‘É importante saber quem mandou matar e o porquê’, diz filha de Marielle

No dia em que o assassinato da vereadora completou um ano, Luyara conta ter esperanças de saber quem mandou matar sua mãe e o real motivo do crime

Luyara contou que apoio popular dá forças a ela após a execução da mãe | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Um grupo de dança se apresentava no palco da Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, no ato em memória da vereadora Marialle Franco, assassinado no dia 14 de março de 2018. Na noite de um ano depois, Luyara Franco, de 20 anos, sentiu o apoio das ruas às pautas e bandeiras que a mãe representava. Para ela, ter esta resposta das ruas é um conforto.

“Acalenta um pouco ter esse carinho, saber que hoje a minha mãe é comparada a Angela Davis, Mandela… Dá para ter noção do que ela representava enquanto seu corpo, mulher negra, mãe solteira, bissexual, periférica, defensora dos direitos humanos”, contou Luyara, com voz firme. “Acalenta um pouco, sim. Me deixa mais confortável”.

Milhares de pessoas ocuparam a frente do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O espaço fica ao lado da Câmara dos Vereadores, justamente o lugar onde Marielle atuava como vereadora do Rio. Ali, levou a luta das mulheres negras, da periferia, da população LGBT. A escadaria na entrada do prédio estava lotado de manifestantes, camisetas, placas, botons, adesivos, faixas… Todos em memória e em luta e luto por Marielle.

Um ano após o crime, ainda não se sabe o real motivo para a execução de Marielle e Anderson Gomes, seu motorista que dirigia o carro após encontro de mulheres negras – Fernanda Chavez, assessora, sobreviveu ao ataque. No entanto, a única filha da parlamentar, cuja voz tentaram calar, explica que o crime deixou um recado. Mais do que isso, a resposta de quem esteve no centro da cidade e ao longo desse um ano a faz seguir em frente.

“Ainda é difícil estar aqui, mas acho que deixa forte o quanto o nosso corpo preto, de militância, é a nossa resistência. Tem pessoas aqui hoje que abriram mão de suas tarefas, suas rotinas, seus compromissos para estarem aqui nessa homenagem é ter noção que a coisa é muito maior”, explica a jovem.

Na terça-feira (12/3), a Polícia Civil do Rio de Janeiro e o MP (Ministério Público) prenderam o PM da reserva Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, acusados de atuarem diretamente na execução. Lessa teria atirado, enquanto Queiroz dirigia o carro usado no crime. Para Luyara, uma resposta parcial, mas que não diminui a cobrança por uma resposta maior.

“É uma mistura de sentimento até porque minha rotina, minha vida não parou, tenho minhas coisas. Porém, a gente fica com um pouquinho de esperança. Claro que é importante a gente saber se tiver um mandante, quem foi, e entender o por quê. Eu vejo com muita esperança, é dar uma acalmada e, agora, esperar a outra investigação. Sim, com certeza [tem esperança de descobrir o mandante]”, revela.

Luyara (à dir.), Mônica Benício, companheira de Marielle, e Marcelo Freixo, seu padrinho político, antes de encontro no ano passado com integrantes da investigação do crime | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

“Sua mãe, mulher negra, eleita democraticamente com 46 mil votos, ser assassinada por questão de ódio é um ataque à democracia, um ataque às nossas vidas pretas, ao nosso corpo, ao nosso direito de ir e vir, e saber que as pessoas são um pouco desumanas”, finaliza Luyara.

Naquele momento, o grupo de dança para. O som começa a tocar a introdução da música “Jesus Chorou”, do grupo de rap paulistano Racionais MC’s. A jovem começa a curtir a vibe e cantar a letra de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. Sua tia, Anielle Franco, havia dado o recado no começo do ato: “Hoje é um dia de lembrar o trabalho, a pessoa Marielle. Peço encarecidamente que espalhem as coisas boas, que sigamos juntos”, declarou.

Luyara estava a seu lado no palco, mas não se pronunciou. No entanto, seguiu à risca o conselho da tia: curtiu. Sentiu o som dos Racionais naquela hora e, depois, subiu ao palco para dançar funk no encerramento. Era a hora de lembrar uma das diversões de Marielle que, segundo Anielle, saia escondida de casa para os bailes do Furacão 2000. “E me levava escondida junto”, lembra a irmã.

No fim, a Candelária fez tanto um ato político quanto um ato de memória. Luyara, mais do que ninguém, soube como relembrar e homenagear a mãe, mulher negra, pobre, de periferia e LGBT.

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