MC Nego Bala denuncia ter sido agredido e detido por PMs por correr na rua

Artista tentava chegar a agência bancária no centro de São Paulo nesta quarta (21) para abrir conta jurídica para receber cachês de shows; “desumanização da PM com as pessoas”, diz advogada

Imagens mostram ferimentos após soco na boca e algemas nos pulsos do MC Nego Bala | Foto: Arquivo pessoal

Correr até uma agência bancária prestes a fechar fez com que Marcelo Generoso, 23, mais conhecido como MC Nego Bala, fosse levado para a delegacia. O jovem negro denuncia que foi abordado e agredido por policiais militares na tarde desta quarta-feira (21/9), no centro da capital paulista.

De acordo com a advogada Gabriella Arima, que representa o rapaz, eram quase 16h quando Bala estava se dirigindo a uma agência da Caixa Econômica, na Avenida Duque de Caxias, mas como o local estava prestes a fechar, ele correu para entrar, mas não conseguiu e voltou.

Do lado de fora, estava uma viatura da PM. “Ele foi abordado com truculência pela polícia. Um dos policiais xingou ele de ‘filho da puta’ e, nessa, o Bala respondeu e levou um soco na boca”, declarou.

O cantor foi detido e levado ao pronto-socorro da Barra Funda, e depois conduzido ao 77° DP (Santa Cecília). “Os próprios policiais levaram ele no posto e só lá foram pedir o nome. Então, nem na abordagem pediram nome, RG, para mostrar como é a ação da PM, né? A desumanização da PM com as pessoas”, completou a advogada.

No momento em que essa reportagem estava sendo escrita, a alegação inicial dos PMs era de desacato e resistência à prisão. O boletim de ocorrência só foi finalizado na madrugada desta quinta-feira (22/9) em que o cantor aparece como suspeito dos crimes de desobediência e desacato registrado no 2º DP (Bom Retiro) — que está funcionando no prédio do 77º DP por conta de reforma. Contudo, o delegado Marcel O. Madruga de Souza solicitou, além de exame de corpo de delito no rapaz, as imagens das câmeras acopladas às fardas dos policiais e da agência bancária para averiguar “se houve ou não abuso por parte destes [PMs] no momento da abordagem”.

De acordo com Arima, a intenção é registrar boletim de ocorrência contra os policiais por lesão corporal, abuso de autoridade e racismo. “O Bala foi abordado a partir de um perfilamento racial. Então, claramente a PM abordou ele por ser uma pessoa negra, com o celular na mão e correndo na rua”, criticou a advogada.

O artista, que se apresentou no último domingo (18/9) no Coala Festival, em São Paulo e foi à agência para abrir um conta jurídica para conseguir receber cachês dos próximos shows, participa de atividades do projeto Teto, Trampo e Tratamento, coordenado pelo psiquiatra e palhaço Flávio Falcone, voltado para pessoas em situação de vulnerabilidade e dependentes químicos com show de talentos e apresentações de MCs na região conhecida pejorativamente como “Cracolândia”.

No início do mês, o psiquiatra e um grupo de mais 14 pessoas foram detidas sob a alegação de perturbação de sossego e por recusa de identificação, embora todos digam que só na delegacia a Polícia Civil pediu a identificação do grupo. A ação aconteceu no âmbito da Operação Caronte, que visa combate ao tráfico de drogas no centro da capital. A bicicleta de som usava pelo médico e que Bala costuma cantar suas composições foi e permanece apreendida no 77° DP.

No entanto, desde que o delegado Roberto Monteiro postou fotos sobre essa detenção na qual aponta que moradores estariam reclamando do som do equipamento, inclusive detalhando que Bala teria antecedentes de quando era adolescente e dizendo que ele atacou forças policiais, o artista não tem participado da atividade do médico-palhaço por receio.

O caso em questão foi mencionado parcialmente pelo titular da seccional do Centro, já que na ocasião o MC denunciou uma abordagem sem fundada suspeita contra um homem negro em situação de rua por guardas municipais na região central. Bala relatou na ocasião que um GCM passou a gravá-lo e ambos discutiram. O guarda registrou uma boletim de ocorrência por desacato e injúria racial.

Na segunda-feira (19/9), o Tribunal de Justiça de São Paulo acatou um pedido da Defensoria Pública para que o projeto Teto, Trampo e Tratamento atue em qualquer horário e via pública pois impedir uma ação que não é criminosa fere o direito à locomoção. A decisão se deu em caráter liminar (urgência). Falcone disse à reportagem que pretende retomar a atividade nesta quinta-feira (22/9).

A Ponte abordou os dois PMs envolvidos, que são do 7° Baep e utilizam câmeras nas fardas, mas o policial identificado como sargento Cruz disse que não falariam e que era para procurar a Secretaria da Segurança Pública.

PMs negam agressão e alegaram que cantor bateu a cabeça em vidro da agência

No boletim de ocorrência que a Ponte teve acesso, os policiais Cleiton Eduardo dos Santos Cruz e Fabio Wagner Santana disseram que estavam fazendo patrulhamento pela região da “Cracolândia”, por volta das 15h, “com vistas a furtos e roubos”, quando, no cruzamento das avenidas Duque de Caxias e São João “avistaram um indivíduo correndo pela via entre os carros parados no semáforo com um celular na mão e um volume aparente na sua cintura”, o que seria um “modus operandi comum utilizado por indivíduos que cometem roubo de celular na área”.

Em seguida, afirmam que fizeram retorno pela avenida Duque de Caxias, viram Bala dentro da agência e o chamaram para fora. Os policiais disseram que ele estava “extremamente exaltando, resistindo à abordagem, dizendo que a polícia não poderia lhe abordar” e que ele se recusou a colocar as mãos na cabeça e xingou a dupla de “foda-se, cuzão”. Os PMs alegam que o cantor foi contido “com necessidade do uso moderado da força para quebra da resistência” e que, por isso, ele ficou “ainda mais exaltado, se debatendo e batendo sua cabeça contra o vidro da agência bancária”.

Quando a dupla o revistou, não encontrou nada ilícito. Disseram, ainda, que Bala se recusou a se identificar, informando apenas o primeiro nome, de Marcelo, e que foi encaminhado ao 77º DP “extremamente agressivo batendo novamente sua própria cabeça no compartimento de preso”.

Os policiais disseram que solicitaram apoio e um sargento identificado como Marco Antonio o levou para o pronto-socorro da Barra Funda e que o MC se recusou a ser atendido. Acrescentaram que as ofensas que Bala fez à dupla foi gravada pelas câmeras nas fardas. A dupla informou que, além deles, a equipe da viatura era formada pelos soldados Garcez e Hercule. Não mencionam agressão ou xingamento contra Bala.

No boletim de ocorrência, o cantor afirma que se debateu no vidro da agência porque entrou “em surto emocional” e ficou nervoso porque passou a questionar o motivo de ter sido agredido com um soco e que não recusou as ordens dos policiais, tanto de por as mãos na cabeça quanto de se identificar. Também declarou que recusou ser atendido no pronto-socorro pois “não sabia o que estava acontecendo” e ligou para os advogados. Ele declarou que não foi nenhum dos dois policiais que estavam na delegacia, e aparecem como condutor e testemunha no documento, que o agrediu e sim um terceiro, já que a viatura dispunha de quatro policiais.

Ajdue a Ponte!

As abordagens contra o jovem negro, que é morador na região, são frequentes, o que fez a Defensoria Pública entrar com um pedido de habeas corpus preventivo para proibir abordagens ilegais tanto contra Bala quanto contra outro MC, também negro, Savio Muan, em julho deste ano, e que já foi negado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Os dois costumam participar do projeto Teto, Trampo e Tratamento.

Na petição, o Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos cita diversas abordagens, especialmente pela GCM, “que os humilham, ameaçam a agridem – tudo sob o argumento de que ‘parecem bandidos/traficantes'”. Os defensores também elencam uma série de violações de direitos humanos no território praticados pelas forças de segurança pública, sendo uma delas uma denúncia da Ponte em que um imigrante angolano foi agredido na cabeça por um guarda que atuava junto com a Polícia Civil, em maio deste ano, na primeira megaoperação no âmbito da Caronte que espalhou pessoas em situação de rua e com dependência química pela cidade.

Nascido e criado na região da Luz, no centro de São Paulo, Marcelo Abdinego Justino Generoso, o Nego Bala, é filho de uma mãe que enfrentou problemas com as drogas e de um pai que trabalhava como vendedor, e teve que superar diversas barreiras para lançar no início deste ano seu álbum de estreia Da Boca do Lixo aos 23 anos, além de se tornar produtor e roteirista. “Nessa minha passagem aqui, na Boca do Lixo, eu vi muita barbaridade, até mesmo de quem parecia que ia ajudar”, ele conta.

Na época em que se envolveu nos fluxos e esteve privado de sua liberdade, Nego estreitou sua relação com a música e começou a fazer rimas com a realidade que vivia. Em uma de suas passagens pela Fundação Casa, aos 12 anos, ele compôs “Sonho” quando estava de castigo e precisou repetir a letra até gravar no pensamento o que viria ser a principal canção de seu álbum, que virou parceria  com Elza Soares e ganhou um clipe com a joint venture AKQA\Coala.LAB e produzido pela Stink Films. 

O que diz a SSP

A Ponte procurou a Secretaria de Segurança Pública do governo Rodrigo Garcia (PSDB) para questionar os motivos da detenção de Bala e se a denúncia de agressão seria apurada. A pasta enviou a seguinte nota:

O caso foi registrado como desobediência e desacato pelo 2º Distrito Policial (Bom Retiro) e encaminhada ao Juizado Especial Criminal (Jecrim). Durante a ocorrência, o homem, de 24 anos, ficou ferido e foi encaminhado ao Pronto Socorro da Barra Funda, mas recusou o atendimento médico. Posteriormente, foi levado ao DP, onde foi ouvido e liberado. Foram requisitados exames ao Instituto Médico Legal (IML), bem como foram solicitadas as imagens do estabelecimento e das câmeras dos policiais militares para auxiliar no esclarecimento de todas as circunstâncias do fato.

Reportagem atualizada às 12h30, de 22/9/2022, para incluir informações do boletim de ocorrência e, às 15h40, para acrescentar a nota enviada pela SSP.

Errata: anteriormente, o texto informava que o cantor foi ao banco abrir uma conta corrente para receber o cachê o festival Coala. Na verdade, era para abrir uma conta jurídica para receber futuros cachês. A informação foi corrigida às 11h10, de 23/9/2022, e às 19h30, de 26/09/2022.

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