Carapicuíba lida com seus monstros em meio a chacinas

    Duas chacinas separadas por 13 dias assombram os moradores da cidade na região metropolitana de São Paulo. PMs são os principais suspeitos de cometer os crimes

     

    Os moradores de Carapicuíba (Grande SP) estão em choque depois da série de mortes violentas que culminou com duas chacinas em 13 dias —a última, na madrugada de sexta-feira para sábado, com sete pessoas assassinadas. Até agora, os principais suspeitos de terem cometido os crimes são policiais militares. Apesar do medo, quem perdeu alguém próximo exige justiça e segurança para tocar a vida em frente.

    Entre as vítimas da última chacina estava Simone Vieira Lourenço, 30 anos, grávida de quatro meses. “Ela morreu inocentemente. Eles a estavam perseguindo, porque ela sabia de várias mortes”, diz a aposentada Ernestina Soares Vieira, 67 anos. A mãe conta que, recentemente, a filha teve que se esconder de uma viatura que a seguia e dava sinais com o farol em cima dela, de forma ameaçadora. Além da filha, a aposentada perdeu um sobrinho no sábado, assassinado na mesma chacina.

    O principal foco dos atiradores foi o Bar do Marcelino, na avenida Comendador Dante Carraro, no bairro Cidade Ariston, um dos mais populosos de Carapicuíba. Segundo testemunhas, homens armados e encapuzados desceram de carros escuros e dispararam contra todos que estavam por lá. Quem não conseguiu fugir acabou morto. Foi o caso de Simone.

    “Dizem que, depois que morreu, a polícia ainda falou que ela era uma pilantra, porque estava grávida. Por que era pilantra? Por que sabia das mortes?”.

    Ainda abatida pelo assassinato de Simone, a aposentada se preocupa também com o futuro das duas netas, de três e oito anos, que perderam a mãe. “Vou entrar na Justiça pedindo pensão para elas”, diz.

    Além dos sete mortos, 11 pessoas foram baleadas em quatro pontos da cidade na madrugada do sábado.

    Lugar de monstros

    “Carapicuíba está virando um lugar de monstros. Está todo mundo assustado porque, de repente, pode aparecer alguém armado e meter tiro em todos dentro de casa”, afirma a costureira Meiriane Aparecida de Araújo Lima, 28 anos. O irmão dela, o servente Adão Candido de Lima, 36 anos, foi assassinado na chacina de sábado.

    Segundo Meiriane, o irmão avisou que iria a um samba encontrar os amigos. Quando o viu novamente, já estava morto. “Ele levou 13 tiros”, conta.

    A costureira diz ter certeza de que os assassinos são policiais em busca de vingança pela morte de um colega e que seria necessário um expurgo na corporação. “Se não fizer o serviço direito, meu patrão vai me mandar embora. A mesma coisa deveria acontecer na polícia. O que serve continua e o que não presta joga no lixo”, diz. “Não vivemos em paz. Tem que mudar o sistema, porque senão vai virar uma guerra. Quem deveria socorrer a gente numa hora de necessidade é justamente quem pode até nos matar. A gente não pode nem confiar”, completa

    Além da tristeza pela morte do irmão, restaram contas para a costureira. “Vou ter que trabalhar dobrado para pagar todas as dívidas. Está tudo aqui comigo, ó, R$ 1.400 de caixão, mais R$ 498 só de cemitério, fora que vou ter que pagar R$ 60 por ano (manutenção da sepultura) e combustível para andar de um lado para outro.”

    Investigação

    Um policial militar de 37 anos foi preso por suspeita de participação na chacina de sábado. Ele deu entrada em um hospital da região na madrugada, com um tiro na perna, alegando que se feriu durante um assalto. Não registrou boletim de ocorrência, saiu do local antes de receber alta e ainda tentou convencer uma mulher a dizer que estava ao lado dele na hora do crime. A testemunha se negou a mentir.

    Outro policial que teria levado um colete à prova de balas para o primeiro foi recolhido à sede da Corregedoria da PM, sob suspeita de participação no crime.

    A Polícia Civil prendeu e indiciou um terceiro suspeito, um segurança, amigo de policiais militares, que também estaria envolvido na chacina.

    A principal hipótese para o ataque de sábado é de que seria vingança pela morte do policial militar Adailton da Silva Souza, 30 anos. Ele foi torturado e assassinado no último dia 19, na favela do CSU, também em Carapicuíba.

    No dia 13 de julho, uma outra chacina assustou os moradores de Carapicuíba. Foram mortas cinco pessoas na rua da Fábrica, no bairro de Santa Terezinha. Um veículo Astra, de cor escura, é o ponto em comum com a matança do último sábado. A polícia investiga os casos.

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    LUIZ CARLOS DOS SANTOS
    LUIZ CARLOS DOS SANTOS
    8 anos atrás

    ACHEI A MATÉRIA BEM COMPLETA, NO SÁBADO AS 10H VOU ESTAR LA NO LOCAL PARA OUVIR OS FAMILIARES.

    ATT

    LUIZ CARLOS DOS SANTOS
    RELATOR DA COMISSÃO DE VIOLÊNCIA POLICIAL E LETALIDADE DO CONDEPE
    TEL 11 9 9765.0589
    3105.1693 – CONDEPE.

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    […] que tem sido feito em casos como a das chacinas de Carapicuíba, onde há indícios de participação de […]

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