Fim do ‘Manos e Minas’ é tentativa de silenciar as quebradas, diz apresentadora

11/07/19 por Maria Teresa Cruz

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Para Roberta Estrela D’Alva, interrupção da produção do programa da TV Cultura mostra submissão do governo de SP ao mercado; além disso, evidencia que o olhar crítico e a consciência política do povo, sobretudo da juventude, é abominada pelos que estão no poder

A poeta, atriz, apresentadora e slammer Roberta Estrela D’alva durante lançamento do filme dirigido por ela, “Voz de Levante”, no ano passado | Foto: Sérgio Silva/Ponte

A notícia da interrupção das gravações de novas edições do programa “Manos e Minas”, da TV Cultura, chegou em forma de desabafo em um texto crítico e emocionado da atriz, slammer e apresentadora Roberta Estrela D’Alva, no último sábado (6/7). “Gente negra, periférica, homossexual, transexual, surda, mulheres, indígenas, poetas e tudo o que essas pessoas produzem culturalmente não é prioridade. A prioridade é o mercado”, diz parte da postagem.

O programa está no ar há mais de uma década e tem como protagonista a linguagem das ruas e a produção da quebrada. “O programa registrava a cultura periférica in loco com as matérias do Rodney Suguita. Ele ia pra dentro das quebradas, dos presídios, onde ninguém mais vai. Os poetas do slam davam a letra que ninguém dá. Congelar um programa desses por 8 ou 6 meses é muito tempo, considerando que a cada 23 minutos um jovem negro é morto no país”, afirma Roberta, em entrevista à Ponte.

Ela conta que a alegação para o corte foi meramente financeira, mas alerta que em uma concessão pública não existe uma decisão que não seja política. “É um desmanche que já vinha em curso e se intensifica agora”, disse.

Foto usada por Roberta para fazer a postagem anunciando a interrupção das gravações do Manos e Minas | Foto: reprodução/Facebook

As produções de novos episódios estão interrompidas até o ano que vem, quando haverá nova avaliação. Até lá, reprises do programa continuarão na grade da TV Cultura.

Nesta quarta-feira (10/7), o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) enviou um ofício à presidência da emissora cobrando explicações sobre a decisão. A Ponte procurou a assessoria de imprensa da TV Cultura por e-mail, solicitando uma posição oficial da emissora, bem como questionando sobre o recebimento do ofício parlamentar. A emissora informa que pretende até sexta-feira (12/7) enviar um posicionamento. Sobre o ofício, informa que, até momento, nenhum documento foi recebido.

Confira a entrevista com Roberta Estrela D’Alva:

Ponte – O que você acha que está por trás da interrupção das gravações do Manos e Minas?

Roberta Estrela D’Alva – A interrupção do Manos e Minas é mais um sintoma de um desmanche que já vinha em curso e se intensifica agora. A nova gestão alega que não é uma decisão política mas financeira, pois não há caixa para os pagamentos. Mas em uma TV estatal não há decisão que não seja política! E o Manos e Minas ser o primeiro programa a ser paralisado é bastante emblemático sobre a mentalidade na qual está pautado o governo do estado.

Ponte – Você entendeu que é um prenúncio para o fim do programa ou apenas uma fase?

Roberta Estrela D’Alva – O que me foi dito é que as gravações do programa iam parar, os programas iam ser reprisados e no ano que vem o rumo do programa seria decidido. E mandaram toda a equipe contratada via pessoa jurídica embora. Mas parar de gravar um programa como o “Manos e Minas” já é em si algo nefasto, pois interrompe um trabalho que estava sendo feito no sentido de trazer para o centro as vozes invizibilizadas. O programa registrava a cultura periférica in loco com as matérias do Rodney Suguita. Ele ia pra dentro das quebradas, dos presídios, onde ninguém mais vai. Os poetas do slam davam a letra que ninguém dá! O DJ Erick Jay é um menino negro bi-campeão mundial do DMC, sabe o que é isso? Sabe o que é um menino negro ter uma referência dessa na TV? Fora as pessoas que iam lá no teatro assistir as gravações, uma plateia majoritariamente negra e periférica assistindo shows gratuitamente, se formando, se educando . Sinceramente congelar um programa desses por 8 ou 6 meses é muito tempo, considerando que a cada 23 minutos um jovem negro é morto no país.

Ponte – O que você sentiu quando foi informada da decisão?

Roberta Estrela D’Alva – Eu pensei “está acontecendo”. Quando eu li a matéria sobre o “choque de gestão” que estava sendo planejando para criar a “nova TV Cultura” eu já imaginei. Uma TV pública que troca sua prioridade de ser educativa, para ser lucrativa em um “novo” formato “pró -mercado” com certeza não está interessada em um programa como o “Manos e Minas”. Agora é sempre muito triste e inacreditável quando a coisa acontece de fato e tão rapidamente.

Ponte – O Manos e Minas é um programa que traz a produção cultural da quebrada, tanto quando falamos nas formas de expressão artística como de linguagem mesmo, de entender as narrativas que fazem sentido para a quebrada. Sob essa ótica, o que representa o seu fim?

Roberta Estrela D’Alva – O fim do “Manos e Minas” representa o fechamento de um dos poucos espaços onde a produção cultural negra, de mulheres, periférica, LGBTQ+, tinha espaço na TV aberta. E por outro lado também significa que o poder transformador dessa cultura é temido pelos que estão no poder, senão esse programa não teria sido o primeiro a ser descartado.

Ponte – Educação e cultura no momento atual político do país são áreas que têm sido muito castigadas. A quem interessa esse desmonte, na sua avaliação?

Roberta Estrela Dalva – A gente tem que entender o nosso processo histórico e o que não foi passado a limpo e sempre retorna. No nosso caso, são os quase 400 anos de sistema escravocrata e ainda a ditadura militar. Não tem como fugir. As forças conservadoras são chamadas assim porque querem conservar algo, que nesse caso literalmente fica “claro” que é um privilégio de classe,raça e gênero. É culturalmente que a mentalidade do senhor de escravo se perpetua, e é por isso que a cultura é a primeira instância a ser atacada. O olhar crítico, o raciocínio a consciência política do povo, sobretudo da juventude, é abominada por quem se sente ameaçado por ela e precisa mantê-la na subalternidade eterna.

Ponte – Há esperança de mudança? Onde?

Roberta Estrela D’Alva – A História é feita de ciclos e não há mal que dure para sempre. O ator Celso Frateschi, amigo querido que lutou contra a ditadura, me disse esses dias “não é a primeira vez, nós passamos por isso uma vez e sobrevivemos, vamos sobreviver de novo”. A gente vai continuar se organizando pra resistir. Há muita coisa bonita acontecendo também, sendo criada. Tem uma molecada ligeira, meninas negras ligadíssimas. Eu sigo acreditando e trabalhando por um mundo melhor e com mais poesia.

*Reportagem atualizada às 18h08 do dia 11/7

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