Após ser espancada e ficar paraplégica, mulher trans tenta reconstruir a vida

05/07/20 por Gabryella Garcia, especial para Ponte

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Cibelly Sousa foi agredida por sete homens em MG durante o carnaval deste ano; ela conseguiu voltar para Belém, sua cidade natal, mais de três meses após o crime

Vaidosa, Cibelly Sousa está em uma cadeira de rodas | Foto: arquivo pessoal

Quando saiu de casa para curtir o carnaval em 22 de fevereiro, Cibelly Sousa, 29 anos, não imaginava que voltaria para casa quase quatro meses depois. Ela recebeu alta hospitalar no dia 6 de junho depois de passar por três cirurgias e permanecer 10 dias em coma em Belo Horizonte. Cibelly conseguiu voltar para a casa em Belém, sua cidade natal, com seu pai no dia 16 de junho e foi recebida com muita festa.

A jovem ficou paraplégica, segundo a família, tem dificuldade na fala e também teve um afundamento no crânio após ser brutalmente espancada por sete homens no carnaval deste ano. A motivação, segundo a própria vítima, é o fato de ela ser uma mulher transexual. Adriely Sousa, prima dela, conta que Cibelly está se recuperando bem, apesar do trauma, e tem se queixado apenas de dores no joelho.

A prima da vítima define Cibelly como uma pessoa “alegre, prestativa e de bom coração”. Natural da capital paraense, de origem simples e criada pela avó com outras três primas, a quem hoje chama de irmãs, a jovem era muita querida por todos no local onde nasceu no início dos anos 1990.

Apesar das dificuldades, Cibelly sempre fez questão de ajudar as outras pessoas da maneira que podia, sempre foi muito prestativa, conta a prima.

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Desde a adolescência, Cibelly já se identificava como mulher, por isso a transição de gênero foi muito bem aceita pela família e a jovem não passou por maiores dificuldades de aceitação.

Mas, em certo momento, Belém ficou pequena para os sonhos de Cibelly, que, ao completar 18 anos, decidiu tentar a sorte pelo Brasil. Ela morou em diversos lugares até que em 2019 chegou a Belo Horizonte, onde morava com outras duas amigas, que, assim como Cibelly, eram garotas de programa.

Agora, depois de 11 anos, Cibelly volta a Belém pelas circunstâncias e tenta reconstruir sua vida com o apoio da família. As despesas com as passagens de Cibelly e seu pai foram custeadas pela ONG TranVest.

De acordo com Patricia Oliveira, coordenadora do núcleo de psicologia da TransVest, uma das passagens foi custeada pela própria ONG e a outra por um voluntário. Além disso, a entidade irá oferecer uma ajuda de custo mensal e permanente para Cibelly. Também foi organizada uma campanha de vaquinha, que através de depósitos bancários conseguiu juntar aproximadamente R$ 50 mil para que ela possa dar sequência ao seu tratamento.

A TransVest, além do apoio oferecido para Cibelly, é bastante atuante no combate à transfobia na cidade de Belo Horizonte. Oferecendo oficinas profissionalizantes e de entretenimento, aulas de defesa pessoal, atendimento psicológico e cursinho pré-vestibular, o projeto objetiva combater a transfobia incluindo travestis, transexuais e transgêneros na sociedade. Além disso, durante a pandemia está distribuindo uma ajuda de custo mensal para aproximadamente 120 transexuais de Belo Horizonte.

O crime

De acordo com a prima da Cibelly, a vítima fez contato com a família, em Belém, no dia 22 de fevereiro, pouco antes de sair de casa. Adriely conta que ela avisou que iria ao centro de Belo Horizonte em um bloquinho de carnaval e também enviou algumas fotos, mostrando como se sentia linda e feliz naquele dia.

O próximo contato deixou a família em desespero. Uma amiga de Cibelly telefonou para a irmã de Adriely avisando que sua prima estava na UTI do Hospital João XXIII em estado grave.

Hoje, mais de quatro meses depois do crime, pouco se sabe da dinâmica ou quem foram os responsáveis. Os relatos dão conta que sete homens cercaram Cibelly e começaram a agredi-la verbalmente, antes de começarem com o espancamento.

Cibelly teve afundamento de crânio | Foto: arquivo pessoal

Em seguida, os agressores fugiram do local e abandonaram Cibelly jogada na rua. A jovem só recebeu algum tipo de socorro quando o Samu (Serviço Móvel de Urgência) chegou ao local e a encaminhou para o hospital.

Adriely conta que a maioria dos golpes foram desferido na cabeça da vítima, o que fez com que Cibelly perdesse alguns dentes e também tivesse um afundamento no crânio.

Com o rosto completamente desfigurado, a vítima permaneceu em coma na UTI por 10 dias e também teve que passar por três cirurgias, até que recebesse alta no dia 6 de junho. As marcas da violência e intolerância, entretanto, acompanharão Cibelly pelo resto de sua vida.

Apesar da gravidade do caso, a polícia só teve ciência do fato seis dias depois, em 28 de fevereiro, quando Douglas, pai de Cibelly, chegou a Belo Horizonte e o hospital comunicou a polícia.

A Polícia Civil de Minas Gerais disse à Ponte que desde que tomou conhecimento da ocorrência “não poupa esforços para esclarecer o crime”. Também informou que foram realizadas várias diligências para identificar e solicitar imagens de câmeras de segurança em locais próximos ao ocorrido. Mas, tudo que os policiais conseguiram foram imagens de uma aglomeração em volta da vítima e a equipe do Samu chegando ao local.

Ainda de acordo com a polícia, diversas pessoas foram chamadas para prestar depoimento. Entretanto, ainda não apareceram testemunhas do ocorrido. As investigações estão sendo feitas pela Delegacia Especializada de Investigação de Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas (DECRIN).

O país que mais “ama” e mata transexuais

Cibelly não foi um caso isolado. Paradoxalmente, o Brasil é o país que mais consome pornografia transexual e também o que mais mata transexuais no mundo. Podemos citar Dandara Kettlyn de Velasques, Luana Kelly, Matheusa Passarelli, Quelly da Silva e tantas outras que foram mortas por serem transexuais.

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Um levantamento feito pela PornHub Insights em dezembro de 2019 mostrou o comportamento e preferências de usuários de plataformas de vídeos pornográficos. O resultado aponta que o brasileiro procura por vídeos de transexuais mais do que pessoas de qualquer outra parte do mundo. Em relação à média global, o brasileiro procura esse tipo de vídeo 98% mais vezes. Argentina, México e Itália são os únicos outros países onde a transexualidade aparece entre os temas mais procurados, ainda assim, abaixo do Brasil.

Reprodução de levantamento do Pornhub

Por outro lado, há 10 anos, ou seja, desde 2010, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Os dados são do projeto de pesquisa Trans Murder Monitoring (TMM) que, desde 2008, monitora os homicídios de pessoas trans em todo o mundo.

O último relatório mostrou que de 1 de outubro de 2018 até 30 de setembro de 2019 um total de 331 pessoas transexuais foram assassinadas em todo o mundo. Com um total de 130 mortes, o Brasil matou mais que o dobro de pessoas trans do que o México (63), segundo país com o maior número de mortes. O levantamento ainda apontou que nesse período houve homicídios de pessoas trans em 74 diferentes países.

Em 2019, o dossiê anual dos assassinatos e da violência contra pessoas trans, feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostrou que pela primeira vez desde 2015, o Brasil teve uma queda no número de homicídios de pessoas trans, apesar de continuar sendo o país que mais mata.

Foram registradas 124 mortes, sendo 121 travestis e mulheres trans e três homens trans. O número é menor do que os 163 homicídios registrados em 2018, representando uma queda de 24%.

Além dos números absolutos, a pesquisa também traça o perfil e a condição social das vítimas. Em 2019, 90% da população de travestis e mulheres transexuais no Brasil ainda eram obrigadas a recorrer para a prostituição como fonte de renda e subsistência e que apenas 4% possuíam empregos formais.

Em relação à escolaridade, apenas 0,02% possui ensino superior ou está na universidade, 72% não completaram o ensino médio e 56% não conseguiram concluir sequer o ensino fundamental.

Construa a Ponte!

O dossiê também revela que, em 2019, a maior parte dos homicídios (59,2%) aconteceu com pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Esse dado confirma a baixa expectativa de vida de mulheres trans e travestis no Brasil. Enquanto a expectativa no país é de 76,3 anos, dados da União Nacional LGBT apontam que o tempo médio de vida da população trans é de apenas 35 anos.

Apesar da queda no número de homicídios em 2019, o relatório parcial da ANTRA em 2020 mostra que os números voltaram a subir. Enquanto entre os meses de janeiro e abril de 2019 foram registradas 43 ocorrências, o número saltou para 64 casos de homicídios em 2020, o que representa um aumento de 49% em relação ao ano anterior, mesmo com a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social em parte do período analisado.

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