‘Não acabou’: polícia do RJ quer saber quem mandou matar Marielle e Anderson

12/03/19 por Maria Teresa Cruz

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Governador do Rio Wilson Witzel, que havia participado de ato que rasgou placa com nome da vereadora, usou prisão de suspeitos para elogiar a própria gestão em coletiva de imprensa e afirmou que acusados poderão fazer ‘delação premiada’

Marielle Franco e Anderson Gomes | Foto: reprodução Instagram

Os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, presos nesta terça-feira (12/3), foram denunciados pelo homicídio qualificado de Marielle Franco e Anderson Gomes, ocorridos há exatos 363 dias, em 14 de março do ano passado. A dupla também é acusada de tentativa de homicídio da assessora da vereadora, que estava no carro, mas sobreviveu ao ataque. Os suspeitos foram presos na primeira fase da Operação Lume, uma ação conjunta da Polícia Civil do Rio de Janeiro com o Gaeco (Grupo de Ações Especiais de Combate ao Crime Organizado) do MP (Ministério Público Estadual). Mais de 30 mandados de busca, apreensão e prisão serão cumpridos ao longo desta terça-feira.

De acordo com a denúncia, as investigações concluíram, por meio de diversas provas, que Lessa foi o autor dos crimes, tendo efetuado os disparos de arma de fogo, com a participação de Elcio que foi o condutor do Cobalt utilizado para a execução. Ronnie Lessa é policial militar reformado e Elcio foi policial militar, tendo sido expulso da corporação. O Gaeco/MPRJ pediu a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa. O crime foi planejado por três meses.

Em coletiva de imprensa, Giniton Lages, titular da DH (Divisão de Homicídio), destaca, no entanto, que o caso Marielle não está encerrado, já que é preciso ainda identificar a motivação e o mandante do crime. “Conseguimos nessa primeira fase entregar quem estava no veículo, mas faltam agora as motivações. Nenhuma hipótese foi descartada, inclusive as que ligam milícias ao caso”

Giniton frisou que, durante a investigação, descobriu que não apenas Marielle era pesquisada pelo policial reformado. “O [Marcelo] Freixo [deputado federal do mesmo partido de Marielle], a esposa dele. Personalidades de esquerda no geral eram investigadas como possíveis alvos”, destacou.

Para Giniton Lages, o crime demandou uma investigação inédita pela extensão na polícia civil, catalogando mais de 5700 páginas em 29 volumes. O nome da operação, por sua vez, veio da própria trajetória de Marielle. “Lume se refere à luz, coisa que Marielle tinha muito. Mas ela também participava de um evento chamado Lume Feminista, então achamos que era um nome pertinente”, disse o delegado, que concedeu entrevista ao lado do governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, o secretário de Polícia Civil Marcos Vinícius Braga e o investigador da Polícia Civil Antônio Ricardo Nunes (Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa).

Lages também descartou, neste momento, ligação entre a família de Jair Bolsonaro (PSL) e o policial militar reformado Ronnie Lessa, que mora no mesmo condomínio onde o presidente tem casa no Rio de Janeiro. “O fato de ele morar no condomínio do Bolsonaro não diz muita coisa, não, para a investigação da Marielle”, disse Lages. “Nós imaginávamos que esse link fosse feito, mas ele não tem uma relação direta com a família Bolsonaro.” O delegado indicou que o tema deverá ser “enfrentado no momento oportuno”.

O governador Wilson Witzel, que participou de ato que destruiu a placa em homenagem à vereadora em outubro do ano passado, usou o momento de fala na coletiva para afirmar que confia no trabalho de investigação da Polícia Civil do Rio e também para elogiar a sua gestão, anunciando investimentos. A postura de Witzel foi alvo de críticas nas redes sociais, que destacaram a “memória curta” do governador.

Para ele, as prisões são uma resposta importante à sociedade, em especial por se tratar de um crime que ele definiu como bárbaro contra uma parlamentar em atividade. “A investigação têm provas documentais e não apenas testemunhais” observou Witzel, que pontuou ainda que a trajetória histórica da Lava-Jato deu base jurídica para fragmentar a operação em outras fases, que foi confirmado posteriormente pelos investigadores. “Os presos inclusive podem pensar em delação premiada”.

Antes de explicar a dinâmica do crime, o delegado Giniton Lages expôs sua insatisfação com o trabalho da imprensa durante a cobertura do caso. “É preciso que a imprensa entenda que o sigilo em algumas informações é imprescindível”, afirmou o policial, citando que vazamentos constantes teriam atrapalhado a investigação. “Quando um jornalista recebe informações sigilosas e as publica percebe-se que falta a sensibilidade crítica. Perdemos muito quando foi divulgado que a arma utilizada no crime foi uma MP-5.”

Na denúncia, divulgada no portal do MP, a promotoria destaca que a independentemente de Marielle talvez ter sido um alvo ocasional – dentro as possibilidades pesquisadas pelos criminosos – o que ela representava certamente foi um fiel da balança na decisão do crime. “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia”, diz a denúncia acrescentando que a barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito.

Wilson Witzel fala sobre caso Marielle Franco ao lado de integrande da DH e do MP | Foto: Reprodução Facebook

Dinâmica do crime

Segundo a investigação conjunta da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do RJ e do Ministério Público do RJ por meio do Gaeco, o policial reformado Ronnie Lessa foi o atirador e Elcio Vieira de Queiroz atuou como motorista do Cobalt, que era um veículo clonado. O original foi encontrado durante as diligências e, segundo a polícia, a proprietária é uma idosa moradora da zona sul do Rio. A presença de uma terceira pessoa no carro, tese defendida no início das investigações, está descartada, até o momento.

De acordo com nota do MP, responsável pela denúncia, a empreitada criminosa foi meticulosamente planejada durante os três meses que antecederam o atentado. Além das prisões, a operação vai realizar mais de 30 mandados de busca e apreensão nos endereços dos denunciados para apreender documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos.

No dia 14 de março do ano passado os assassinos saíram da Barra da Tijuca, próximo da moradia de Ronnie, e seguiram rumo ao local onde Marielle estaria em reunião. Lá eles ficaram de tocaia por duas horas e esperaram que a parlamentar saísse junto com o motorista Anderson Gomes e sua assessora. Durante o crime, Ronnie teria usado touca ninja e um manguito para esconder seu tom de pele para possíveis testemunhas. “80% das soluções de assassinatos no Brasil se solucionam com base na testemunha e, nesse caso, não há testemunha que possa fazer o reconhecimento com 100% de certeza”, explicou o delegado Giniton Lages, da Divisão de Homicídios.

Outro lado

De acordo com a Agência Brasil, a defesa de Ronnie e Elcio negaram as acusações. “O Elcio não estava nem nesse dia. Eu tenho certeza de que não tem foto dele no carro e muito menos gravação dele nesse dia lá. E tenho certeza de que a vítima que sobreviveu não vai reconhecer o meu cliente”, disse Luís Carlos Azenha, advogado do ex-policial militar.

O advogado de Lessa, Fernando Santana, disse que só conversou com seu cliente rapidamente depois da prisão e que ele nega a participação no crime. “Ele nega de forma veemente que tenha feito qualquer tipo de assassinato. Ainda vou ter acesso ao inquérito, não tive oportunidade de ter. Primeiro estava em segredo de justiça, agora que nos peticionamos, eu e minha equipe, pra poder ter ideia de como chegou à prisão do Ronnie Lessa”.

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