Gays à direita: por que eles não levantam bandeira

14/05/19 por Maria Teresa Cruz e Paloma Vasconcelos

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Afastados das pautas identitárias – por opção ou estratégia – políticos vivem contradição de ser homossexual no campo conservador; deputado estadual foi transfóbico durante discurso no plenário e logo depois anunciou ser gay

Fernando Holiday (à esq.) e Douglas Garcia (à dir.) | Fotos: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Divulgação/Alesp

Primeiro foi Fernando Holiday (DEM-SP), líder do MBL (Movimento Brasil Livre). Aos 22 anos, o vereador eleito com 48.055 votos nas eleições de 2016 e se tornou o primeiro homossexual a ocupar uma cadeira na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Em junho de 2018, ele disse à revista Época que é gay não praticante, pois busca seguir à risca o mandamento bíblico. Holiday também é um homem negro. Mas suas bandeiras no campo político, além de não apoiarem as lutas dos movimentos LGBT e negro, vão contra as conquistas já obtidas de ambos os movimentos: ele é contrário ao ativismo LGBT, às cotas raciais e foi um dos maiores defensores do Escola sem partido.

Em entrevista à Ponte, Fernando Holiday comenta que sempre teve que lidar com a contradição de ser gay e negro e optar por não se engajar nas pautas identitárias. “Fiz a opção em lutar por causas mais amplas, não só as que dizem respeito a mim enquanto indivíduo. O fato de não militar nestas pautas não me afasta delas. O que tenho questionado ao longo de toda a minha trajetória foi certa promiscuidade entre lideranças do movimento negro e LGBT com postulados próprios da extrema-esquerda, algo que rejeito tanto quanto o extremismo da direita. Defendo e sempre defenderei direitos na medida em que estas demandas tratem da dignidade de negros e gays e na equiparação legal, mas nunca por demandas que de alguma forma estabeleçam privilégios ou que nos afastem do objetivo comum que é a igualdade”, argumenta o vereador.

O vereador explica quais são as pautas defendidas pela direita para a população negra. “Algo que sem sombra de dúvidas ajudaria a população negra seria uma mudança na lógica de investimentos da educação, investindo mais no ensino público do que no ensino superior – uma realidade que só beneficia quem já é proveniente das elites. A prioridade do governo deveria ser em investimentos no ensino público básico e técnico. Também seria desejável que o currículo escolar contemplasse com maiores detalhes a história dos africanos escravizados e sua trajetória no país, exaltando nomes da intelectualidade negra como Ernesto Carneiro Ribeiro [médico, professor, linguista e filólogo], Visconde de Montezuma [jurista, abolicionista, um dos fundadores da Ordem dos Advogados do Brasil e primeiro diplomata negro] e Luiz Gama [jornalista, escritor e importante líder abolicionista]”, defende.

Para Fernando, no aspecto da violência, o governo deveria fomentar uma relação de maior proximidade entre as autoridades policiais e as comunidades onde atuam. “Dessa forma o jovem negro, que é a maior vítima de violência em todas as estatísticas, não verá o policial como inimigo e o policial não necessariamente verá o jovem negro como suspeito. Quanto aos gays é fundamental lembrar que a sociedade já tipifica a violência por motivo de ódio, o que talvez falte é a punição adequada para estes crimes. No entanto aqui penso que não é o caso de criminalizarmos qualquer discurso que se mostre contrário ao homossexualismo e orientações minoritárias, já que isso pode engessar a liberdade de expressão”, salienta Holiday, que moderou o discurso nos últimos anos.

Por muito tempo, por exemplo, foi apoiador do projeto “Escola sem partido”. Hoje, procura passar uma outra visão sobre o assunto. “Observei com certa tristeza que houve uma confusão entre uma coisa e outra a ponto do professor ser encarado como um inimigo em potencial. Não é assim que deveria ser, existe a liberdade de cátedra. Também não é o caso de se substituir uma ideologia por outra como querem alguns. A escola deve permanecer como um ambiente democrático e plural. Falo disso por experiência própria, já que trilhei o caminho da política por inspiração de um professor petista que sempre fomentou o debate e sempre provocou nos alunos o interesse pelo exercício da cidadania. No entanto em nenhum momento ele determinou que pensássemos isto ou aquilo, ou que opção A era de fascista e B de racista”, explica.

Outra opinião polêmica do vereador do DEM-SP é a crítica às lutas de Marielle Franco, vereadora carioca executada a tiros na noite de 14 de março de 2018. No dia em que se completou um ano do assassinato de Marielle, Fernando Holiday disse que ela era extremista e que tinha ideais perturbadores. “Mantenho o que disse anteriormente sobre pautas defendidas pela vereadora [Marielle Franco] como legalização do aborto, drogas e uma inequívoca admiração por regimes ditatoriais socialistas tão presente no PSOL. Também mantenho que o caso é absurdo por se tratar de um agente público ocupando um cargo eletivo. Fosse Marielle vereadora, governadora ou senadora sua morte representaria a mesma gravidade. No entanto, sigo observando que suas ideias não eram necessariamente boas e que a exploração política de sua morte não é nem de longe desejável ou tolerável”, critica à Ponte.

Quando ser gay pode ser desculpa para o preconceito

Recentemente, foi a vez de Douglas Garcia (PSL-SP), 25 anos, o deputado estadual mais jovem já eleito pela Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) nas eleições de 2018, se envolver em um caso de transfobia e, na sequência, assumir que é gay. Alguns acusaram o parlamentar de oportunismo.

Douglas é membro do movimento conservador Direita São Paulo e o fundador do bloco carnavalesco Porão do DOPS. Entre as pautas defendidas por Douglas Garcia estão a revogação do Estatuto do Desarmamento, apoiar o livre mercado, a defesa do “Escola Sem Partido” e a luta contra a ideologia de gênero.

Em sessão plenária no dia 3/4, o deputado disse que “se um homem que se acha mulher entrar no banheiro em que estiver minha mãe ou irmã, tiro o homem de lá a tapa e depois chamo a polícia”. Após um discurso transfóbico que viralizou na redes sociais, Douglas decidiu se assumir como um homem gay por meio de uma fala pública na Alesp feita pela colega de partido Janaína Paschoal.

A frase de Douglas foi uma resposta ao discurso da parlamentar Erica Malunguinho (Psol-SP), primeira mulher trans a ocupar o cargo de deputada estadual, sobre o PL 346/19 do deputado Altair Morais (PRB-SP), que “estabelece o sexo biológico como o único critério para definição do gênero de competidores em partidas esportivas oficiais no Estado”. Erica considerou a fala de Douglas como incitação ao ódio e pediu abertura de processo por quebra de decoro.

Erica Malunguinho (à dir.) no dia da posse na Alesp | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Em entrevista ao El País, o deputado Douglas Garcia, ao ser questionado de ter se arrependido da fala transfóbica, enfatizou que se desculpou, mas não mudou a sua opinião. “Eu pedi desculpas pela forma, mas jamais vou me desculpar pela ideia. Continuo achando que transexuais e travestis não podem utilizar banheiro feminino”, afirmou. “Talvez a forma tenha sido muito excessiva, por isso tive a humildade de pedir desculpas. Me dou bem com os parlamentares da Casa, mesmo que eles sejam de posicionamento extremamente diferente do meu. Mas minha ideia continua a mesma”.

Sobre ter se assumido gay depois do episódio, ainda ao El País, Garcia reforçou que a motivação foram ameaças recebidas por ele. “Depois da discussão com a Malunguinho, um portal disse que eu ameacei tirar ela a tapas do banheiro da Alesp. Não citei nem ela nem o banheiro da Alesp. Foi uma hipérbole. Aí essa informação mentirosa chegou para alguém que já se relacionou comigo, e alguns rapazes vieram até a minha página e ameaçaram levar minha condição de homossexual a público. Eu nunca tive problema com minha sexualidade, mas, se for para levar a público, não quero minha intimidade sendo revelada por terceiros”, enfatiza Douglas.

O deputado contou que, apesar das lutas LGBTs serem diretamente ligadas à esquerda, depois de ter “saído do armário” recebeu muitas mensagens de LGBTs que votaram no presidente Jair Bolsonaro (PSL). “É verdade que a bandeira LGBT é frequentemente associada à esquerda. Mas veja: aqui na Alesp, quem é o único deputado assumidamente gay? Eu. Na bancada do PT tem algum deputado gay? Na bancada petista do Congresso? Não. Na Câmara Municipal, fora o Fernando Holiday, tem algum outro vereador gay? Não. Depois que eu me assumi gay, o número de gays que apoiam o Bolsonaro e me procuraram para me parabenizar foi enorme. Acredito que na direita tem mais gay do que na esquerda. Mas as pessoas de direita não levam a orientação sexual em conta ao votar, votam nas ideias. Por isso pra gente não vale a pena criar um movimento LGBT de direita, categorizar assim”, disse ao El País.

A Ponte procurou Douglas para uma entrevista, que confirmou o recebimento do pedido, mas, até o fechamento da reportagem, não houve retorno sobre os questionamentos.

À reportagem, Fernando Holiday usou o fato de Douglas ser gay para defendê-lo da acusação de transfobia. Além disso, argumentou que compreende Malunguinho. “Posso compreender que certamente a Erica Malunguinho tenha sido alvo de preconceito ao longo de sua vida por conta de sua orientação sexual e sobretudo por ser uma mulher trans. Talvez o deputado possa ter se exaltado no debate, já que a questão ali diz respeito ao uso de banheiros por transexuais – algo que ainda é muito polêmico no debate. Mas não posso crer que ele sendo também um homossexual iria ser preconceituoso ou mesmo homofóbico ou transfóbico”, crava o vereador.

E esse é o ponto de crítica a Douglas, por exemplo, feito pela deputada estadual Erica Malunguinho: usar o fato de ser gay para ter salvaguarda para ser preconceituoso.

“Ao assumir-se gay, o deputado Douglas Garcia (PSL) revela o que já é sabido, o incômodo intempestivo que agride LGBTs faz parte de uma crise dos desejos do próprio atacante. Entretanto, isso em nada ameniza sua fala de incitação ao ódio e à violência, as desculpas pedidas por ele na ocasião do plenário no último dia 4 de abril vieram acompanhadas de ‘tenho imunidade parlamentar’ e outra logo em seguida – ao sair do armário: ‘Continuarei lutando contra o movimento LGBT’. As duas afirmações são contraditórias ao seu pedido de desculpas”, salienta Erica Malunguinho em nota à Ponte.

Para ela, é necessário que o também deputado estadual suba ao plenário e mostre que a violência contra transexuais em banheiros ou qualquer outro local não deve ser aceita. “Esta seria uma reparação crucial que demonstraria efetivamente sua reflexão sobre o acontecido. Auto analisar este evento é minimamente entender que angústias como as que ele viveu até a sua ‘assumição’, fazem parte de uma construção social extremamente excludente, que faz com que LGBTs, além de terem pertencimento colocado em negociação constante junto à sociedade cisheteronormativa [termo usado para explicar a norma social de que pessoas são cisgêneras, ou seja se identificam com o gênero de nascimento, e heterossexuais, pessoas que sentem atração por pessoas do sexo oposto], chegam ao extremo do suicídio e à submissão de toda violência física e emocional”.

‘Sou gay, logo não posso ser LGBTfóbico’

Para entender o cenário de homens gays que apoiam discursos e projetos políticos de extrema-direita, a Ponte conversou com o pesquisador Lucas Bulgarelli, doutorando em Antropologia Social pela FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP). O doutorado que Lucas está desenvolvendo estuda a relação entre gênero, sexualidade e conservadorismo e tem como objetivo entender o repertório construído em pessoas contrárias aos direitos LGBTs.

Para Lucas, a aceitação ou repúdio de pessoas LGBT dentro do movimento conservador depende de qual é a luta prioritária daquela pessoa. “A direita aceita um parlamentar LGBT desde que isso não seja a principal bandeira dele, às vezes nem a segunda, nem terceira. Tanto no caso do Holiday quanto do Douglas tem uma série de questões contrárias aos direitos LGBTs. Conservadores aceitam parlamentares LGBTs que sejam contrários aos direitos LGBTs”, explica.

Trocando em miúdos, o que vale é a narrativa construída de que existe um suposto bem maior – representado pelo país, pelos interesses da maioria – e que ele deve suplantar os interesses de grupos minoritários em direitos, como são os LGBTs. O pesquisador, ao identificar esse discurso, alerta para a desinformação em que ele está construído. É a ideia de que “sou gay, logo não sou LGBTfóbico”.

Isso explica, segundo Lucas, porque LGBTs apoiaram Jair Bolsonaro (PSL) durante a corrida eleitoral. “Existe uma dinâmica de se colocar primeiro como cidadão brasileiro, portanto votar em Bolsonaro seria a representação disso, que mesmo ele sendo um candidato homofóbico, um candidato que se coloca contra você, você primeiro pensa no interesse do país antes, de acordo com essa narrativa, depois você coloca a sua orientação sexual ou sua identidade de gênero, que seria, de acordo com a direita, uma forma muito distinta de se posicionar politicamente do que o movimento LGBT faz. O movimento LGBT, segundo eles, coloca os interesses LGBTs em primeiro lugar, e eles na verdade estão colocando os interesses deles em segundo lugar, o primeiro lugar é o país, a luta contra a corrupção, o armamento da população”, afirma.

Para o pesquisador, tanto Fernando Holiday quanto Douglas Garcia atuam de forma similar. “O Fernando adota uma postura de não falar disso. O Douglas tem algo parecido com o Fernando, de não querer ser visto como gay, como negro, são contrários a essa política representativa, mas ao mesmo tempo vivemos em tempos onde isso é cobrado. O Fernando diz que ele tem uma homossexualidade abstêmia, que é uma invenção, como você pode ser gay sem ser gay? Ele é uma figura muito útil, pois afirma que, apesar de ser gay, não pode exercer a homossexualidade. O Douglas também vem com essa de que defender direitos LGBTs, defender minorias, é possível fazer a partir da base política de armar mulheres e gays para matar seus agressores, o que é outra incorreção e desconhecimento”, argumenta à Ponte. “Seja no discurso ou na prática, e eles acabam usando a sua homossexualidade como desculpa, como uma forma de dizer que você não teria sido responsável com os seus próprios atos”.

Isso não exclusividade do Brasil. Em outubro de 2018, o ator estadunidense Kevin Spacey, 59 anos, protagonista da série House Of Cards, assumiu a sua homossexualidade depois de um episódio polêmico que gerou muita repercussão: Spacey foi acusado de diversos abusos sexuais. Um dos casos, que trouxe o assunto à tona, foi o do ator Anthony Rapp (ator do filme Star Trek: Discovery), que denunciou ter sido abusado por Spacey quando tinha 14 – na ocasião, Kevin tinha 26 anos. O público em geral apontou que o ator usou a sexualidade para minorar a violência que havia cometido.

Ator Kevin Spacey se assumiu gay depois de acusação de assédio sexual | Foto: Divulgação

Bulgarelli fundamenta que o movimento LGBT enxerga como algo negativo e muitas vezes oportunista as “saídas de armário” como a de Douglas. “As pessoas reagem mal por que muitas delas sofreram para passar por isso, então enxergam que essa saída do armário está sendo usada como uma ferramenta política, pra contornar a frase preconceituosa dele. Essa saída do armário para abafar esses episódios de LGBTfobia de fato acaba não tendo um acolhimento dentro do movimento LGBT, por que não é dito como uma saída feita a partir de uma forma legítima”, defende.

De contrapartida, o movimento de direita enxerga essa negativa do movimento LGBT como uma hipocrisia. Para Lucas, essa atitude demonstra desconhecimento. “A Sara Winter [ex-militante feminista que hoje em dia atua contra a causa feminista] recentemente disse que agora ele [Douglas] faz parte da minoria, e que por isso ele não poderia ser transfóbico. Mas na verdade isso é um desconhecimento enorme sobre o movimento LGBT, que nunca teve como princípio que pessoas LGBT não cometem opressão, muito pelo contrário. Isso deve ser combatido tanto dentro quanto fora, isso é parte da própria história do movimento LGBT e sociais, combatido sempre dentro e fora, porque obviamente ninguém tá isento disso”.

Para o antropólogo, ser contra políticas LGBTs faz com que Douglas vá contra sua própria existência. “Ele afirma que é contra a ideologia de gênero, que pra ele é uma pervertidão – o que é muito contraditório, na verdade, porque na verdade não existe ideologia de gênero, o que existe é um movimento social, que é o movimento LGBT, que lutou ao longo das últimas décadas para criar condições para que pessoas como ele [deputado Douglas] se assumisse gay”.

O que é ser LGBT dentro do campo político

No campo progressista, dois nomes muito atrelados ao debate da representatividade de grupos minorizados são o de Marielle Franco (Psol-RJ), vereadora negra, feminista e LGBT assassinada há 14 meses, e de Jean Wyllys (Psol-RJ), deputado estadual negro e gay exilado em janeiro desse ano. Os dois representam o conjunto de lutas dentro da pauta identitária.

Políticos que se colocam contrários aos direitos LGBTs, para Lucas Bulgarelli, se colocam contra todo esse código de luta. “É uma situação muito contraditória. As mesmas pessoas que poderiam fazer inserção dessas lutas LGBT são as que se valem do fato de poderem ser gays e assumem uma ideia violenta contra aqueles que lutam por direitos LGBTs”.

Marielle Franco (à esq.) ao lado de Jean Wyllys e Monica Benicio, sua companheira | Foto: Reprodução/Instagram

O resultado disso é criar medo em pessoas LGBTs de estarem em ambientes políticos. “Estamos falando de vidas e de pessoas, da possibilidade de se manterem no país. A preservação de vidas como a de Marielle e a preservação da figura de Jean Wyllys não deveria ser pauta de só um governo. Isso faz com que a gente veja isso como dois extremos. Temos LGBTs com representação parlamentar, temos de um lado pessoas de direita que podem se colocar contra direitos LGBTs mesmo sendo LGBT e do outro lado temos pessoas LGBTs progressistas que não levam uma política de medo, de insegurança. [Essa separação entre os dois campos] é de fato criada para que pessoas LGBT tenham medo de fazer política”, finaliza Lucas.

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