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Editorial | Por que a Ponte não passa pano

19/07/20 por Fausto Salvadori

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O que nos move é a luta pelos direitos humanos e não modulamos nossa cobertura de acordo com os partidos dos governantes que cometem as violações

Davi era o único filho de Rute, mãe de outras três filhas | Foto: arquivo Ponte

Uma leitora e apoiadora da Ponte nos mandou uma mensagem que é muita oportuna para a gente esclarecer dúvidas sobre o jornalismo que fazemos e os compromissos que temos. Ela preferiu que não divulgássemos seu nome, mas autorizou a publicação da mensagem:

Ponte, eu apoio vocês. Acho essencial o trabalho que vocês fazem. Mas assim como questionei o Intercept numa matéria onde faziam questão de “queimar” o Governador Flávio Dino, vou questionar vocês também. Todas as Polícias Militares do Brasil são problemáticas. Se eu estiver errada, me apontem um estado onde o comportamento seja diferente, irrepreensível. O comportamento da corporação, hoje, transcende largamente o partido político do governador do estado. Seja ele quem for e de que partido for. Então eu gostaria de pedir que vocês observassem melhor essa questão. A PM do Ceará , não pertence ao Camilo Santana, PT. A PM de São Paulo não é propriedade de João Dória, PSDB… e a PM do RJ não é do Witzel, PSC. Vamos atacar o problema das polícias militarizadas que desde sempre estiveram a serviço dos senhores de engenho. Os partidos políticos que estão ou estiveram circunstancialmente  no comando  dos Estados nunca foram capazes de controlar  seus cães de guarda.  Falo isso porque percebo (e, claro, posso estar muito enganada) que tanto Mídia Ninja, quanto Intercept Br e outros bons veículos da mídia alternativa nutrem forte simpatia pelo PSOL. Nada contra. Mas se em algum momento misturarem jornalismo com campanha política, aí eu gostaria que fosse uma posição clara. Reitero q admiro e respeito muito o trabalho de vocês. Um grande abraço.

Agradeço muito o questionamento, colocado de maneira tão objetiva, porque dá uma boa oportunidade para a gente esclarecer muitas coisas. Para começar, a Ponte Jornalismo não tem qualquer vínculo partidário e leva isso a sério. Já teve jornalista da Ponte que foi atuar na comunicação de políticos e, quando isso ocorreu, teve que se afastar da reportagem. Sabemos que outros veículos ditos independentes empregam regularmente repórteres que também são assessores de imprensa de partidos ou políticos. Nada contra. Mas não acreditamos que isso combine com o jornalismo que nos propomos a fazer.

O que nos move é a luta pelos direitos humanos e não modulamos nossa cobertura de acordo com os partidos dos governantes que cometem as violações. Tratamos a todos como iguais, de um jeito que a Ponte sempre fez questão de fazer: nomeando os responsáveis pelos crimes.

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As violações de direitos humanos no Brasil têm uma longa trajetória de desresponsabilização, que insiste em omitir os nomes dos donos do poder responsáveis pelos piores crimes. Os Sertões, de Euclides da Cunha, denuncia um genocídio sem apontar um único responsável, bem diferente do que fez Émile Zola ao dizer “Eu acuso” em letras garrafais, dando nome a cada um dos responsáveis pela condenação injusta de Alfred Dreyfus. Nem precisa dizer que o artigo de Zola teve consequências práticas muito mais duradouras do que a denúncia de Euclides de crime sem autor.

É por saber disso, da diferença que faz gritar um “eu acuso” e dizer os nomes, como fez Zola, que a gente faz questão de nomear cada policial, cada delegado, cada promotor, cada juiz e cada governante que tenham responsabilidade por um abuso. No caso de crimes de policiais, fazemos questão, sempre, de nomear os governadores, que, como comandantes das PMs, também são responsáveis por esses crimes.

A leitora sugere que seria injusto fazer essa cobrança porque as polícias militares de todos os estados seriam problemáticas e nenhum governador teria a capacidade de controlá-las. Isso é verdade, mas apenas em parte. As corporações policiais têm uma cultura própria, um processo de treinamento que não responde a qualquer controle civil e todo governador que busque combater essa cultura enfrentará resistências. Isso tudo é real. O problema é que os atuais governadores não estão ao menos tentando controlar a violência policial.

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E, sim, já houve governadores que enfrentaram a truculência de suas polícias: Leonel Brizola, no Rio, Mário Covas, em São Paulo, Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul. Falando de Mario Covas, que acompanhei mais de perto, ele criou uma Ouvidoria das Polícias e uma comissão independente de controle da letalidade policial, além de instituir um programa em que todo policial que matasse uma pessoa era obrigado a sair das ruas e entregar suas armas por seis meses. Como isso impedia que o policial pudesse fazer “bico” como segurança particular, era um banho de água fria para os PMs assassinos.

Não conheço nenhum governador dos dias atuais que procure adotar medidas remotamente parecidas com essas (se alguém souber, me avise que gostaria de conhecer). É uma vergonha considerar que um tucano nos anos 90 estava mais empenhado em combater a violência policial do que qualquer governador do PT ou PCdoB de hoje? Concordo, é uma vergonha.

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Então, para embarcar na tese de que as polícias estaduais cometem abusos apesar dos governadores que fazem tudo o que podem para impedi-las, seria preciso apontar, antes de tudo, quais são as medidas que esses governadores estão adotando para tentar controlar a violência policial. Em muitos casos, vamos encontrar justamente o contrário. Não há exemplo melhor do que na Bahia. Sobre um dos piores crimes ocorridos em seu estado, a morte de 12 jovens negros por policiais militares no Cabula, que em fevereiro completou cinco anos de impunidade, o governador Rui Costa foi só elogios, comparando a carnificina a um gol de campeonato. Agora, ao patrocinar a candidatura de uma policial militar para a prefeitura de Salvador, tanto ele como a candidata evitam mencionar qualquer necessidade de reforma policial, falando de uma “polícia encantada” que só existe em suas cabeças, como denuncia a jornalista Alane Reis.

Então, não se trata de governadores que não conseguem controlar a violência policial. Estamos falando de governadores que não se importam ou, pior, estimulam essa violência.

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E com uma vantagem. Os governadores tidos como de esquerda têm a tranquilidade de comandar ações assassinas e racistas com suas polícias sabendo que poderão contar com a complacência de quem vai evitar criticá-los para não disparar fogo amigo — como a militância petista que silencia diante dos abusos da PM baiana, também lembrada por Alane. É uma situação parecida com o que ocorria em relação ao governo do presidente Bill Clinton, nos EUA, que nos anos 90 pode adotar tranquilamente uma série de medidas de endurecimento da violência estatal racista, retratadas no documentário A 13ª Emenda, confiando que isso não lhe tiraria os votos dos negros.

Rute Fiuza, mãe de Davi, menino que aos 16 anos de idade foi trucidado por 17 policiais militares, não tem dúvida em apontar os responsáveis pelo crime. “O Estado, o governo do Jacques Vagner, do Rui Costa e do PT, me devem isso, a mim e outras pessoas: onde estão os corpos dos nossos mortos, dos nossos filhos?”.

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Estamos com Rute. E com as todas as Mães de Maio, que nunca se preocuparam em criticar qualquer governante, de qualquer partido, em sua busca por justiça. E continuaremos a cobrar, e a nomear, cada governador que, por ação ou omissão, permita que crimes absurdos como esse continuem a ocorrer em seus estados.

Fausto Salvadori é diretor de redação da Ponte Jornalismo

(*) Esse texto representa a opinião da Ponte Jornalismo. Foi originalmente enviado aos assinantes da nossa newsletter. Assine.

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