‘Milícias fazem com que crime, polícia e política se misturem’, diz Freixo

Deputado federal e amigo de Marielle Franco, Marcelo Freixo fala sobre a necessidade de transformar a dor da perda em memória e critica família Bolsonaro: ‘a vida inteira defenderam grupo de extermínio’

Em 1º de fevereiro, Marcelo Freixo leva placa de homenagem a Marielle no Congresso | Foto: reprodução Facebook

Logo pela manhã desta quinta-feira (14/3), o deputado federal Marcelo Freixo publicou uma foto de Marielle Franco segurando o seu rosto: “Saudade absurda! Fizemos política com alegria, com amor, com risos, com verdade. Fomos além da política. Nos permitimos um carinho e uma amizade que não tenho como esquecer. Nenhum de nós imaginou que isso pudesse acontecer com você, Mari. Isso não foi possível planejar. Essa violência não era compreendida por nós. Essa barbárie nunca imaginou no que você se transformaria”, diz parte da legenda.

Marielle Franco e Marcelo Freixo | Foto: Reprodução Facebook

Há exatamente um ano essa saudade dói nos que, como Freixo, conviveram com a vereadora. O que ficou foram as lembranças e a necessidade de manter o legado de Marielle, seguindo na construção da democracia que a vereadora tanto prezava em suas lutas pelas minorias em direitos. Na terça-feira (12/3), a Polícia Civil do RJ e o Ministério Público apresentaram denúncia contra dois ex-PMs – Elcio Vieira de Queiroz e Ronnie Lessa, que foram presos no mesmo dia – pelo homicídio de Marielle e do motorista Anderson Gomes. Ambos tiveram apontado envolvimento com o grupo de milicianos conhecido como “Escritório do Crime”. Freixo foi um dos primeiros a se manifestar e logo questionou: “a mando de quem?”. A resposta ainda é desconhecida, mas a Divisão de Homicídios e o MP garantem que as prisões fazem parte de uma primeira fase e que a investigação continua.

Desde o ano passado, quando as primeiras informações das investigações do caso Marielle vieram a público, o envolvimento da milícia aparecia. Para o deputado, a estrutura operacional da milícia é a mesma da máfia. “Transformam o domínio territorial em eleitoral, isso nenhum outro grupo criminoso faz. Eles têm relação de poder muito profundas. Eles agem como uma estrutura de máfia e isso é muito sério e é por isso que a milícia é um atentado, uma ameaça à democracia. Porque ela se relaciona com instrumentos de poder. A estruturas do crime, polícia e política não se separam mais”, afirmou.

Sobre o suposto envolvimento da família Bolsonaro com milicianos, Freixo afirma que é uma visão de mundo que sempre esteve presente na atuação política de todos eles. “Quando eu presidi a CPI da Milícias [no RJ], eles [Bolsonaro e seus filhos] defenderam a organização das milícias abertamente, ele defendeu grupo de extermínio. Eles sempre se posicionaram favoráveis à letalidade policial como solução de alguma coisa. Sempre tiveram uma postura muito pouco republicana, muito pouco comprometida com a democracia e com a segurança pública”, afirmou o parlamentar.

Flávio, um dos filhos do presidente, empregou mãe e esposa do ex-PM Adriano Magalhães Nogueira, apontado como miliciano, no gabinete dele na Alerj (Assembleia Legislativa do RJ) até novembro do ano passado. O PM reformado Ronnie Lessa, apontado como executor de Marielle, mora no mesmo condomínio de luxo na Barra da Tijuca onde Jair Bolsonaro tem uma casa e a filha do ex-PM teria namorado um dos filhos do presidente. A investigação do Caso Marielle disse, oficialmente, que, até o momento, essa informação é irrelevante para elucidação total dos fatos.

A caminho da missa em homenagem à vereadora Marielle Franco, Freixo conversou brevemente com a Ponte:

Ponte – Como tem sido esse primeiro ano sem a Marielle, o luto ainda é presente?

Marcelo Freixo – É muito presente e vai ser sempre na minha vida pelas relações pessoais que tive com a Mari, pelo caminho percorrido juntos, pelas histórias, isso nunca apaga. A dor é muito profunda. Marielle se transformou em algo grande e isso é importante, mas nada vai substituir o dia a dia da gente. A gente precisa saber o que fazer com essa dor, que é transformar em luta, em memória, em construção, em avanço, em vitória, em fortalecimento da democracia. Acho que o que a gente faz com essa dor continua sendo o grande desafio da gente.

Ponte – Sobre a proposta de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das milícias que você peticionou em Brasilia, será igual a do RJ?

Marcelo Freixo – Tem que ser um trabalho amplo. A proposta é da bancada [do Psol], o PT estava à frente desse tema também. Acho que tem que haver uma ampla mobilização do Congresso como um todo na direção de cobrar uma resposta. Eu acho que isso não pode partir de um deputado ou de uma única bancada. Acho que a resposta ao que aconteceu no Rio de Janeiro te que ser ampla, porque se trata de estar comprometido com a democracia com a republica para que a gente tenha uma resposta efetiva. Tem que ser o Congresso como um todo, coletiva por parte dos partidos comprometidos com a democracia.

Ponte – Como você analisa essa suspeita de envolvimento da família Bolsonaro com as milícias?

Marcelo Freixo – Eu tenho falado muito sobre isso. O presidente não é suspeito porque ele era vizinho [de Ronnie Lessa, apontado pela Polícia Civil e MP como o executor de Marielle]. Ele não é suspeito porque o filho namorou a filha [do Ronnie]. Ele é responsável, mais que suspeito, por tudo que ele fez nos últimos anos da vida publica dele. Quando eu presidi a CPI da Miliciais [no RJ], eles [Bolsonaro e seus filhos] defenderam a organização das milicias abertamente, ele defendeu grupo de extermínio. Eles sempre se posicionaram favoráveis a letalidade policial como solução de alguma coisa. Sempre tiveram uma postura muito pouco republicana, muito pouco comprometida com a democracia e com a segurança pública. É se relacionar de forma muito íntima com grupos de extermínio, empregando familiares em seu gabinete fazendo homenagens. Então a postura publica deles, de todos eles [Bolsonaro pai e filhos], esse pensamento, a ojeriza que eles têm aos direitos humanos, são responsáveis pelo estado caótico que a segurança pública do Rio de Janeiro chegou até hoje. Eles estão há muito tempo na vida pública do Rio de Janeiro e sempre operaram no imaginário de uma cultura da política da violência, da brutalidade. São contrários aos direitos humanos, a população das favelas… Eles tiveram uma postura horrorosa na morte da juíza Patricia Aciolli, eles tiveram uma postura horrorosa na morte da Marielle. Eles não têm nenhum compromisso público compatível com as funções que eles exercem.

Ponte – O Promotor Luiz Antonio Ayres acha muito complicado a realização de mais uma CPI e compara o nascimento e ampliação das milícias com mesmo processo vivido pelo crime organizado, como o CV (Comando Vermelho). Ele fala que esse processo está acontecendo de novo. Você concorda?

Marcelo Freixo – Eu presidi a CPI das milícias e acho que ela ajudou. Este é o grande documento que existe sobre estes grupos, o relatório de 2008. Até aquele momento, uma quantidade muito grande de autoridades do Rio chamavam as milícias de um mal menor, falaram que os lugares onde elas estavam eram locais melhores, mais seguros do RJ. Olhavam para as milícias como solução, e não foram poucas autoridades, não, e de vários órgãos. A CPI das milícias muda uma cultura da segurança, da opinião pública sobre as milícias. Sem dúvida alguma, sua estrutura é de máfia, transformam o domínio territorial em eleitoral, isso nenhum outro grupo criminoso faz. Eles têm relação de poder muito profundas. Eles agem como uma estrutura de máfia e isso é muito sério e é por isso que a milícia é um atentado, uma ameaça à democracia. Porque ela se relaciona com instrumentos de poder. A estruturas do crime, polícia e política não se separam mais.

Ponte – O Giniton Lages, delegado responsável por investigar a execução de Mariele e Anderson, vai fazer um intercâmbio na Itália e portanto vai abandonar a investigação do caso Marielle. O que você acha disso?

Marcelo Freixo – Eu acho que é natural essa mudança no comando das delegacias. Mudou o governo, sempre se muda a chefia, os cargos de confiança, porque as relações de confiança são outras. Eu acho que é natural esta mudança e acho positivo.

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