O recomeço do sonho do futebol para jovens da várzea presos em SP

09/09/19 por Arthur Stabile

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Arlailson e Y. ficaram 29 dias na Fundação Casa por roubo que afirmam não ter cometido; objetivo agora é virarem zagueiro e atacante profissionais

Y. segura as chuteiras sujas de terra depois de uma partida no campinho da comunidade | Foto: Alan Lima/Ponte Jornalismo

Parecia que os sinais tentavam alertar Arlailson da Silva no dia 16 de julho. Primeiro foi a mãe, dona Iracema, que não queria o único filho saindo durante a noite para o Jaguaré, na zona oeste de São Paulo. Eram 21h quando ele, hoje com 18 anos, e Y., 16 anos, saíram de casa na Favela São Remo, ao lado da Cidade Universitária, para ver a namorada do amigo. Depois, outro sinal: enquanto esperavam a garota e uma amiga dela, Y. reparou que só eles estavam na rua e brincou que poderiam tomar um enquadro.

Minutos depois, uma viatura passou e anunciou a abordagem. O policial militar tirou uma foto, enviou para a vítima, também PM, que por sua vez afirmou que eram eles os autores do roubo de seu carro.

“Ele nos algemou, colocou no camburão e disse que tinha tido um roubo, que a vítima passou a característica das roupas e batia com a nossa. Tirou uma foto nossa e mandou para ela. ‘Se reconhecer vocês dois, vão ter que ir presos. Nesse momento a palavra de vítima vale mais, é palavra de fé. Se não for, liberamos vocês dois’, disse assim”, relembra Arlailson, em conversa com a Ponte, na última sexta-feira (6/9), em sua casa. O espaço de três cômodos, contando o banheiro, fica no segundo andar, logo em cima de onde mora uma prima sua. O espaço pequeno, mas grande de afeto, é para onde ele passou 29 dias, tempo em que ficou internado na Fundação Casa, querendo voltar. A comunidade se revoltou com a prisão dos dois.

Arlailson posa com sua camisa do time de várzea em uma viela perto de sua casa | Foto: Alan Lima/Ponte Jornalismo

Ele lembra bem da noite de 16 de julho. Quando o policial voltou, disse que tinha “moiado” para eles. Dali por diante, eram vistos como criminosos. “Falei que não, pelo amor de Deus, que tenho meu pai para cuidar, sou filho único, não preciso de nada disso, que poderia ir em casa e não tinha nada de envolvimento com crime. E ele mandava calar a boca, xingou de tudo quando é nome”, lembra o jovem, que cuida do pai, Arlindo, que sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e perdeu parte dos movimentos do lado direito do corpo.

As tentativas de estabelecer um diálogo com os policiais foram em vão. Em troca, Arlailson e Y. receberam ameaças. Viaturas da Rota chegaram quando confirmado o reconhecimento pela vítima. “Chegaram oprimindo, dizendo que devíamos estar no inferno, que ia nos matar se não entregássemos. Ia falar o que?”, conta.

Os dois ficaram 29 dias internados na Fundação Casa mesmo com as contradições do caso: o reconhecimento irregular e a ausência de evidência que ligasse os meninos ao crime. Câmeras de segurança ajudaram a identificar que eles estavam em outro local e não roubaram ninguém. Naquele dia 15 de agosto, voltaram a contar a história para o juiz e dizem ter visto quando um dos policiais disse que Y. estava de blusa azul naquela noite, enquanto a cor da vestimenta era vermelha. “Eu usava uma blusa cinza, disse que era preta”, lembra Arlailson. O magistrado determinou a soltura dos dois para que respondam o processo em liberdade e ainda disse para suas mães: “parabéns pelos filhos que têm”.

Faz 22 dias que os amigos voltaram para a rotina. Desde 15 de agosto, quando receberam a liberdade provisória, comem e dormem do lado de quem sofreu nesse quase um mês sem vê-los. Ainda falta um pedaço para estarem totalmente livres. No próximo dia 12, haverá audiência do caso, já que, embora livres, ambos ainda não foram julgados.

Os garotos ainda sentem a vida retornando ao que era. Jogadores de futebol da várzea de São Paulo, Arlailson e Y. estão no processo de readquirir a mesma aptidão física de antes, de recolocar em prática o sonho que nunca deixaram de lado: a chance de virar atleta profissional. Nem mesmo os dias em que estiveram atrás das grades desanimaram os dois.

Cada um atua em uma ponta do campo: Arlailson é zagueiro, prefere a seriedade que a camisa de número 4 leva no futebol; enquanto Y. é atacante atrevido, daqueles que penteia a bola com o pé, provoca os defensores rivais e pede para baterem mais forte quando acertam uma pancada. É como uma provação que encaram o fato de terem ficado isolados dos familiares e distante daqueles que tanto amam. Eles afirmam que o episódio trouxe mais fé para seguirem acreditando e para valorizarem mais toda e qualquer pequena conquista.

Arlailson quer ser zagueiro profissional | Foto: Alan Lima/Ponte Jornalismo

Maria Ivone relembra praticamente cada minuto da noite em que Y. retornou para casa. Ela conta à Ponte que tem o costume de ir até o quarto e conferir se os três filhos estão bem. Naquele 15 de agosto, fez isso com o coração cheio de alegria. “Por mais que estivesse dois em casa, estava falando um. Para uma mãe isso é inaceitável. Nós somos nordestinos, do Piauí, e fui criada assim. Minha família tem a mania de chamar os filhos e conferir se já estão em casa”, conta. “Foi muito prazeroso. Eu tinha certeza que estavam os três no local deles, na caminha deles, no colchãozinho deles, debaixo dos seus cobertores”, relembra, com os olhos marejados e um riso incontrolável no rosto.

As lágrimas que um dia foram de angústia trocaram de lugar por gotículas de felicidade com coisas pequenas, como ver Y. sentado em sua cadeira preferida na cozinha da família, localizada no começo de uma viela da favela São Remo. Ali, ele conversou com a Ponte. Deixou claro que a fé na vitória tem que ser inabalável, como canta O Rappa. Tanto que já entrou em campo e fez o que sabe de melhor: gol. “Eu pude voltar em um nível alto que eu não esperava. Cheguei a marcar dois gols contra o Ajax, jogo pelo Catumbi, no sábado (31/8). Pude ajudar o time a ganhar o amistoso para comemorar minha volta. Ia fazer o terceiro, mas quis ajudar o companheiro. No final das contas, ele errou”, descreve Y., com um discurso quase igual ao de um jogador profissional na televisão após uma vitória. Conquistar o objetivo, ajudar o companheiro, jogar em alto nível… São as palavras refletindo o objetivo a longo prazo.

Abraço de mãe: ‘Por mais que estivesse dois em casa, estava falando um. Para uma mãe isso é inaceitável’, diz Maria Ivone, mãe de Y. | Foto: Alan Lima/Ponte Jornalismo

Pensar no futuro é algo que a dupla sempre fez, mas agora com mais gana. Para eles, os momentos difíceis na Fundação Casa e eventuais ofensas na rua servem de combustível para seguir na caminhada pelo certo. “Tem muitos funcionários que gostam de oprimir você, quer te desmoronar e desmoronar a sua família, mas tem outros que estão para ajudar. O negócio lá dentro… Tenho nem palavras, é horrível”, lembra Y., que conta ter sido chamado de “Danoninho” pela torcida do Ajax durante o jogo. “A palavra dói mais do que um tapa. Ouvi da torcida adversária ‘Não deixa o sabonete cair’, ‘Você estava tomando danoninho’. Chamam assim porque na Febem [antigo nome do sistema socioeducativo de São Paulo] você é tratado de uma forma diferente [do que em um presídio]”, explica. A expressão é uma forma de dizer que o adolescente é “peixe pequeno”, não tem o “respeito do crime”. “Mas isso não vem me abalar, não. Aconteceu comigo, pode acontecer com qualquer um e não desejo para ninguém”, diz o jovem.

Na sexta-feira (6/9), Dona Ivone deu a notícia de que conseguiu uma oportunidade de emprego para os dois. “Um rapaz tem uma ONG aqui perto, além de uma empresa de vidro. E chamou os dois para ir lá. Eles querem pessoas para trabalhar nessa ONG, com certeza é para auxiliar de almoxarifado… Penso comigo que tudo que é trabalho é favorável”, diz a mãe, feliz com a conquista do garoto. No entanto, Y. e Arlailson têm o futebol como objetivo central: é com uma camisa personalizada em um time profissional que se imaginam no futuro.

Arlailson na sala de sua casa; acima do sofá, o escudo do time do coração, o Santos | Foto: Alan Lima/Ponte Jornalismo

Arlailson prevê defender o alvinegro praiano. “Pela minha fé, me vejo sendo zagueiro do Santos com a camisa 4. Gosto de jogar com esse número. E ajudando minha mãe, dando condição boa de vida para ela. Tenho 18 anos, isso não vai abalar minha carreira, meu sonho. Se quero, vou atrás. Grafite [ex-jogador do São Paulo e atualmente comentarista do SporTV] começou com 21 anos. Vou até a última peneira para fazer onde quer que seja”, assim define Arlailson.

A projeção de Y. não é muito diferente. “Pretendo estar em algum clube, com a forma física melhor do que a de agora, jogando melhor. Pretendo que Deus me dê condições de dar uma casa melhor… Não que aqui é ruim, mas queria um lugar melhor. Pretendo estar em paz comigo mesmo e com minha família. Mostrar que na favela não só tem o que falam de ruim, tem muita gente boa”, diz.

E em quem eles se espelham? “Me espelho no Van Dijk [zagueiro holandês], do Liverpool, atualmente. Mas prefiro o Sérgio Ramos [do Real Madrid, da Espanha]. Para ele, na zaga, não tem para ninguém, mas caiu de produção. Sabe em quem me inspiro? No Varane [francês, também do Real Madrid], que ganhou a Copa. Pelo amor de Deus, joga muito”, conta o zagueiro da São Remo Arlailson.

Já o atacante Y. prefere exemplos mais próximos, vindos do time que ama. “O Clayson, do Corinthians. A jogada que ele faz é igual a que eu faço. Ele é um jogador com pé direito e joga na esquerda. Tem o Matheus Vital, que vai para dentro. Sou corintiano”, admite o jovem ponta esquerda.

*Nota – Embora manuais como o Andi recomendem o uso do termo “apreensão” de adolescentes por considerá-lo mais alinhado ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Ponte optou por usar o termo “prisão” por considerar que reflete com mais precisão a realidade dos adolescentes submetidos a medidas socioeducativas no Brasil

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