Pela quarta vez, delegado do caso Marielle é trocado. ‘A família não foi comunicada sobre absolutamente nada’, diz Anielle

07/07/21 por Beatriz Drague Ramos

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Há mais de três anos, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes já teve outras três trocas no comando da investigação. Henrique Damasceno se tornou o novo titular do caso: “é desesperador”, diz irmã de Marielle

Sem nenhuma comunicação com a família, pela quarta vez o comando da investigação da execução de Marielle e Anderson foi trocada | Foto: Reprodução/Twitter

As idas e vindas nas investigações da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, ocorridas em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro, seguem fazendo parte da apuração do crime que ainda não respondeu a pergunta Quem mandou matar Marielle e por quê? Dessa vez, mais uma troca no comando das investigações foi feita, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) do RJ realocou Moysés Santana, que capitaneou o caso nos últimos dez meses, colocando-o na 18ª DP (Praça da Bandeira). 

O novo titular das investigações é o delegado Henrique Damasceno, responsável pelo caso do menino Henry Borel, de 4 anos, assassinado supostamente pelo padrasto, o vereador cassado Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido) e pela própria mãe, Monique Medeiros. Ambos estão presos e são acusados por homicídio triplamente qualificado e tortura.

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A nova troca no comando das investigações do caso Marielle levantou mais dúvidas sobre o caso. A mudança foi criticada por Anielle Franco, diretora executiva do Instituto Marielle Franco, jornalista e irmã de Marielle Franco, em entrevista à Ponte. “Pela quarta vez, houve uma troca de delegado, mostrando mais uma vez o descaso do governador e o descaso da gente ter a comunicação prévia. A família não foi comunicada, a família não foi avisada, não foi consultada de absolutamente nada.”

Conforme relatado por Anielle, a família nunca é colocada a par das mudanças no caso. “A maneira como as coisas são feitas, sempre não colocando a família a par quando tem que ser colocada, é bem complicado.” 

A jornalista ainda afirma que o governador Cláudio Castro não presta informações à família. “Queria muito inclusive que o governador respondesse os nossos inúmeros e-mails, ofícios e tivesse a disponibilidade de conversar e atender a família, o que até agora ele não fez, mas a gente permanece com a esperança de que essa troca sirva para alguma coisa. É desesperador, mas a gente tem que manter a esperança de que, em algum momento, esse crime vai ser solucionado.”

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O troca-troca de delegados começou em março de 2019, quando o titular da Delegacia de Homicídios (DH) da Capital, Giniton Lages, foi afastado do caso logo após a prisão de Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, prováveis executores de Marielle e Anderson. 

Lages foi substituído por Daniel Rosa. Na época, foi informado que o então delegado seria afastado para fazer um intercâmbio na Itália e que seu papel na investigação tinha sido cumprido. Nesse momento, começaram as suspeitas de que existiriam possíveis interferências na investigação.

Em setembro daquele ano, a então Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, apresentou denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra cinco pessoas por interferência nas investigações do assassinato de Marielle e Anderson. Ela ainda informou que solicitou a federalização da investigação dos mandantes do crime, o que posteriormente foi negado pelo Superior Tribunal de Justiça em maio de 2020.

Quatro meses depois, em setembro de 2020, o caso mudou de delegado mais uma vez, quando Cláudio Castro assumiu o estado do Rio de Janeiro como governador interino. Castro nomeou Allan Turnowski como novo secretário da Polícia Civil, que logo anunciou a saída de Antônio Ricardo Nunes da chefia do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), assumida por Roberto Cardoso. 

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O DGHPP comanda as delegacias de Homicídios da capital e da Região Metropolitana. Cardoso então trocou o delegado do caso Marielle e Anderson, Daniel Rosa, por Moisés Santana. 

Até o momento, o que se sabe sobre o assassinato de Marielle e Anderson diz respeito ao envolvimento do PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz, que estão presos desde março de 2019, sob a acusação de serem os autores dos assassinatos. Ambos alegam serem inocentes e devem ir a júri popular na 4ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Tanto o Ministério Público do Rio de Janeiro (MORJ) quanto a polícia tem certeza da participação de ambos na emboscada. 

Em março deste ano foram anunciadas pelo MPRJ medidas de reestruturação nos Grupos de Atuação Especializada. Segundo o órgão, as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile estão de volta à equipe que investiga o caso pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Desde o início elas participaram das investigações, mas acabaram saindo após a troca de comando no órgão. Também foi anunciada uma força-tarefa para se dedicar a concluir o caso. A Ponte entrou em contato com o MPRJ, mas as promotoras não quiseram se manifestar sobre o caso.

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Atualmente a polícia trabalha com a tese de um complô entre mandantes e intermediários na morte de Marielle, conforme divulgado pela revista Veja. A principal hipótese é que o crime foi motivado por uma vingança contra o PSOL, onde Marielle era assessora e amiga pessoal do deputado federal Marcelo Freixo na época em que ele presidiu a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Milícias em 2008 na Assembleia Legislativa do Rio. A CPI indiciou 226 pessoas, entre deputados, vereadores, PMs e o ex-chefe da Polícia Civil fluminense, Álvaro Lins. 

A reportagem questionou o governo do Rio de Janeiro e a Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre os motivos da troca na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), mas ambos não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

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