Campeonato de poesias na praça Roosevelt acaba sem última fase após pressão da GCM

Edição de maio do Slam Resistência precisou acabar às 22h30 | Foto: Ponte Jornalismo

Para a campeã do Slam Resistência 2016, limitação de horário é uma forma de calar os poetas das periferias

Edição de maio do Slam Resistência precisou acabar às 22h30 | Foto: Ponte Jornalismo

A edição de maio do Slam Resistência, campeonato de poesia que acontece na primeira segunda-feira útil de cada mês, na praça Roosevelt, região central de São Paulo, precisou acabar antes do horário habitual e sem ter a final para decidir o vencedor da edição.

Na batalha de segunda-feira (08/05), o Slam Resistência acabou às 22h30, depois de sofrer, por meia hora, pressão da GCM (Guarda Civil Metropolitana) para finalização das batalhas. A edição acabou com dois vencedores, que não puderam disputar a terceira fase, na qual seria conhecido o vencedor da noite. Com isso, Tawane Theodoro e Gustrago garantiram vaga na final do Slam Resistência, em dezembro.

Segundo um dos idealizadores do evento, Del Chaves, a organização foi notificada, depois de reuniões do secretário municipal de cultural, André Sturm, com representantes da Prefeitura Regional da Sé e de slams, a terminar o evento às 22h.

O organizador responsável pela matemática do evento (contagem das notas e dos tempos), Charles M. de Jesus, acredita que a medida foi tomada após denúncias de moradores da região. O matemático ressalta que “alguns moradores querem transformar a praça no quintal de suas casas”.

Charles afirma também que na edição de março deste ano, a GCM tentou impedir a realização do evento. Ele destaca que, apesar das bases da PM e da GCM na praça, “várias pessoas já foram assaltadas lá perto e a gente não vê nenhuma ação para inibir isso”.

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Para terminar no horário determinado, o organizador da matemática do evento explica que nesta recente edição foram sorteados apenas 15 poetas para a disputa. Diferente do que o Slam Resistência adotou como regra durante os três anos que acontece na escadaria da praça Roosevelt com a rua Augusta, quando abria para todos que quisessem disputar.

A poeta Mayara Vaz, campeã do Slam Resistência de 2016, afirma ainda que a limitação de horário tira a identidade do slam, que é um símbolo na participação de poetas de vários bairros das periferias de São Paulo. A poeta ainda destaca que, entre os slams, o Resistência foi o mais levou gente para rua até hoje, entre público e poetas: cerca de 700 pessoas.

Para Mayara, não permitir que o evento se estenda até o horário que for necessário, é uma forma de calar artistas que querem participar do evento. “A graça [do Slam] reside no fato de que qualquer pessoa pode ir lá falar. Já tivemos edições com 32 poetas. Acabou mais de meia noite. Limitar o horário, para mim, é limitar voz”.

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Na noite de segunda-feira, o evento começou às 19h, com apresentação dos convidados especiais da noite, Lews Barbosa & Erê Ditários, usando caixa de som e instrumentos musicais. Por volta das 20h, a batalha começou, com 15 artistas declamando as poesias faladas durante três minutos cada. Às 21h, os convidados especiais voltaram a se apresentar e finalizaram enquanto ainda faltava dez minutos para o horário combinado para o encerramento.

Mesmo sem o uso de microfones e instrumentos musicais, às 22h, guardas civis metropolitanos foram até o centro do evento pedir a finalização imediata. “Por nós, continuaríamos a noite toda, mas para preservar a segurança de todos que estão aqui, precisamos encerrar”, disse um dos organizadores do evento, às 22h30, logo após as poesias dos seis artistas que passaram da primeira fase.

Outro lado

Em nota, a Prefeitura Regional de Sé informou que “não autorizou, tampouco foi comunicada ou notificada sobre o evento realizado na praça Roosevelt”. A nota disse ainda que na praça existe uma base comunitária da GCM que orienta aos frequantadores do local “para que não produzam ruídos excessivos, uma vez que a região é residencial”.

Para a Prefeitura Regional da Sé, a voz dos poetas que recitam na praça Roosevelt infringe o decreto 55.140 de 2014, cujo artigo quarto, parágrafo primeiro, inciso sete diz que os artistas devem concluir as atividades sonoras até às 22h.

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