‘Não tem outro nome que não seja chacina’, diz jornalista sobre mortes no Jacarezinho

Após operação policial com 28 mortos, entidades organizam protestos e cria do Jacarezinho e cofundador do LabJaca lamenta: “a favela está morrendo de coronavírus e essa dor e luto só aumentam com a política de extermínio do Estado”

Concentração de ato em repúdio às 25 mortes no G.R.E.S. Unidos do Jacarezinho, na zona norte do Rio | Foto: Reprodução/Joel Luiz Costa/Twitter

Eram seis horas da manhã desta quinta feira (6/5) quando o jornalista Bruno Sousa, cria da comunidade do Jacarezinho, acordou com diversas mensagens no celular e chamadas no noticiário televisivo sobre “caça contra traficantes”. Mas só foi à tarde, quando a operação mais letal do estado do Rio de Janeiro terminou, que Bruno teve a real dimensão do que havia ocorrido no local. “O que a gente encontrou foi uma cena de massacre: praticamente todos os becos tinham sangue”, lembra. “Tinha sangue na casa das pessoas onde houve execução, nos terraços, você via uma senhora idosa tendo que lavar a calçada com água e sabão porque um homem havia sido executado na porta dela, o quarto de uma menina de oito anos com sangue porque teve uma execução dentro de casa e a família na sala“, descreve. “Nunca tinha visto uma ação nessas proporções”, lamenta.

Moradores relataram invasões de casas e execuções praticadas por integrantes da Polícia Civil. As ações teriam ocorrido em seguida ao início da operação, quando o policial civil André Frias foi baleado na cabeça e não resistido aos ferimentos. À Ponte, o coordenador da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial da Baixada Fluminense Fransergio Goulart definiu a ação como “a barbárie das barbáries”. Nesta sexta-feira (7/5), durante enterro de Frias, o secretário da Polícia Civil Alan Turnowski informou que subiu número de mortos, totalizando 28, mas não justificou o porquê da diferença na contagem*.

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A esposa de Jonas do Carmo dos Santos, um dos mortos, disse que o marido tinha saído de casa para comprar pão quando foi baleado. “Me contaram que na hora que os policiais chegaram, o beco estava cheio e todo mundo saiu correndo. Um tinha sido baleado na cabeça e meu marido tomou um tiro na perna. Depois do tiro na perna, chegaram perto e terminaram de executar [o Jonas]. Foi uma execução, vieram para matar. Se depois do tiro tivessem prendido ele, levado para averiguação, seria melhor”, disse a mulher ao UOL. Ao G1, a esposa de Rômulo Oliveira, que também foi morto, disse que o marido estava emcondicional e já tinha se entregado e não oferecido resistência durante a abordagem, mas foi “executado a facadas”. Ele seria um dos denunciados pelo Ministério Público em relação à operação.

“Podem chamar de operação mais letal da história, operação despreparada, mas o que aconteceu ontem foi uma chacina. Não tem outro nome que não seja esse”, lamenta Bruno. “25 mortes é um número absurdo e as respostas do Estado foram uma piada, todo mundo tentando se eximir da culpa, e precisam ser responsabilizados”.

O jornalista é cofundador do LabJaca, laboratório de dados e narrativas na favela do Jacarezinho. A iniciativa começou durante a pandemia, no ano passado, a fim de “dar visibilidade às potências da favela e fazer uma contranarrativa” por meio de produção de dados no território para reivindicar políticas públicas e contra a criminalização das vidas na favela. Durante a ação policial, o perfil do laboratório passou a colher denúncias de moradores e postar nas redes sociais vídeos e relatos do que estava ocorrendo.

“Eu estava conversando com amigos que chegaram até a comemorar que ia fazer um ano que não acontecia operação policial no Jacarezinho, tinha incursões com policiais, com troca de tiro, mas não tinha operação com caveirão, helicóptero, e deu para perceber que ontem foi um choque que ninguém tinha experimentado”, afirma Bruno.

Um dos textos publicados pelo LabJaca, reproduzido em outros veículos, criticava que, além do sangue e dos corpos, a operação deixou o medo para os próximos dias, destacando dados de uma pesquisa publicada em 2018, com base em dados de 2010 a 2015 do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, que apontava que após a morte de um policial em serviço a probabilidade de uma pessoa perder a vida em meio a uma ação policial no mesmo local aumenta em 1150% no mesmo dia; em 350% no dia seguinte; e em 125% entre cinco e sete dias mais tarde.

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“Isso mostra que a Polícia Civil, que deveria ser uma polícia de inteligência, de estratégia, acabou sendo uma polícia que só promoveu matança, só promoveu chacina, só não com um braço armado maior do que a da PM, que vinha fazendo [mortes] em todos os territórios”, critica Bruno.

De acordo com a Polícia Civil, a Operação Exceptis tinha o objetivo de cumprir 21 mandados de prisão de traficantes que estariam aliciando crianças e adolescentes na comunidade. Desses mandados, três pessoas foram presas, três foram mortas, e a corporação não explicou qual a relação das outras 21 que foram mortas durante a operação. Simplesmente disseram que eram “criminosos” e que a ação foi planejada e não houve execução, em coletiva de imprensa, no final da tarde. O discurso foi reverberado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, que declarou nesta sexta-feira (7/5), sem apresentar provas, que, com exceção da morte do policial civil, era “tudo bandido”. O El País mostrou que a maioria das vítimas não tinha qualquer vínculo com a investigação que motivou a operação. A OAB-RJ havia identificado pelo menos 16 pessoas que foram mortas na operação.

Entidades de direitos humanos seguiram se manifestando contra a ação do governo fluminense durante esta sexta-feira. Um nota de repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ), diz que, ao desobedecer o STF, o comando da Segurança Pública do Rio de Janeiro causou uma “tragédia sem igual, sendo imprescindível a apuração, identificação e responsabilização daqueles que naturalizaram essa barbaridade, tudo em conformidade com as normas que salvaguardam os direitos e as garantias constitucionais”.

Uma nova nota da Humans Rights Watch critica a “impunidade para os abusos policiais”, lembrando que, em março “o novo Procurador-Geral de Justiça do Rio dissolveu o grupo de promotores especializados em investigar abusos policiais, o GAESP”. Já o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos pediu que o Ministério Público fluminense realize uma investigação completa, imparcial e independente do massacre. Em nota conjunta, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a Comissão Brasileira Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e mais 85 entidades religiosas informou ter denunciado o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. “Não é possível continuar com o racismo institucional que assassina pessoas negras”, diz o texto, “não é possível continuar com o racismo institucional que assassina pessoas negras”.

Desde a tarde de quinta-feira, moradores e entidades vêm organizando protestos no Rio em repúdio à ação policial. Um marcado para esta sexta-feira, tem como ponto a Avenida Dom Helder Câmara, na zona norte da capital fluminense. “O sentimento que faz a gente ocupar as ruas é o mesmo de quando aconteceu a morte do João Pedro, em plena pandemia e a gente teve que pedir para que não matassem a gente dentro de casa”, desabafa Bruno sobre o assassinato do adolescente João Pedro, de 14 anos, que foi baleado dentro de casa no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), após uma operação conjunta da Polícia Federal e da Polícia Civil. O caso está prestes a completar um ano e a investigação está parada.

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“Eu quero que as instituições de segurança pública vejam que estamos vivendo a maior crise sanitária que a nossa geração já enfrentou, é um momento delicado, muita gente da favela está morrendo de coronavírus, e que respeitem esse momento de dor e de luto que só aumenta com essa política de extermínio de segurança pública do Estado. A gente quer paz”, lamenta Bruno.

*A reportagem foi atualizada às 19h28, de 7/5/2021, após informação de aumento no número de mortos na operação policial

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A reportagem foi atualizada às 19h28, de 7/5/2021, após informação de aumento no número de mortos na operação policial

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