Em nova música, Nayra Lays exalta resistência das vidas negras

18/08/19 por Amanda Figueiredo e Paloma Vasconcelos

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Cria do Grajaú, extremo sul de SP, cantora lança ‘Parto’: ‘encontramos formas de nos conectar’

Nayra Lays durante gravação de ‘Parto’| Foto: Rosa Caldeira/Divulgação

O dia 21 de junho tem muitos significados para Nayra Lays da Silva Franco. Não só por ser o dia do seu aniversário, mas por ser uma data importante para sua carreira musical, iniciada meio sem querer há três anos. Foi nessa data, em 2017, que a canceriana – nascida no primeiro dia de regência do signo – lançou o seu primeiro EP.

Com três músicas que se conversam entre si, Ori foi o seu primeiro trabalho. Não à toa, dois anos depois, Nayra Lays escolhe novamente o vigésimo primeiro dia de junho para lançar o seu novo som: ‘Parto’. O lançamento do novo clipe aconteceu em junho na Casa do Baixo Augusta, no centro de São Paulo.

Novo ciclo, novo ano, novo single. Nayra Lays renasce com a sua nova música de trabalho. É como se fosse um recomeço. “Parto é um marco de um momento em que eu tô entendendo a importância das coisas que eu faço. É um lembrete que eu preciso todos os dias reforçar que o que eu faço é importante, que é antes de tudo um registro histórico”, conta Nayra em entrevista à Ponte.

“É esse ponto de partida para um novo lugar, para um novo momento, para esse momento de maior profissionalização do meu trampo. Eu já passei muito tempo tomando fôlego e agora estou pronta para estar em outros lugares. Quero me preparar para as minhas bênçãos assim como eu me preparo para os momentos difíceis. ‘Parto’ é isso, é eu me preparar para as minhas bênçãos”, define a cantora.

Cria do Grajaú, extremo sul de São Paulo, desde os 12 anos Nayra tinha em casa uma inspiração. Seu tio, Julio, tinha um grupo de pagode chamado Acalanto e, no dia que descobriu que ele também escrevia as músicas que cantava, a menina ficou encantada. Imediatamente começou a compor suas primeiras canções, que à época eram pagodes e sambas de amor. “Mas óbvio que eu não tinha vivido as coisas que eu escrevia”, brinca Nayra.

Cena do clipe ‘Parto’ | Foto: Rosa Caldeira/Divulgação

Aliás, a relação com o Grajaú é muito importante para Nayra. Apesar de ter morado em outros locais, como no bairro Armênia, na zona norte da cidade, em Diadema, município na Grande São Paulo, e até no interior paulista, ela sempre volta para o extremo sul. Foi no BNH (Banco Nacional de Habitação), um dos muitos bairros que fazem parte do Grajaú, o distrito mais populoso da cidade, que Nayra criou raízes.

Foi essa proximidade com suas raízes territoriais que proporcionou, de fato, a entrada de Nayra na música. Em 2016, a carreira musical começou a ganhar corpo, apesar de não ser muito consciente para ela. “Eu comecei a me aproximar da galera do Grajaú, dos artistas, das artistas. Comecei a ouvir muita gente que fazia rap lá. Dentro dessas muitas gentes a maioria era homens, sempre tinha uma narrativa muito masculina. Desde sempre, por causa do Grajaú e do rap, por causa do Criolo como essa figura, até observar que nos eventos a maioria das pessoas eram homens”, conta Lays.

A primeira música lançada nesse período foi ‘Money acima dos perreco’. Como conhecia um beatmaker, quem coloca as batidas nas músicas, pouco depois o som estava disponível em uma plataforma de streaming. “Eu lancei no SoundCloud e algumas pessoas escutaram. Foi nessa oportunidade que a Denise Alves, minha parceira que no ano passado cantamos o ano todo juntas, ela já tinha uma caminhada dentro da cena do Grajaú, ela me mandou uma mensagem no Facebook falando que ouviu meu som e me chamou pra cantar com ela. E eu falando que não, que só tinha uma música. Aí ela disse pra eu cantar essa música e na hora ver outra coisa e tal”, relembra.

Apesar disso, só um ano depois, só depois do lançamento de Ori, que Nayra percebeu que a sua carreira musical não era apenas um hobbie. Só no começo de 2017, antes de lançar as músicas “Coloridas” e “Preta chave“, Nayra se deu conta de que precisava assumir para si mesma que seu caminho era ser artista. “Se colocar como artista é uma coisa difícil. Então eu levei um tempo pra conseguir virar essa chavinha, mas acho que veio muito do retorno das pessoas mesmo. Ouvir as pessoas falando como minha música chegava até elas, fez eu perceber que era um rolê maior do que eu”, explica.

Equipe por trás do clipe ‘Parto’: composta 100% por pessoas negras | Foto: Rosa Caldeira/Divulgação

Nesse período, Nayra estava conciliando o trabalho em uma agência de publicidade e estava finalizando um curso de jornalismo feito na Énois. Até então, ela acreditava que o seu caminho estava na comunicação, no jornalismo, e não na música. Entre 2015 e 2016, Nayra, que até então trabalhava como jovem aprendiz em uma empresa do ramo da saúde. Desde o primeiro dia, a escola de jornalismo despertou uma série de emoções. Determinada, chamou a mãe, Liliam Alessandra da Silva Sousa, para conversar um tempo depois para explicar que largaria o emprego e se dedicaria ao jornalismo.

“Eu tive que falar com a minha mãe por que isso envolvia renda, essa questão de ajudar em casa. Então eu prometi que eu ia sair, mas que logo eu iria começar a trampar com outra coisa, que eu gosto, e eu ia conseguir a voltar a ajudar. A Énois foi muito esse start de entender que eu estava desperdiçando o meu talento. Hoje eu vejo como isso foi um privilégio, primeiro de ter uma mãe que me entendia, a gente nunca teve grana, mas ela sempre entendeu muito os meus momentos”, conta.

O primeiro EP: saída da igreja, entrada na música

No candomblé, orí é a origem do ser, a ligação metafísica do orun (plano dos orixás) ao ayé (nosso plano terrestre) através de nossas cabeças. Orí também é o nome do primeiro EP de Nayra Lays, nele a artista o descreve como “a bússola do sagrado que nasce com cada indivíduo”. Não à toa a obra representa uma fase de transição acerca da espiritualidade da cantora, uma vez que o processo de construção desse trabalho se deu justamente no momento em que Nayra decidiu sair da Igreja, aos 17 anos.

A artista, que desde muito cedo se via batendo de porta em porta como Testemunha de Jeová, sonhou com o refrão da faixa “Fartura de Vida”. Foi então que Nayra olhou para dentro de si e entendeu que não lhe cabia mais demonizar sua essência e tudo que ela representa. “Quando eu percebi que não cabia mais naquele lugar, comecei a me entender como uma mulher preta. Vários fragmentos do Orí vieram dessa fase”, afirma Nayra.

“Orí” é primeiro EP de Nayra Lays e foi lançado em 2017

À época, Nayra ainda estava descobrindo e dando forma à sua musicalidade, com grande preocupação em relação aos arranjos das faixas, por vezes a cantora soa como quem declama ou recita uma poesia.

Assim como as suas influências musicais, que vão desde Tássia Reis e Luedji Luna à Tay (sua amiga e cantora), é difícil encaixar a sonoridade de Nayra em um gênero ou subgênero específicos, não cabe em uma caixinha.

Até aqui, as obras da artista beberam da fonte do rap ao R&B, sempre com foco em uma musicalidade necessariamente preta. Durante a entrevista, ela brinca que Nayra Lays canta Nayra Lays. Talvez seja mesmo a forma mais justa de definir o seu trabalho musical.

Parto: onde vida e morte se encontram

Como de costume, em mais um 21 de Junho, seu aniversário, Nayra lança uma nova obra. Diferente do que a artista havia proposto em trabalhos anteriores, a música “Parto” nasce do processo de imersão e compreensão de sua própria musicalidade, marcando um novo ciclo da vida profissional da cantora.

Encontrar uma forma de dar corpo à sua nova fase não foi uma tarefa fácil, mas os caminhos da vida de Nayra a levaram a conhecer a pessoa ideal para desenvolver seu novo trabalho, foi através de outro músico, chamado Marabu, que a cantora conheceu o produtor musical Levi Keniata, responsável pela produção do single. E lá se foram cerca de quatro a cinco meses de trabalho, do Grajaú para São Caetano, cidade no ABC Paulista, lugar onde reside o produtor e seu estúdio, Nebulosa Selo. 

Desde a atenção dada ao despretensioso cantarolar de um samba ou através de questionamentos sobre as origens da cantora, o produtor se mostrou atento a todos os detalhes durante o processo de construção da faixa. Para Nayra, Levi é alguém que entende a música como algo maior, que necessita de propósito para existir. 

Eu e o Levi trocamos muita ideia antes de começar a trampar de fato, a gente trocou muita ideia sobre a vida. Ele sempre perguntou muito o que eu ouvia, o que era música para mim. É muito humano e por isso que demora mais”, relembra.

Aos 26 anos, Keniata já trabalhou com músicos como Edvan Mota e Ravi Landim. Quando questionado sobre o trabalho desenvolvido com Nayra, o produtor afirma que compreender o momento atual que a cantora vivia foi essencial para obter um resultado genuíno, fiel às sensações que a artista queria imprimir em sua música. 

“Eu já notava que existia um fio poético ali, que era muito próprio dela, só que ele poderia ser explorado no sentido intimista da coisa. À medida que ela mergulhasse nela, as pessoas poderiam entender elas próprias”, pontua Levi. 

Inicialmente inspirada no discurso de Sojourner Truth (E não sou eu uma mulher?), a faixa nasceu e renasceu por diversas vezes, foi destruída e reconstruída, ganhando novos formatos até chegar ao resultado que podemos ouvir hoje.

“Parto” perpassa pelas pequenas mortes que acontecem ao longo da vida de pessoas negras (como a vontade de ter cabelos lisos ainda na infância ou a sensação de não-pertencimento comum à pessoas em diáspora), ao passo que também celebra vidas negras que, a despeito de todas as mortes simbólicas e materiais, insistem em existir de forma plena. Sensível e cirúrgica, a faixa traduz a vibração de uma energia ancestral que possibilita os nascimentos e renascimentos de vidas negras. 

“Seremos a fratura na coluna de um tempo que não pode mais existir”

“Quando pensamos na nossa história como povo preto, se ainda estamos aqui, é definitivamente por uma questão espiritual e ancestral que faz com que continuemos nos enxergando, continuemos encontrando formas de nos conectar e seguirmos firmes. Ainda estamos vivas tendo perspectiva de quem a gente é”, pontua a cantora. 

Sua dinâmica carregada de arranjos de vozes, referências do pagode ao samba e o tom intimista da música, somado à potência artística de Nayra, são um respiro para aqueles que acreditam na necessidade de firmar novas narrativas para o presente e futuro da música afrobrasileira.

A narrativa do clipe

Para construir um clipe que estivesse a altura da musicalidade de “Parto”, Nayra Lays chamou Ione Maria para construir o roteiro do clipe, ao lado de Richner Allan e Vinicius Ferreira. Nayra também dividiu a direção geral com Ione.

“Parto” é a nova música de trabalho de Nayra Lays

Em entrevista à Ponte, Ione brinca que achou que Nayra a chamaria para, no máximo, fazer a arte do novo som. “Foi um convite irrecusável, mas por um tempo eu me questionei de quão grandiosa seria minha participação, além de ser uma construção coletiva, de dividir os processos com mais pessoas. O que foi muito bom, foi essencial, mas eu tava muito confusa sobre como guiar esses encontros. Eles acabaram me guiando também. Foi uma coisa muito coletiva mesmo”, conta Ione, que também assina direção de arte e figurino.

A narrativa do clipe, construída a oito mãos, foi realmente coletiva. “Pensamos em códigos que poderiam falar o que a letra estava propondo, mas sem ilustrar o que a música queria dizer. Então nos reunimos várias vezes para destrinchar cada coluna da música, entender esse processo e como a gente poderia transformar em narrativa visual. Ao mesmo tempo que estamos contando uma cena, uma história, não estamos descrevendo precisamente o que está sendo cantado”, explica Ione.

Cada elemento do clipe, afirma Ione Maria, foi elaborado com muito cuidado. Texturas, cores, cenários, a atuação de cada pessoa. Cada elemento que aparece em “Parto” foi trabalhado para repassar a sensibilidade e a suavidade da narrativa criada para o clipe.

“Eu pensei na seda, por exemplo, no cetim, para trazer volume para as cenas. Eu sabia que se eu usasse um tecido de algodão ele não traria tanto volume. Ao mesmo tempo que ele [o cetim] é suave, ele é brilhoso e volumoso. O brilho, em si, foi uma coisa muito presente no clipe, é algo que eu gosto muito de trabalhar, tanto o estresse quanto o filtro da fotografia que às vezes tem aquelas estrelinhas. Essas são coisas que eu gosto muito e eu acho que cabia na narrativa”, relata a diretora.

O trabalho de Ione também girou em torno de uma escolha assertiva do cenário, que foi pré-definido pensando nas cores: o azul do céu, o verde do mato, a cor da água. Além da própria pele negra. “Eu pensei em coisas que pudessem complementar, trazer e reforçar essa mensagem que a gente trabalhou no roteiro, de ser uma coisa mais mágica e lúdica, para trabalhar o imaginário, a efetividade. Cores que dentro da psicologia trouxessem isso visualmente”, define.

Para Ione, o clipe de “Parto” fala sobre narrativas poéticas pretas. Além da equipe por trás das câmeras ser composta por pessoas negras, a equipe de atuação também traz diferentes tonalidades da pele negra. Por isso, a diretora precisou ter um cuidado a mais na construção do figurino.

“Tivemos um elenco completamente negro e com suas variações de peles. Então isso foi uma coisa que tive de pensar, por exemplo, se um tecido ficaria bem em uma pele light skin, numa pele dark skin também, e aí qual seria a probabilidade de troca e aí a combinação dessas cores entre si. Usamos creme, rosa, verde musgo, vinho e tudo deu muito certo. Foi bem com todas as tonalidades que quisemos trabalhar com o vídeo”, explica.

A liberdade que vem do berço

A relação que Nayra Lays tem com a sua mãe reflete diretamente em sua música. Liliam Alessandra nunca proibiu a filha de seguir nenhum dos caminhos que, desde muito cedo, Nayra quis trilhar. Nem quando a pequena, com 11 anos, disse à mãe que queria se batizar na igreja evangélica e seguir como na vertente conhecida como Testemunha de Jeová, batendo de porta em porta para falar a palavra de Jesus Cristo.

Também não houve proibição quando, cinco anos depois, Nayra decidiu abandonar a igreja. Da mesma forma, não houve qualquer objeção de Liliam para a troca do emprego formal como jovem aprendiz para seguir o caminho do jornalismo.

Com a música não foi diferente. Aliás, Nayra encontra na mãe uma de suas maiores apoiadoras. “Minha mãe super me ouve. No dia que eu lancei o EP, ela estava no lançamento. Todos os shows que consegue, ela me acompanha. Ano passado eu tive o meu primeiro show no Rio e ela foi comigo. Ela me acompanha em tudo”, conta a cantora com um sorriso no rosto.

Para Nayra, isso reflete também na sua forma de lidar com a música: ela faz questão de incluir a mãe em tudo. Desde as referências, ao trazer sua avó e sua bisavó para o seu trabalho, como na capa do novo single, que traz uma fotografia antiga de sua mãe grávida de seu irmão mais velho, Caique, hoje com 24 anos. “Isso que faz com que a minha mãe se identifique com as coisas que eu canto, ela se enxerga nisso”, explica Lays.

A foto usada na capa da nova música de Nayra é uma imagem de sua mãe, Liliam, grávida do filho mais velho | Foto: reprodução

Se não fosse o apoio dentro de casa, confessa a cantora, seria difícil seguir na trajetória. Até trabalho de assessoria, se deixar, Liliam faz pela filha. “Nesse corre todo de divulgação de ‘Parto’, ela pegou o telefone e ligou para um cara de uma rádio do Grajaú, mandou um áudio falando ‘a minha filha canta, vai lançar uma música nova, leva ela aí na rádio’. É a Rádio Onda”, lembra Nayra.

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