Artigo | Racismo no Mackenzie: o ‘caso isolado’ que se repete

30/01/19 por Camila da Silva, especial para Ponte

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Não só as ameaças colocam em risco a vida e o bem-estar da comunidade negra na universidade, mas uma estrutura que sempre está pronta para proteger e defender os privilégios de sua maioria branca

Era primeira aula depois do carnaval de 2018, o professor de Introdução à Estatística se dirige até a sala do curso de Comércio Exterior e pede para as meninas taparem seus ouvidos pois ele tinha uma pergunta específica para os meninos. Sem nenhum receio ele perguntou: “Meninos vocês pegaram muitas mulatinhas nesse carnaval? Por que vocês sabem como são essas menininhas pretinhas, né? Elas só servem pra pegar e transar no carnaval”.

A sala majoritariamente branca não riu como de costume, os olhares foram direcionados à Thuany Ortiz Lopes, 20 anos, única negra da sala. Não tinha reação para expressar o constrangimento, como esperar uma atitude racista tão direta vindo de um professor que estaria ali para ensinar mas estava legitimando e perpetuando o racismo.

Ao perceber a situação, o professor se apressou em dizer que não estava se referindo a ela. Era só uma brincadeira que não era para ela entender errado. É assim que o racismo ainda é considerado, uma simples “brincadeira” que coloca a pessoa negra em um lugar de inferioridade – pior, a culpa é sempre nossa. Qualquer contra narrativa você é taxada de radical ou vitimista demais. Mas fica a pergunta: por acaso quantas brincadeiras com a branquitude você conhece? Quem tapa os ouvidos e fecha os olhos para várias situações como esta? Quem testemunha e nada diz, a universidade ao dizer que é um caso isolado, quem tenta relativizar o que é óbvio: é racismo. E atinge estudantes e funcionários negros, até mesmo em uma instituição presbiteriana que fala em seus valores éticos e cristãos.

Quando o estudante de Direito Pedro Baleotti ameaçou “matar a negraiada”, a Universidade Presbiteriana Mackenzie primeiro suspendeu o estudante e depois, com intensa pressão feita pelos estudantes, decidiu expulsá-lo. Mas se atrapalharam no processo e, resumo da história, a expulsão foi considerada ‘insustentável’ e anulada pela justiça – aqui destaco que a decisão jurídica foi embasada em uma previsão do próprio regimento interno da instituição, o que nos permite talvez interpretar que há ainda pouco interesse em combater esses casos – que, repito, não são isolados.

Depois do acontecido, a reitoria afirmou que iria recorrer e o estudante não voltaria a universidade. Um dia depois ele foi realizar uma prova mesmo dentro do período de suspensão.

Em reportagem publicada na Ponte sobre um protesto recente, no dia 24/1, em repúdio à readmissão de Pedro no quadro discente do Mackenzie há uma explicação técnica sobre a lambança. O advogado Flávio Campos explicou que o Mackenzie errou duas vezes, já que a decisão a impediu de cortar o vínculo jurídico com o estudante, expulsá-lo, mas não obrigou a universidade a revogar a suspensão. “Ele poderia ficar suspenso até que fosse feita a comissão nos moldes corretos com os cinco membros para decidir sobre a sua expulsão. Então, quando o Mackenzie aplicou prova, eles suspendaram a suspensão e foi além do que a decisão estabeleceu”, argumentou Campos.

Existe proteção para ele e para nós? Insustentável não é a punição de um racista e sim a conivência e o estímulo a uma prática que mata pessoas – principalmente jovens negros – diariamente. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. São 63 mortes por dia. Até quando os olhos serão fechados para essa realidade?

Não somos só nós, estudantes negros, que somos afetados. Um dia desses, abafando o choro no banheiro uma das funcionárias da limpeza* tentava se recompor. Depois de pedir para uma das alunas pegar o papel que ela propositalmente tinha jogado no chão, ouviu que aquela era função dela e que se ela quisesse outra profissão ela não nascesse daquela cor. Não tem proteção, nem suporte emocional para essas pessoas. A terapia é pensar que não tem muita escolha, aquele lugar é importante para o futuro. Nesse contexto os racistas se sentem à vontade para vomitar o seu ódio. Esse racismo que dá suporte para essas estruturas deixa doente quem é negro resistindo naquele espaço. A discriminação também é uma forma de expelir o aluno negro do ambiente acadêmico que causa além desconforto e destrói nossa saúde mental.

Entrar no Mackenzie como bolsista integral no curso de Jornalismo, em primeiro momento foi motivo de vitória. Como muitos estudantes negros, sou a primeira da minha família a ingressar no Ensino Superior, estar lá dentro é motivo de orgulho para quem nos conhece. Mas estar lá também é sofrer as dores da exclusão daquele espaço, porque mesmo sendo 54% da população, ali somos minoria? Mesmo assim para muitos é surpresa estarmos ali. O normal é ser branco no Mackenzie? – é o que parece – não é raro ouvir dos seguranças “você realmente estuda aqui?”. A branquitude não só impera no espaço, como no nosso currículo e formação, das 141 obras básicas do currículo de jornalismo apenas 5% dos autores são negros. Até mesmo nas matérias de Cultura Brasileira e Geografia das Cidades que abordam negritude e periferia nenhum autor da bibliografia básica é negro. Professores negros, são poucos. Não só omitem as nossas demandas, como excluem a contribuição da cultura negra e periférica para nossa formação. Como se sentir seguro num espaço que exclui sua presença?

*O nome da funcionária não será colocado por motivos de segurança

Camila da Silva é repórter da Agência Énois, estudante de jornalismo no Mackenzie e embaixadora do Descomplica, cursinho pré vestibular online. Atuante na área de educação periférica e desigualdades sociais pensando nos pilares de raça, classe social, gênero e território.

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