‘Meu filho era responsável e tranquilo’, diz mãe de vítima de chacina

Maria Cecília lembra com carinho do filho Matheus, um dos quatro mortos nos ataques do dia 7/1, que também deixaram outros dois feridos. Ouvidoria cobra participação do MP

Bryan e Matheus morreram na 1ª chacina de 2018 | Foto: Arquivo pessoal

A ajudante de cozinha e cuidadora de idosos Maria Cecília Livino da Silva estava em um dos seus dois trabalhos na madrugada do primeiro domingo (7/1) de 2018, quando a mãe dela chegou de táxi e deu a notícia: um de seus quatro filhos acabava de ser morto em uma chacina. Matheus da Silva Rocha, de 18 anos, foi assassinado a tiros na Vila Miriam, zona norte de São Paulo, junto de outros dois amigos e uma quarta vítima. Outros dois ficaram feridos.

“Foi um choque muito grande. Não esperava que ia acontecer isso com ele, até por ser um menino tranquilo, não respondia a ninguém. Se fosse abordado, o Matheus não ia responder. Não era explosivo, mal criado, não era assim. Meu filho era muito esforçado, responsável, não faltava ao serviço e não dava trabalho”, conta Dona Maria Cecília à Ponte.

Matheus trabalhava há cinco anos em um ferro velho em Pirituba, bairro da região ao lado da Vila Miriam. Por conta do emprego, abandonou o colégio antes de cursar o ensino médio. A mãe conta que o jovem recomeçaria os estudos. “Ele estava com vaga garantida para voltar a estudar esse ano, ia terminar o ensino médio em um supletivo. Meu filho estava satisfeito com a vida dele ali no ferro velho, ganhando o dinheiro dele. Tinha uma moto que comprou em leilão. Era feliz com o pouco que ia conquistando, ia devagar”, diz.

A avó do garoto foi avisada por uma amiga da família, cujo filho também morreu no ataque, por volta das 3h da manhã. Segundo relatos de testemunhas, Matheus estava na frente da casa de Bryan Dantas de Carvalho, 16, e junto deles Luís Vagner Gonçalves de Oliveira, de 18 anos, quando um Fiat Palio prata passou pela rua e homens encapuzados dispararam. A perícia do crime encontrou quatro cápsulas de calibre .40, de uso exclusivo do Estado.

Matheus ia cursar supletivo esse ano | Foto: Arquivo pessoal

Os três morreram na Rua Duarte Moreira e o quarto, Willian Tomas Oliveira Leite, foi encontrado na Avenida Brasilina Vieira Simões, a menos de um quilômetro do primeiro local. Outras duas pessoas acabaram baleadas na Rua Santo Antônio dos Coqueitos, distante 100 metros da Rua Duarte Moreira.

“Eles iriam para um baile funk, mas aquilo aconteceu em uma rua tranquila, na porta da casa de um pai de família. É uma rua super tranquila, casa humilde igual a minha”, afirma dona Maria Cecília. Ela suspeita que o roubo do carro de um policial, ocorrido no bairro na mesma semana, pode ter ligação com os ataques. “As pessoas aqui acham que é policial porque estavam encapuzados. Recebi informações de que ali roubaram na mesma semana o carro de um policial e encheu de gente na casa dele”, revela a mãe de Matheus.

Ouvidoria pede participação do MP

O fato de a perícia ter encontrado cápsulas de calibre .40 fez a Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo pedir a participação do Ministério Público (MP) nas investigações da chacina da Vila Miriam. Este calibre é de uso exclusivo da PM e funciona quase que como uma ‘assinatura’ em chacinas.

“O que nos deixa em alerta é o uso de balas .40, só polícia pode usar. Sabemos que no Paraguai dá para comprar armar e balas deste calibre. De qualquer forma, é necessário, imprescindível uma profunda investigação, porque essa situação da .40 nos obriga a cobrar que o Ministério Público participe da investigação. Quando é .40, temos que exigir isso do DHPP e colocar o MP nisso”, pondera o ouvidor das polícias, Júlio César Fernandes Neves. “Estamos oficializando esse pedido”, explica Neves.

Procurada, a assessoria da Secretaria da Segurança Pública, administrada pela empresa privada CDN Comunicação, informou, em nota, que o Departamento Estadual de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) segue em investigação, por meio de inquérito policial, na 3ª Delegacia de Homicídios Múltiplos. “Buscas estão em andamento para identificar e prender os autores. Detalhes da investigação não serão divulgadas para não atrapalhar o andamento do caso”, diz a nota.

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