Os 50 anos do AI-5: a memória como resistência

13/12/18 por Arthur Stabile

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Puxados pelo Cordão da Mentira, grupos de teatro, do povo negro, parentes de vítimas da violência do Estado e sobreviventes da ditadura alertam sobre riscos vividos hoje no Brasil

Imagens de figuras importantes na resistência são levadas pelo Cordão | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Memória. Resistência. Liberdade. As palavras se repetiam nos discursos, nas apresentações teatrais, musicais e intervenções poéticas. Os formatos divergiam, enquanto o recado era claro: passados exatos 50 anos do AI-5 (Ato Institucional nº 5) da ditadura militar, a luta por democracia segue viva até hoje.

Puxado pelo Cordão da Mentira, bloco carnavalesco criado para “denunciar a verdade sobre a mentira do nosso passado que não passa”, o ato contou com as Mães de Maio, o MNU (Movimento Negro Unificado), com sobreviventes da tortura ditatorial, artistas e suas performances. A data é especificamente a mesma que o AI-5 foi instituído em 1968: 13 de dezembro. O local, o Tusp (Teatro da Usp), o mesmo em que a resistência ocorreu meio século atrás.

Naquele ato, o governo do presidente militar Artur da Costa e Silva determinou a perda dos mandatos dos políticos contrários ao regime ditatorial, decretou censura prévia à imprensa, interviu em estados e municípios, colocando apoiadores dos militares em seus comandos e institucionalizou a tortura como política de Estado. A partir dali, era possível que o Brasil perseguisse, prendesse e matasse as pessoas baseado no AI-5. Ele dava todos os poderes aos militares e nenhum às pessoas, apenas a mordaça e, quem tivesse coragem, a possibilidade de resistir e aguentar as consequências.

Mais do que lembrar o passado, forma encarada pelos presentes como essencial para entender o país que por um lado nos acolhe e por outro persegue nos dias em que vivemos, a intenção era justamente alertar. O recado é de que estamos vivendo um período de perseguições. Mas, diferentemente da ditadura, de forma velada e com potencial para crescer.

Sobrevivente da ditadura, José Luís Del Roio se mostrou preocupado com a juventude | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

“Vejo uma sombra do AI-5 em muitas coisas da vida. O Ato foi criado sem um tempo para terminar e, para mim, não terminou de fato até hoje. A disseminação da violência começou lá e não acabou, a desconfiança de que você é culpado antes de provar o contrário, também”, analisa Amelinha Teles, torturada pelo coronel Brilhante Ustra no regime militar.

Para Amelinha, este fantasma segue vivo. E pior: pode atacar a qualquer momento. “Por isso é hora de falar, mostrar o que aconteceu naquele período. A arte e a música nos ajudaram muito naquele período, pode ajudar agora também”, completa.

Passados 50 anos, as tecnologias se desenvolveram, aproximaram as informações das pessoas, mas fizeram o caminho inverso com as relações pessoais e notícias reais. É como avalia José Luiz Del Roio, outra vítima da ditadura.

Amelinha Teles é sobrevivente da tortura do coronel Brilhante Ustra e acompanhou o ato | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

“É um período perigoso. As pessoas não se olham nos olhos, é tudo neste tic-tic do celular ou computador. Assim se tira a humanidade nas relações. É em encontros como este que, olhando em cada olho, a gente dialoga, conversa e faz o alerta: é preciso debater senão seremos 200 milhões de pessoas avulsas, não um país, uma nação”, conta.

Segundo Del Roio, existe de fato o risco de um período com perseguições que relembra o vivido em 1968, porém, em outro formato. “O passado nunca se repete igual. Tenho uma preocupação gigantesca, principalmente com a juventude. Nós misturamos hoje um avanço tecnológico incrível com retrocesso nas ideias que remonta aos conceitos medievais”, explica.

Debora, das Mães de Maio, ressaltou a atual violência do Estado contra a juventude negra e periférica | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A violência, cruel com todos na ditadura, se modificou para uma perseguição e genocídio da juventude negra e da periferia. Seja pelas Mães de Maio ou pelo MNU, a letalidade policial também esteve em pauta. “É tempo de revolução, estamos aqui para isso”, definiu Debora Maria da Silva, fundadora das mães que tiveram seus filhos assassinados por agentes do Estado. “A barra não vai ser fácil. Estamos próximos, mas precisamos enfrentar e evitar a barbárie. Sabemos que o extermínio da juventude negra é um projeto de Estado”, sentenciou Milton Barbosa, do MNU.

Integrante do Cordão, a cantora e produtora artística Elaine Guimarães explica que o ato de 50 anos do AI-5 visa justamente relembrar as perseguições do passado, mas também o poder de reação. “Deixamos de sair no carnaval, como normalmente, para sairmos no dia dos 50 anos do AI-5 e mostrar que podemos nos unir, resistir. Um novo AI-5 já está aí, de outra forma. São novas formas de nos golpear”, diz.

Encontro aconteceu no Tusp, no centro de São Paulo | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

 

Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

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