna ao complexo prisional no dia seguinte.

5 de março de 2013 – Em novo Habeas Corpus, Maurício Sampaio é solto por decisão liminar do desembargador Gérson Santana Cintra.

14 de março de 2013 – No julgamento deste segundo Habeas Corpus pelos outros desembargadores, acaba vencido o entendimento de Gerson Santana e a prisão preventiva é convalidada. Itaney Campos, muito criticado por não ter votado em 28 de fevereiro, desta vez conduz o voto contrário ao pedido do cartorário, que, naquela tarde, se recolhe ao Núcleo de Custódia pela terceira vez.

4 de abril de 2013 – Um delegado do 4º Distrito Policial de Goiânia, Manoel Borges de Oliveira, toma depoimento de um dos réus, Marcus Vinícius, fazendo fraudulentamente constar que Maurício Sampaio não teria participação no crime. A defesa do cartola impetra novo habeas corpus.

21 de maio de 2013 – Tribunal de Justiça de Goiás acata o pedido de Maurício Sampaio e o coloca em liberdade. Ele não mais seria preso preventivamente depois desta data.

23 de maio de 2013 – O delegado Manoel Borges é afastado das funções por suspeita de irregularidades na oitiva de Marcus Vinícius Pereira Xavier.

29 de maio de 2013 – O juiz Antônio Fernandes de Oliveira revoga as prisões preventivas de Urbano Malta, do cabo Ademá Figuerêdo, do sargento Djalma da Silva e do açougueiro Marcus Vinícius.

24 de março de 2014 – Marcus Vinícius é declarado fugitivo da justiça e, com evidências de que teria deixado o Brasil, o juiz Lourival Machado requer a inclusão do nome do réu na lista vermelha de procurados da Interpol.

3 de junho de 2014 – O delegado Manoel Borges de Oliveira é denunciado pelo Ministério Público por falsidade ideológica (fazer inserir declaração falsa em documento público).

8 de agosto de 2014 – Em cumprimento de mandado internacional, Marcus Vinícius é capturado na região de Caldas da Rainha, Portugal, e devolvido ao Brasil.

12 de agosto de 2014 – O juiz Lourival Machado manda a júri popular todos os réus: Marcus Vinícius, Urbano Malta, Ademá Figuerêdo, Djalma da Silva e Maurício Sampaio.

5 de janeiro de 2015 – Maurício Sampaio assume a Presidência do Atlético Clube Goianiense, time contra o qual Valério Luiz teria desferido as críticas que lhe custaram a vida.

23 de outubro de 2015 – O caso Valério Luiz ilustra audiência temática sobre violência contra jornalistas realizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, D. C., nos Estados Unidos.

12 de dezembro de 2016 – Maurício Sampaio é reconduzido a mais um biênio na Presidência do Atlético Clube Goianiense.

 

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