‘Decidiram fazer o holocausto do meu filho’, diz mãe de Davi Fiuza

    Em vídeo exclusivo cedido à reportagem da Ponte, Rute Fiuza afirma que seu filho foi vítima de um “batismo” de 19 policiais militares que estavam se formando soldados na Bahia

    Davi Fiuza, jovem negro, 16 anos, continua desaparecido. Um ano e seis meses depois. Desde o dia 24 de outubro de 2014. Os culpados? De acordo com a polícia civil da Bahia, 23 PMs (policiais militares) participaram do assassinato e ocultação de cadáver do jovem. Desse total, 19 eram alunos do curso de formação da PM.

    A investigação da Polícia Civil apontou que os policiais faziam uma operação final para conseguirem o diploma de soldado, coordenados por quatro PMs que tinham patentes como tenente, sargento e cabo. Após uma abordagem, na rua São Jorge, os policiais raptaram o jovem. Equipamentos de GPS e rádios comunicadores da viatura estavam desligados no momento da ação.

    Em depoimento exclusivo, concedido à Ponte Jornalismo, a mãe de Davi, Rute Fiuza, cobra Justiça. “Eu temo. Apesar de eu, como mãe, já imaginar o que aconteceu com o meu filho, é claro, não tenho nenhuma dúvida que o meu filho foi torturado. Não tenho nenhuma dúvida disso. Que o Davi, ele morreu de uma forma humilhante. Meu filho morreu de uma forma covarde. De uma forma que, eu, como ser humano, não consigo descrever nesse momento”, diz.

    Davi ficou conhecido como o “Amarildo” da Bahia, em alusão ao pedreiro que desapareceu no Rio de Janeiro. A mãe cita que o jornalista Ricardo Boechat, da Rede Bandeirantes, que criou o apelido. “Ele fala que Davi é o Amarildo da Bahia. Infelizmente, um título que não me enobrece em nada. Muito pelo contrário. Eu, como mãe, me sinto numa situação difícil nesse momento”, desabafa.

    “O que eu penso é o seguinte: que desses 19, que estavam em formação, tem aquela coisa do batismo, que falam. Naquele momento, eles decidiram fazer o holocausto do meu filho. Davi passou pelo holocausto. E, depois disso, eles [policiais] foram agraciados. Entrando na Polícia Militar da Bahia. Eu vou continuar lutando para que haja Justiça nesse caso. Há um genocídio, na verdade, aqui na Bahia. E Davi é mais um desses, que foi vítima dessa sociedade, dessa Polícia Militar”, afirma Rute à reportagem.

    Para Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil, a conclusão da investigação, embora muito importante, é apenas um passo para que haja justiça pelo desaparecimento e morte de Davi  Fiuza. “Agora, o Ministério Público deve exercer o seu papel e os acusados devem ir a julgamento. O envolvimento de policiais militares que deveriam ser agentes promotores e garantidores da segurança pública em casos de homicídios e desaparecimentos forçados é muito grave”, diz.

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