x
Legenda Teste

Ajude a Ponte

Você sabe que a Ponte está do seu lado. Mas, além de coragem, a nossa luta pela igualdade social, racial e de gênero precisa de recursos para se manter. 

Com uma contribuição mensal ou anual, você ajuda a manter a Ponte de pé. Além disso, garante acesso aos bastidores da nossa redação e uma série de benefícios.

Ajude a Ponte

Artigo | Com ‘Amarelo’, Emicida mostra como se constrói um olhar preto sobre a realidade

28/12/20 por Dennis de Oliveira, especial para a Ponte Jornalismo

Compartilhe este conteúdo:

Ao recorrer à história para tratar as relações raciais, Emicida lembra como o mundo não começa com nossa existência e que nada é mais branco que desprezar a ancestralidade

Amarelo – É Tudo Pra Ontem, de Emicida, é um tremendo documentário. A máxima de que Exu atirou uma pedra hoje para atingir um pássaro ontem é a exata dimensão do que é lutar contra o racismo estrutural. O problema é que muita gente atira pedra para resolver problemas atuais como se fossem coisas do tempo de hoje. Normal quando se depara com o preconceito racial que esta ideia venha à tona: uma pessoa que te maltrata em lugar público, que te desrespeita e até te agride violentamente — a primeira reação é considerar que é com você e um ato daquela pessoa. O problema é quando se reflete sobre a singularidade do fato se prendendo apenas à sua singularidade — é o que o pensador Adelmo Genro Filho chama de armadilha da espetacularização do fato na narrativa jornalística. Em uma sociedade midiatizada, em que o cotidiano se transforma em um cenário de espetáculo midiático, isso se transforma em prática narrativa comum em parte significativa do ativismo antirracista.

Mas Emicida rompe com essa visão ao tratar as relações raciais no Brasil, e em especial em São Paulo, recorrendo à história, este campo do conhecimento tão esquecido nestes tempos de midiatização, em que se considera que o mundo começou para cada pessoa quando ela nasceu (e daí se absolutizam as experiências pessoais em detrimento das suas transcendências pelo conhecimento) e tudo vira “guerra de narrativas”.

Plantar, regar e colher são as três partes do seu documentário. E a semente, a tradição, a origem é o samba — ou o “Brasil que deu certo”, como diz Emicida em determinada parte. O samba como existência/resistência de negras e negros desde a abolição inconclusa de 13 de maio de 1888 e que recupera as experiências da quilombagem, como fala Clóvis Moura.

Uma semente que gerou raízes fortes o suficiente não só para resistir mas para existir — enfrentando toda a sorte de invisibilização, subalternização e criminalização — dentro do universo da cultura, como “colere” (cultivar). Enfrentando as forças do branqueamento da Semana de Arte Moderna por meio de negratitudes de Mário de Andrade, da arte erudita, com o Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, e da bossa nova, com o preto Johnny Alf.

A periferia da cidade de São Paulo, para onde negras e negros foram deslocados forçadamente pelas políticas urbanas gentrificadoras, recebe mais tarde os milhares de migrantes nordestinos que vieram para cá em busca de uma vida melhor. Luta por qualidade de vida, denúncia da violência e luta contra o racismo se expressam no grito da periferia do movimento hip-hop, muito mais que uma mera cópia da experiência estadunidense como alguns incorretamente falam. Negros estadunidenses que deveriam aprender com a grande intelectual negra Lélia Gonzales, segundo Angela Davis. E, em uma subversão da antropofagia de Oswald de Andrade, absorve as lutas feministas, de classe, da população LGBT+. Afinal, na escola de samba todos são bem vindos desde que não atravessem o samba.

Na concepção preta de tempo há um continuum em que os processos históricos constroem as condições objetivas para a gente atuar — ou fazer história, como diria Marx. Atirar a pedra hoje para mudar ontem é uma ação revolucionária, pois significa mudar as condições nas quais atuamos. Quem fica preso à dimensão da experiência pessoal vai atirar pedra contra uma rocha já solidificada. Pode até conquistar likes ou lacrar no mundo midiático das batalhas das narrativas, mas vai mudar pouco. O mundo não começa com nossa existência e nada mais branco que desprezar a ancestralidade.

Emicida mostrou como se constrói um olhar preto sobre a realidade.

Dennis de Oliveira é coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP (Universidade de São Paulo) e autor dos livros Jornalismo e emancipação: uma prática jornalística baseada em Paulo Freire (Appris, 2017) e A luta contra o racismo no Brasil (Fórum, 2017)

Já que Tamo junto até aqui…

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

 

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Ajude

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo:

>