Como foi o massacre em Paraisópolis: o que se sabe até agora

12/12/19 por Arthur Stabile e Maria Teresa Cruz

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O que aconteceu entre a saída dos jovens de suas casas e a ação policial que deixou 9 mortos em um baile funk na segunda maior favela de São Paulo

Nomes dos nove mortos grafitados na viela em que sete morreram | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Na madrugada do dia 1º de dezembro de 2019, nove pessoas, de 14 a 23 anos, morreram durante uma ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo no baile funk da DZ7, realizado na favela de Paraisópolis, que fica na zona sul da cidade de São Paulo. Mas o que aconteceu, de fato, entre o final da noite de sábado (30/11), quando os jovens se deslocaram de diversas regiões da capital paulista e Grande São Paulo para curtir o baile, e a manhã do domingo (1/12), depois do massacre?

Na versão dos PMs, tudo começou com uma suposta perseguição a uma moto com dois suspeitos que teriam atirado nos agentes e tentando se esconder no fluxo. Esse teria sido o motivo para atuarem na dispersão do baile funk. Mais de uma semana após as mortes, a PM não apresentou provas que sustentem essa versão alegando sigilo das investigações. Testemunhas negam a presença de uma moto na aglomeração e apontam para uma ação truculenta dos policiais, registrada em vídeos. Além disso, sobram dúvidas sobre o horário e o local exato das mortes, e como elas, de fato, aconteceram.

Confira o levantamento dos fatos:

19h (30/11) – Viaturas da PM começaram a chegar e se aproximar de algumas entradas da favela de Paraisópolis para fazer blitz. Segundo moradores ouvidos pela Ponte, o movimento, até aquele momento, não aparentava nada de anormal, já que os policiais sempre ficam nesses pontos da favela em dia de baile funk para tentar, de alguma forma, monitorar a entrada e controlar os acessos. De acordo com o relato, os policiais fazem pequenas ações de dispersão, os frequentadores desaparecem, quando a PM sai, tudo volta; esse fluxo de “gato e rato”, como disse um morador, permanece ao longo de toda a madrugada.

21h (30/11) – Os amigos Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, e Gabriel Rogério de Moares, 20, deixam a cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, e viajam até Paraisópolis. A viagem dura cerca de três horas entre a linha 12 – Coral, dos trens, e linha 4 – Amarela, do metrô, e um ônibus. Na DZ7, comemorariam o aniversário de Bruno, mesmo Gabriel não sendo muito fã de funk.

As nove vítimas do massacre em Paraisópolis | Foto: Facebook/Montagem

21h30 (30/11) – Horário aproximado em que Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16 anos, pega o metro da Linha 3 – Vermelha na Vila Matilde, zona leste de São Paulo, para colar no baile. Também por volta desse horário, Eduardo Silva, 21 anos, pai de um filho de dois anos, se arruma e ruma de Carapicuíba, cidade na Grande São Paulo, para a segunda maior favela de São Paulo.

22h (30/11) – O estudante Denys Henrique Quirino, 16 anos, terceiro de quatro filhos, que pretendia se alistar no Exército em 2020, pega um ônibus em Pirituba, zona oeste da cidade de São Paulo, onde sua família, originária da Brasilândia, morava havia duas semanas. Ele não avisou aos pais que iria ao baile da DZ7.

22h20 (30/11) – Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, sai de casa para comer uma pizza, como informou aos familiares. Na verdade, ele deixava o Jaraguá, bairro na zona norte da cidade de São Paulo, junto de amigos para ir no baile de Paraisópolis.

22h30 (30/11) – Vendedor de produtos de limpeza, Mateus dos Santos Costa, 23 anos, deixa Carapicuíba para viajar até Paraisópolis. No mesmo horário, o estudante Gustavo Cruz Xavier, 14 anos, se encontra com amigos no Capão Redondo, na zona sul da capital paulista. Ele não avisou os pais que ia à DZ7.

23h (30/11) – Sai do Jardim Primavera, na região do Grajaú, a estudante Luara Victória de Oliveira, 18 anos, em direção à DZ7. A garota perdeu pai e mãe e, há cinco anos, morava com os avós. Ela sempre informava que ia aos bailes, ainda que a família pedisse que ela diminuísse as idas e focasse nos estudos e na busca por um emprego.

0h (1º/12) – Hora em que o Baile da DZ7 tem início. Frequentadores montam caixas de som, têm em mãos seus drinks e ouvem a batida do funk para se divertir.

Primeira edição do baile da DZ7, na rua Ernest Renan, após o massacre ocorrido na comunidade | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

1h30 (1º/12) – Relato de testemunhas apontam para uma primeira ação policial, que teria dispersado parcialmente o fluxo do baile com o uso de bombas.

2h (1º/12) – Apesar de a PM intervir, a festa é retomada na rua Ernest Renan, com música alta e os passinhos. Donos de bares que, sempre que a polícia chega, fecham as portas e tentam colocar o máximo de pessoas para dentro, também tomam coragem de retomar as atividades com vendas de bebidas, porções, sanduíches.

2h30 (1º/12) – Moradores relatam que mais duas ações pequenas aconteceram neste horário, com movimentação de viaturas e motos da polícia em travessas da rua Ernest Renan, uma das vias que corta a comunidade e onde acontece a principal concentração do baile.

3h40 (1º/12) – De acordo com a versão da PM, registrada em boletim de ocorrência, é o início da ação que culminaria nas mortes. Segundo os policiais, uma moto fura bloqueio feito pelos policiais na avenida Hebe Camargo, entra em Paraisópolis e atira em sua direção. Ao entrarem, começam a jogar bombas no grupo de aproximadamente 5 mil pessoas que estavam no baile naquela noite, segundo os PMs, após frequentadores do baile investirem contra ele jogando garrafas e pedras. Ali começa o tumulto, ocasionando um pisoteamento e nove pessoas morreram. “Uma pessoa acabou tropeçando e caiu, outras pessoas tropeçaram nessa pessoa e caíram em uma viela e nesse momento outras pessoas estavam tentando sair e acabaram pisoteando”, declararia algumas horas depois do massacre o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera.

3h40 (1º/12) – Um grupo de frequentadores do baile que não moram em Paraisópolis, sem conhecer exatamente as rotas de fuga da favela, entra na Viela Três Corações, travessa da Rua Ernest Renan, que tinha tido a saída bloqueada por viaturas. De acordo com testemunhas foi neste local que as vítimas ficaram encurraladas.

3h49 (1º/12) – Imagens de câmera de segurança registram a chegada de uma viatura da PM em alta velocidade. Algumas pessoas que estavam no meio da rua saem correndo para se proteger. Alguns segundos depois, um grupo corre na direção contrário e é possível ver, pelas imagens, pequenas explosões que parecem ser disparos. Segundo testemunhas, os policiais “chegaram de uma vez só” e atuaram para encerrar o baile.

3h55 (1º/12) – Jovens são feridos. Informação do atestado de óbito indica que pelo menos dois deles morreram por asfixia. Especialistas ouvidos pela Ponte afirmam que gás pode ter contribuído para as mortes pela associação de traumas físicos com substâncias químicas.

Ponto da Viela Três Corações onde, de acordo com testemunhas, os policiais teriam bloqueado e impedido a passagem de pessoas | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

4h (1º/12) – Imagens de um trecho da Rua Ernest Renan, onde às 3h49 uma viatura chegou em alta velocidade, mostram uma viatura dando marcha à ré, parando próximo da pintura “escola” no chão, e lançando uma bomba na rua vazia. Um rapaz sozinho caminha pela calçada e leva um susto. Moradores descrevem que os próprios policiais resgataram as vítimas do massacre. Testemunhas apontam que parte delas já havia morrido, o que interfere diretamente na perícia da morte.

Viela Três Corações, onde jovens foram encurralados e morreram | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

4h09 (1º/12) – Mesmo com a rua vazia, imagens de câmeras de segurança mostram um PM lançando uma bomba. Na sequência, uma mulher aparece correndo, procurando se proteger. As duas viaturas que tinham ficado pelo menos 10 minutos estacionadas, saem em comboio pela Rua Ernest Renan.

Esse é um ponto de escape saindo da Rua Ernest Renan sentido Hebe Camargo mas o bloqueio dos policiais estava antes disso e as pessoas não conseguiram chegar neste ponto | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

4h18 (1º/12) – Jovem que teria sido agredida por policiais com uma garrafada no rosto liga para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Ela levou 50 pontos no rosto, ferimento decorrente da agressão.

4h29 (1º/12) – Informado de que havia muitas vítimas, Samu classifica situação em Paraisópolis como “evento de alta prioridade”, segundo o UOL.

4h46 (1º/12) – PM cancela pedido ao Samu, informando que já havia socorrido todos, segundo o Jornal Nacional. Socorro inadequado pode ter prejudicado auxílio e facilitado a morte dos jovens.

5h (1º/12) – Nove vítimas chegam ao Pronto Socorro do Campo Limpo. Seis vítimas com ferimentos foram atendidas no AMA Paraisópolis, uma delas teria sido alvejada por disparo de arma de fogo na perna, segundo relato de um dos policiais envolvidos na ocorrência em registro no 89º DP (Jardim Taboão).

7h39 (1º/12) – Um comunicado de ocorrência no Cepol (Centro de Comunicações e Operações da Polícia Civil), assinado pelo delegado Gilberto Geraldi, informa o que aconteceu em Paraisópolis, fala em perseguição a suspeitos em uma moto que teria entrado no fluxo e que isso gerou um tumulto, contudo não faz qualquer menção de que frequentadores teriam agredido os policiais militares.

Vista geral da favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo| Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

10h21 (1º/12) – Momento em que o delegado Emiliano da Silva Chaves Neto, do 89º DP (Jardim Taboão) registra o boletim de ocorrência apenas com a versão dos policiais. Segundo o registro, PMs estavam em patrulhamento na Av. Hebe Camargo na esquina com a Rudolf Lutze, quando uma moto com dois ocupantes em atitude suspeita negou parar na blitz e ainda teria atirado contra a tropa, que iniciou a perseguição. Os PMs afirmam que pediram reforço e seguiram no encalço dos suspeitos que entraram no fluxo e usaram os frequentadores como “escudo humano”. Emiliano isenta policiais de responsabilidade ao considerar que não há indícios de que a ação promovida pela PM tenha ligação com as mortes.

12h38 (1°/12) – O governador João Doria escreve mensagem em sua conta no Twitter lamentando as mortes e determinando “apuração rigorosa dos fatos”.

Doria daria pelo menos seis declarações diferentes durante a semana: depois de pedir investigação, mudou de ideia e defendeu os policiais envolvidos, falou em legitimidade da ação e elogiou a política de segurança do governo; na sequência, afirmou que o governo não tinha compromisso com o erro; por fim, afastou 38 PMs que participaram da ação – seis na semana passada, e os outros 32 nesta semana após reunião com familiares das vítimas.

Dúvidas sobre o massacre de Paraisópolis

A que horas a polícia começou a atacar o baile da DZ7?
Segundo moradores, a PM atuou pelo menos uma vez, à 1h30, para dispersar o baile antes da operação que acabou com nove pessoas mortas. Já a versão da PM é que só atuou quando uma moto com suspeitos invadiu o baile atirando em sua direção, o que ocorreu às 3h40.

O que motivou a repressão ao baile?
Desde o primeiro momento, as versões se conflitam. A versão de testemunhas é que a tropa agiu exclusivamente para acabar com a festa dos jovens, enquanto a PM afirma que uma moto furou o bloqueio e, ao entrar no fluxo os dois ocupantes passaram a atirar, forçando a intervenção policial. Até o momento, a PM não apresentou provas disso.

Por que a PM cancelou o pedido ao Samu e fez ela própria o socorro?
Um soldado da polícia cancelou o pedido de socorro alegando ter atendido a ocorrência em Paraisópolis, conforme áudio divulgado pela TV Globo – ainda que não exista um posicionamento oficial sobre esse cancelamento. Testemunhas relatam que os policiais ameaçavam quem tentasse prestar os primeiros socorros aos feridos. Há relatos, que serão comprovados através dos laudos técnicos, de que as vítimas já estavam mortas no local do pisoteamento.

Do que os nove jovens morreram?
Alguns atestados de óbito indicam “asfixia mecânica”, quando a respiração é interrompida, como principal causa das mortes. Há um caso de morte por trauma na coluna e outros com causa não determinada pela espera de exames mais detalhados.

Em que momento as vítimas de Paraisópolis morreram?
Essa é a principal dúvida em relação ao massacre: não se sabe nem o horário nem o local específico em que as nove pessoas morreram. São três as possibilidades: de eles terem morrido ainda no local da ação policial, de terem sido resgatados pelos PMs e falecido a caminho do hospital durante o socorro ou não resistiram aos ferimentos já durante o atendimento médico.

A Ponte questionou a secretaria Municipal de Saúde de São Paulo sobre o socorro prestado as nove vítimas no Hospital do Campo Limpo, quais seus quadros clínicos ao entrarem na unidade e os procedimentos adotados no resgate, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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