‘Os assassinos não tinham ideia de que Marielle se tornaria gigante’

    Nos 1.000 dias da morte de Marielle, os repórteres Chico Otávio e Vera Araújo, autores do livro Mataram Marielle, lembram a longa investigação que fazem n’O Globo desde 14 de março de 2018

    Foto: Leonardo Coelho/Ponte Jornalismo

    14 de março de 2018. 21h30. Um veículo emparelha o carro dirigido pelo motorista Anderson Gomes na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, centro da cidade do Rio de Janeiro. 13 disparos são feitos: 9 acertam a lataria e 4 o vidro do carro. No banco traseiro, a vereadora Marielle Franco, eleita com 46 mil votos em 2016, estava ao lado da assessora parlamentar Fernanda Chavez. Anderson e Marielle morrem na hora. Fernanda se tornou a única sobrevivente de um dia que ficaria para a história, do Brasil e do mundo.

    Nesta terça (8/12) a conta macabra se arredonda: são mil dias depois do fatídico dia que tirou a vida de Marielle. Ou melhor: arrancou. Arrancou a vida da quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. Mas, mil dias depois, duas perguntas ainda não foram respondidas: Quem mandou matar a vereadora? Qual o motivo do assassinato? Uma coisa é certa, quem planejou a execução de Marielle não imaginava que ela viraria semente.

    No mesmo ano que Marielle foi executada, quatro dessas mulheres negras, próximas a ela, ocuparam importantes lugares nas casas legislativas: Talíria Petrone, uma das melhores amigas e companheiras de luta da vereadora, se tornou deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro; Renata Souza, Dani Monteiro e Mônica Francisco, três ex-assessoras de Marielle, ocuparam cadeiras na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

    Marielle na campanha contra o assédio no carnaval em 2018 | Foto: Reprodução/Facebook

    Marielle virou símbolo de luta, documentário, série documental, foi homenageada em um programa que lembrava personalidades negras importantes mundo afora e livro (Cartas para Marielle, de Anielle Franco, irmã de vereadora).

    Agora é a história do crime que chocou o país que vira livro. Escrito pelos jornalistas Chico Otavio e Vera Araújo, repórteres de O Globo, que investigam o crime desde o começo, Mataram Marielle: Como o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes escancarou o submundo do crime carioca reúne o trabalho jornalístico dos autores em sete capítulos. Um capítulo extra, intitulado Marielle Presente, finaliza a obra com as sementes plantadas pela vereadora.

    Como uma aula de jornalismo em formato de livro, Chico e Vera contam detalhes da longa apuração que ainda não acabou, já que ainda não se sabe quem são os mandantes do crime. “A gente tinha tanta informação acumulada e um jornal não dá conta, por mais que a gente tenha essa oferta de espaço da internet, nunca era suficiente para o volume de informações que a gente tinha”, afirma Chico Otavio em entrevista à Ponte.

    Até começar investigar o assassinato de Marielle, Chico Otavio não havia trabalhado com segurança pública. Desde 1997, atua na área de política d’O Globo. Já Vera Araújo trabalha há 30 anos com segurança pública. Foi o casamento profissional perfeito, já que a execução de Marielle tinha os dois aspectos.

    A parte mais difícil, afirmam os repórteres, foi lidar com a dor das famílias ao longo desses mil dias. “Você invade a privacidade da pessoa. Você não é amigo, porque precisamos ter esse distanciamento, mas, ao mesmo tempo, você fica tocado com a dor das pessoas”, define Vera Araújo.

    Familiares de Marielle em ato em outubro de 2018, no Rio | Foto: Reprodução

    “A dona Marinete [mãe de Marielle] é uma pessoa super fofa, espiritualizada e religiosa. Toda vez que eu falo com ela, ela me diz: ‘não tem um dia em que eu não pense na minha filha’. Ela tem um santuário de Nossa Senhora Aparecida dentro de casa e sempre faz as orações ali, quando a gente vai na casa dela, quando ela vai nos levar até a porta, ela parece que faz uma oração, como se falasse ‘que ela te proteja’. Eu tenho uma relação muito boa com a dona Marinete”, lembra Vera.

    Os repórteres também contam como foi encontrar testemunhas que nem a Polícia Civil havia encontrado e lidar com o “submundo do crime carioca”. “No meu caso foi mais difícil do que para a Vera. Eu não tinha experiência nessa área. A minha área é política, os bandidos que eu estava acostumado a investigar eram os famosos bandidos de colarinho branco. Quando começamos, a Vera me perguntou ‘você está preparado para abrir a porta do inferno?'”, lembra Chico.

    “Marielle é um símbolo de luta pelas bandeiras que ela defendia: antirracista, LGBTQIA+, feminista e contra a violência policial. Marielle era tudo. São bandeiras muito fortes, são a cara do Rio de Janeiro que é pisado pela violência cotidiana. Não tem uma frase mais certa do que ‘Marielle presente‘. Mesmo morta ela continua. As bandeiras que ela defende, vou falar no presente, continuam pairando porque ela é um símbolo. Os assassinos não tinham ideia disso”, avalia Vera.

    Leia a entrevista:

    Ponte – Como foi a produção do livro? Vocês têm feito uma investigação profunda desde o dia do assassinato de Marielle. Como foi colocar tudo em um livro?

    Chico Otavio – Foi um processo natural. A gente tinha tanta informação acumulada e um jornal não dá conta, por mais que a gente tenha essa oferta de espaço da internet, nunca era suficiente para o volume de informações que a gente tinha. Outro ponto importante é que o livro nos oferecia a chance de amarrar todas as histórias, amarrar todas as pontas soltas, juntar tudo em uma narrativa só, que pudesse explicar tudo o que aconteceu após o fatídico 14 de março de 2018. 

    Também teve a nossa parceria, foi um casamento profissional muito legal. A Vera tinha essa expertise na área de segurança pública, como uma das grandes repórteres do país, e eu cuidava, sempre cuidei, da área de política, atuo nessa área n’O Globo desde 1997. O crime tinha essas duas características: o viés policial investigativo e o lado político, o que Marielle representava e o cenário político do Rio de Janeiro naquela data.

    Retrato de Marielle Franco tem um lugar especial na Paróquia Santos Mártires: ao lado de outros ativistas de direitos humanos | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

    A gente acabou se completando. Pelos nossos perfis, não ficamos reféns da investigação oficial, de vazamento de peças do inquérito. Todo repórter ambiciona os materiais exclusivos, mas tivemos nossa própria linha de investigação: sair para a rua, queimar sola de sapato atrás das histórias. Conseguimos muita coisa por conta disso.

    Ponte – Inclusive, o terceiro capítulo do livro fala justamente sobre essas histórias: as testemunhas que a polícia não ouviu. Como foi encontrar essas pessoas?

    Chico – Foi uma lição de jornalismo da Vera. Ela teve a brilhante ideia de voltar ao local do crime em um horário próximo para ficar ali parada, esperando as pessoas passarem. Simples assim. Aí ela foi abordando as pessoas, falando que era repórter e perguntando, até que chegaram duas pessoas que além de terem o hábito de estarem ali também viram a cena do crime. Essas testemunhas deram informações importantes para a dinâmica do crime, tipo de arma usado, a posição do atirador, como o carro foi fechado. A polícia só ouviu as testemunhas depois que a Vera descobriu.

    Foto: Reprodução/Agora Eu Quero Gritar

    Vera Araújo – O instinto de investigação já veio comigo quando eu nasci. Eu sou uma pessoa inquieta, não gosto de aceitar a primeira explicação sobre determinada situação, principalmente em relação aos crimes. Eu sempre tive essa coisa de desconfiar sempre. No caso da Marielle eu entrei quase uma semana depois. Eu fui no local do crime numa terça-feira, um dia antes de fazer uma semana. Eu queria olhar o ato ecumênico que estava acontecendo de noite na escadaria da Câmara dos Vereadores, como se fosse uma missa de sétimo dia, e dali eu fui para o local do crime.

    Peguei um metrô, super rápido entre a Cinelândia e o Estácio, e lá eu comecei a verificar e procurar testemunhas. Eu tenho hábito de analisar a cena do crime com calma. Como eu estava atrasada [em relação aos outros jornalistas] sabia que tinha que achar uma pista que ninguém tinha, que ninguém tinha chegado. Nisso fiquei olhando ao redor: iluminação ruim, câmera de tráfego quebrada. 

    Ato de um ano do assassinato de Marielle, realizado em São Paulo em 14 de março de 2019 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Aí fui em um posto de gasolina e o frentista me disse que não tinham ouvido nada. O posto era cerca 40 m do local. Qualquer pessoa poderia ter ouvido um tiro. Dali já surgiu a informação: os assassinos usaram silenciador. Veja como a cena do crime, mesmo uma semana depois, tem tanta informação que a gente acaba não prestando atenção. Ai eu parti para procurar as testemunhas.

    Todo mundo dizia que não tinha visto, até que eu cheguei, depois de ouvir mais de 20 pessoas, em um senhorzinho que estava na cara do gol, no mesmo local que ele estava no dia do assassinato. Inicialmente, ele disse que não tinha visto nada, mas aí caiu em uma contradição. Eu falei “poxa, mas era mais ou menos o mesmo horário de agora, 21h15” e ele “não, foi 21h16”.

    Diante dessa contradição, ele não pôde voltar atrás e me explicou que estava ali. Com isso pedi os detalhes: qual foi o rumo do carro, o que ele tinha visto. Com observação e o depoimento dessa testemunha eu escrevi uma página n’O Globo. Dali ouvi outra testemunha. Nenhuma dessas duas testemunhas tinham sido ouvidas pela polícia.

    Ato de um ano do assassinato de Marielle, realizado em São Paulo em 14 de março de 2019 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    A outra testemunha me deu muito mais trabalho. Desse primeiro dia consegui bastante coisas, mas a outra testemunha eu tive que ir mais de três vezes até o local para tentar descobrir onde ela ficava, para conseguir um contato. Mas valeu a pena, eu faria tudo de novo.

    Ponte – Isso mostra muito como o papel do jornalista é importante.

    Chico – Tem que ter vontade, tem que buscar. Não é fácil achar uma testemunha que as autoridades não viram. Hoje estamos em um cenário difícil, em que não podemos circular muito. Determinados assuntos e temas delicados as pessoas não gostam de compartilhar via remota. Ainda tem que ser olho no olho e ir atrás.

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    O nosso protagonismo nas investigações tomou um baque com o isolamento social. Antes tínhamos uma liberdade que nem a polícia ou o Ministério Público tinham, porque eles tinham que seguir o protocolo: intimar, marcar um horário. A gente podia ir na porta da pessoa, bater e convencer, tomar um café na casa das fontes. Só precisamos de poder de convencimento.

    Vera – É isso que tem que ficar desse trabalho. Esse contato físico com as pessoas é necessário para pegarmos a informação na essência. Essa é a importância do trabalho do jornalismo investigativo: gastar sola de sapato, ter paciência. É um tempo a mais, mas que é super necessário.

    Ponte – No próprio subtítulo do livro, vocês trazem que o caso Marielle escancarou o submundo do crime carioca. Como foi fazer essa investigação? Rolou algum medo?

    Chico – No meu caso foi mais difícil do que para a Vera. Eu não tinha experiência nessa área. A minha área é política, os bandidos que eu estava acostumado a investigar eram os famosos bandidos de colarinho branco, eram os caras da Lava Jato. Era outro patamar. Quando começamos, a Vera me perguntou “você está preparado para abrir a porta do inferno?”.

    A gente circulou por regiões de milícia, fomos de carro blindado, mas acho que isso não significa nada. Eu fiquei realmente muito espantado com as coisas que eu vi. Vimos lugares dominados pelas milícias em que até o sistema de encomenda era dominado. Se a pessoa não tivesse em dia com a “mensalidade” da “associação de moradores”, ela não recebia correspondência em casa. Isso é tudo muito assustador.

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    A gente sabe do nível de violência desses caras. Eu estou respondendo uma nova ação judicial de um denunciado de uma das minhas matérias. A minha “clientela” para me constranger sempre buscou a indústria do dano moral, mas essa galera [da milícia] resolve de outra maneira. Então é lógico que eu me preocupei, que eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. Mas seguimos em frente.

    Vera – Eu sempre gostei de cobrir casos complicados. Eu comecei nessa profissão há 30 anos e o destino me levou para segurança pública, entrei na época do boom das chacinas no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense. Eu trabalhava no primeiro horário, às 7h, e sempre ia para esses casos, tinha que ir atrás de informações, pistas e ouvir as autoridades. Com isso acabei criando uma rotina para investigar. Os olhares, o gestual, a forma que a pessoa fala é algo muito importante. 

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    O Chico até brinca comigo, quando a gente ia entrevistar alguma autoridade, depois a gente fazia uma espécie de brainstorming [tempestade de ideias, em inglês]. Ele me pergunta o que eu percebi ali.

    Chico – Lembra quando a gente estava esperando aquele determinado vereador no posto de gasolina? Aí a gente esperou, esperou e esperou, até que chegou um carro e você me disse: “pelas características daquele carro, ele vai sair de lá”? E não deu outra. De dezenas de carros parados no posto, você intuiu que era aquele. Lembra disso?

    Foto: Reprodução/Twitter

    Vera – Foi muito engraçado. É um trabalho muito estressante esse que a gente faz e, o ideal, é a gente não ter necessidade de trabalhar nesse tipo de coisa, em um mundo ideal sem crimes, mas já que eles infelizmente acontecem, é importante que a gente tenha esse olhar. É o que o Chico falou, a gente acaba vendo essas características. Os milicianos têm uma característica específica: ele gosta de andar de carros blindados, no estilo daquelas pick-ups, rodeados de seguranças.

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    Como a gente já tinha informações sobre esse determinado vereador, quando ele chegou naquele carro eu percebi que era ele. E era o cara. Pela experiência também dá para perceber quando a pessoa está mentindo. Quando eu fui no local do crime, tentei observar o máximo possível. Os nossos olhos são as principais ferramentas. Temos que falar menos e observar mais.

    Ponte – Quantas pessoas vocês ouviram durante esse tempo? Como foi a variedade das pessoas ouvidas?

    Chico – Você falou bem: variedade mesmo. Só de delegados, foram três. O Antônio Ricardo Nunes, o Daniel Rosa e agora o Moysés Santana. Houve mudança também no Ministério Público, em que o promotor original saiu para que duas promotoras assumissem [Simone Sibílio e Letícia Emile], que para mim deram outro rumo para a investigação. Houve briga entre o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal a ponto de ter um conflito de competência julgado pelo STJ, houve divergência entre o MP e a Polícia Civil, houve a confusão resvalando no próprio presidente da República.

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    Então, assim, foi uma história impregnada de reviravoltas, não foi fácil. Não foi nada fácil investigar esse caso considerando todas essas confusões e linhas de investigação divergentes, de um caso que ainda não está concluído, ainda existe um inquérito em busca dos mandantes. Tudo isso foi levado em consideração e amplia o nosso leque de fontes. Eu nunca contabilizei, mas seguramente a gente chega na casa de 200 fontes.

    Ponte – E como foi lidar com a dor da família nesse período?

    Chico – Difícil, muito difícil, porque era um papel delicado, invasivo. A gente compartilhou o sofrimento da dona Marinete, do seu Antonio, da Anielle, da Luyara, da Monica, da Ágatha. É duro, é duro, mas infelizmente necessário porque, muitas vezes, eles tinham algum detalhe que podia ajudar na investigação. Apesar da dor imensa, eu via sempre uma boa vontade da família de contribuir. E quero fazer um agradecimento público em nos receber.

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    Vera – Essa é a parte mais difícil do nosso trabalho. Você invade a privacidade da pessoa. Você não é amigo, porque precisamos ter esse distanciamento, mas, ao mesmo tempo, você fica tocado com a dor das pessoas. Uma pessoa que eu tenho a maior dificuldade e, ao mesmo tempo, cumplicidade é a mãe da Marielle.

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    A dona Marinete é uma pessoa super fofa, espiritualizada e religiosa. Toda vez que eu falo com ela, ela me diz: “não tem um dia em que eu não pense na minha filha”. Ela tem um santuário de Nossa Senhora Aparecida dentro de casa e sempre faz as orações ali, quando a gente vai na casa dela, quando ela vai nos levar até a porta, ela parece que faz uma oração, como se falasse “que ela te proteja”. Eu tenho uma relação muito boa com a dona Marinete. 

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    Também tenho uma relação muito boa com a Monica Benicio. Eu não bebo, só bebo água, e ela até brinca falando para gente ir beber, mesmo sabendo que eu só bebo água. Essa coisa a gente acaba passando. A Ágatha, a esposa do Anderson, é outra que gente… eu acompanho o Arthur como se fosse um sobrinho. Ela me conta tudo o que ele está fazendo. A gente vai acompanhando e torcendo para que essas pessoas encontrem muita luz, que consigam superar a dor. A gente não tem noção da posição delas. 

    Ponte – Quando vocês começaram a cobrir esse caso, imaginavam que mil dias depois ainda ia estar em aberto? Sem saber quem são os mandantes?

    Chico – Embora eu não tivesse tanta experiência em segurança pública, quando eu vi as características do crime, com arma automática, um cerco bem planejado, um carro com a placa clonada, a impossibilidade de rastrear o celular… eu já senti que aquilo ali seria complicado. Não era um crime qualquer, era um crime de difícil investigação. Então eu esperava sim essa complicação. Eu acho que a polícia cometeu alguns equívocos nessas trocas de delegados em menos de mil dias, todas essas reviravoltas. Eu não perdi as esperanças não. Tenho fé que em algum momento essa cidade terá essa resposta.

    Foto: Reprodução/Facebook

    Vera – Mil dias é muita coisa. Como bem o Chico falou, à medida que as coisas foram acontecendo, a gente percebeu que era um crime feito por profissionais. Tinha muita obstrução de justiça. Uma pessoa aparece dizendo que ouviu um vereador junto com o Orlando Curicica, um miliciano, tramando sobre Marielle e [Marcelo] Freixo.

    Quando você vê isso pensa que o caso vai acabar rápido, mas aquela pessoa atrapalhou o caso, tanto que esse Rodrigo Ferreira, que é um policial militar miliciano, que fez isso para salvar a própria pele, está respondendo por isso. Ainda teve a investigação da Polícia Federal na investigação da Polícia Civil. Quando começamos a ver isso, vimos que a investigação ia levar muito tempo. 

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    Eu tinha como parâmetro os casos como o assassinato da juíza Patrícia Acioli [morta em 2011 por milicianos que ela estava julgando], que demorou mais ou menos 60 dias, o caso do Amarildo, que também regulou um pouco por aí. A média é essa. Mas o caso de Marielle logo de cara já nos mostrou que realmente ia ser uma coisa bem difícil. O nível de planejamento era muito maior.

    Um assassino que vai no seu celular e limpa os dados, não leva o celular no dia do crime, estava tomando os cuidados. Tiveram o cuidado de escolher um lugar com pouca iluminação e sem câmeras se segurança, de pesquisar o local como ficou constatado, que ele visitou outros dias, pelo menos três dias antes. Isso tudo mostra o quão planejado foi o crime. Isso torna o tempo uma coisa muito variável.

    Ponte – Vocês acreditam que o crime tem um mandante?

    Vera – Sim. Existe uma linha [investigativa] de que Ronnie Lessa fez isso por uma questão de ódio, porque foram encontradas várias informações, nos computadores e celulares, mostrando que ele tinha ódio da Dilma [Rousseff], do Lula e da esquerda. O Marcelo Freixo era um alvo perfeito para ele, se Freixo não tivesse seguranças. Ele inclusive pesquisa a família do Freixo. Mas ele não podia matar o Freixo.

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    Depois de um certo tempo, ele começa a pesquisar Marielle. Agora o Lessa tomar essa iniciativa sozinho? Na nossa cabeça não entra isso, por isso a gente acha que há um mandante sim. Queriam desmembrar o processo em dois. A primeira parte, autores do crime, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz. Segunda fase seriam os mandantes, que é o inquérito que ainda está em andamento.

    Ponte – O nome Marielle ganhou o mundo. Temos muitas sementes de Marielle eleitas. Por que Marielle é tão gigante mesmo depois de morta?

    Vera – Boa pergunta. Ela se tornou gigante. Marielle é um símbolo de luta pelas bandeiras que ela defendia: antirracista, LGBTQIA+, feminista e contra a violência policial. Marielle era tudo. São bandeiras muito fortes, são a cara do Rio de Janeiro que é pisado pela violência cotidiana. Não tem uma frase mais certa do que “Marielle presente“. Mesmo morta ela continua. As bandeiras que ela defende, vou falar no presente, continuam pairando porque ela é um símbolo. Os assassinos não tinham ideia disso.

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    Chico – Sem querer assumir posicionamento ideológico, se a esquerda tem algum motivo para comemorar alguma coisa nas eleições de 2018, foi justamente a eleição de uma bancada de deputadas comprometidas com o ideário de Marielle. Só do gabinete da Marielle foram três deputadas: Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro.

    Mônica Francisco, Renata Souza e Dani Monteiro: atuais deputadas do Rio, todas integraram o gabinete de Marielle Franco | Foto: Reprodução/Facebook

    Vera – Sem contar Talíria [Petrone], na Câmara dos Deputados.

    Chico – Essa luta triplicou de força. Ninguém vai substituir o carisma de Marielle, mas ganhou mais ênfase, força e motivação. Agora temos a Monica eleita. Sete vereadores do PSOL na capital. É um número inédito. E tem um dedo de Marielle nisso, das agendas que ela levantou e que são fundamentais. Esse legado tá mais do que vivo.

    Marielle Franco (à esq.) ao lado de Talíria Petrone (à dir.) | Foto: Reprodução/Facebook

    Vera – É inegável esse legado e as sementes que ela plantou. Você implantou na cabeça das pessoas que as mulheres, população preta e LGBTs podem. Um puxa o outro. O resultado nas urnas tem mostrado isso.

    Chico – Evidentemente essas lutas identitárias são fundamentais. É papel do vereador cuidar desses temas. Mas uma outra questão que vimos muito, e que para mim é um desafio dessa futura legislatura no Rio, é a questão da ocupação urbana. Isso é central. Vera e eu vimos o quanto a milícia trouxe de prejuízo e retrocesso na questão do planejamento e da organização do espaço urbano no Rio de Janeiro. De certa forma, a chamada “Bancada da Bala”, que era forte até agora, aprovou diversos projetos para liberar geral. Vimos a olho nu tudo isso. Agora que a “Bancada da Bala” encolheu um pouquinho e a futura configuração da Câmara ficou menos conservadora, eu vejo isso daí como um grande desafio.  

    Ponte – Para encerrar, o que Marielle representa para vocês?

    Vera – Eu conheci Marielle bem rapidamente no gabinete do Freixo pelo trabalho que eu fazia em relação às milícias em 2008. No ano anterior, jornalistas do Jornal O Dia foram sequestrados e torturados dentro de uma favela e isso deu forças para que um projeto do então deputado estadual Marcelo Freixo fosse aprovado para investigar as milícias.

    Como eu tinha feito matéria falando sobre as milícias, eu ia muito no gabinete para obter informação sobre isso. Foi lá que eu conheci Marielle. Eu não tinha ideia de que, no futuro, ela se tornaria uma candidata a vereadora e aconteceria tudo o que aconteceu.

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    A Renata Souza, que também era do gabinete do Freixo, me apresentou Marielle, falando que ela cuidava das questões de direitos humanos. Marielle virou o rosto, com um sorrisão largo, e nos cumprimentamos. Foi um momento que eu tive com ela e deu para sentir o peso de quem era Marielle.

    Chico – Eu conheci Marielle no Aeroporto de Congonhas. Eu tava indo fazer uma matéria em São Paulo e tinha um encontro nacional do PSOL. Muita gente que eu conhecia do partido estava naquele voo, inclusive Marielle. Eu vi ela passando pelo corredor e pensei “aquela dali que é a Marielle”.

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    Nesse campo da esquerda, ela foi um fenômeno nas eleições de 2016. Inclusive mais de um familiar meu votou nela. Eu tinha maior vontade de conhecê-la. Quando a gente desceu do voo, um amigo meu, vereador de Niterói, me apresentou Marielle no saguão. Eu fiquei impressionado com a energia e com o carisma dela.

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