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Talíria Petrone, ameaçada de morte: ‘Não é possível viver em paz sem lutar’

01/10/20 por Caê Vasconcelos

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Em dois anos de mandato, parlamentar já precisou usar duas vezes escolta da polícia legislativa. À Ponte, Talíria conta que já pensou em deixar a vida pública, mas que “a vontade cessa quando eu lembro que Marielle foi executada e não há resposta”

Marielle Franco (à esq.) ao lado de Talíria Petrone (à dir.) | Foto: Reprodução/Facebook

Na semana de retorno da licença maternidade de 120 dias, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), 35 anos, foi surpreendida com a informação de que recebeu cinco ameaças contra sua vida, registradas na linha telefônica “Disque Denúncia” da Polícia do Rio de Janeiro e enviadas à Câmara dos Deputados.

Diante disso, a parlamentar enviou uma carta à ONU (Organização das Nações Unidas) pedindo proteção e cobrança de resposta do governo brasileiro, um dia depois do seu retorno, na última sexta-feira (25/9). No documento, a deputada lembra que solicitou proteção em 2019, mas os governos federal e estadual não autorizaram.

Na carta, a deputada faz três pedidos à ONU: exigir respostas do Estado brasileiro sobre quem mandou matar Marielle Franco; condenar as ameaças contra a vida dela e exigir esclarecimentos da missão brasileira
na ONU sobre as investigações em andamento sobre elas; e instar o Estado brasileiro a apresentar um plano para proteger as mulheres,
especialmente as mulheres negras, de sofrerem violência política.

Desde o momento em que aceitou ser uma figura pública, conta Talíria à Ponte, sua vida precisou mudar radicalmente. Ainda como vereadora na cidade de Niterói (RJ), onde foi eleita com mais de 5 mil votos, ela já começou a sofrer ameaças e discurso de ódio nas redes sociais e receber ligações com ameaças de morte na sede do PSOL.

Leia também: ‘Ideologia mata’, diz PM ao reprimir candidata negra

Após o assassinato da vereadora e amiga Marielle Franco, executada na noite de 14 de março de 2020, um crime que está há 932 dias sem a resposta sobre os possíveis mandantes, Talíria conta que as ameaças se intensificaram. Mas ela lembra que, antes mesmo do assassinato, precisou mudar sua rotina.

“Quando Marielle é executada, aquilo que a gente via escondido ali nos porões fica muito escrachado”, lembra a deputada. Em 2018, durante sua campanha eleitoral como deputada federal, foi reprimida pela Polícia Militar. Talíria foi eleita ao cargo com 107.317 votos.

“Há um ano e meio eu passei a receber escolta legislativa após uma chamada contra a minha vida receptada pela Polícia Federal. Agora essas denúncias aparecem novamente”, lamenta. Em agosto de 2020, Talíria recebeu, pela segunda vez, escolta enviada pela Câmara dos Deputados.

Em janeiro de 2019, outro parlamentar do PSOL do Rio de Janeiro saiu do Brasil após receber diversas ameaças de morte. O deputado federal Jean Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente gay no país, justificou a decisão por real ameaça contra a vida.

De lá para cá, o silêncio foi a única resposta que Talíria recebeu do governo brasileiro. “O governo do Rio de Janeiro vai me autorizar quando eu estiver no Rio, em agenda oficial, alguma forma de proteção. Um ano e meio depois é uma resposta ineficiente, porque eu preciso andar pela cidade, preciso levar minha filha para o pediatra. É uma situação delicada, mas eu insisto”.

Leia também: ‘Quando há violência política, não existe democracia plena’, diz Talíria

Para Talíria, antes de entender as ameaças contra sua vida, é preciso entender o cenário nacional. “A gente vive no país que mais assassina defensores de direitos humanos em todo o mundo, o país que, no cenário atual, diante do avanço do bolsonarismo e de retrocesso de uma democracia que já é frágil, temos uma ampliação da violência política, em especial contra mulheres negras, contra grupos que são entendidos como não pertencentes ao espaço de poder”.

A deputada lembra que é grave para uma democracia “quando um parlamentar é eleito e sofre violência pelo seu exercício parlamentar”. “Esse é um momento que eu queria estar curtindo a minha filha. Mas é algo do Brasil, em que vivemos uma fragilidade imensa das estruturas institucionais e isso precisa ser interrompido. Não é possível que a gente não possa exercer livremente o direito de ir e vir em detrimento a um mandado para o qual fomos eleitos”.

A parlamentar confessa que já pensou em parar e desistir da carreira política. “Eu era professora de história, tinha a minha vida, morro de saudade de dar aulas. Mas essa vontade de parar cessa quando eu lembro que Marielle foi executada e não há resposta, cada vez que eu vejo a notícia de um jovem assassinado pelo Estado por meio da violência policial, quando eu vejo o autoritarismo crescente do governo federal”.

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“A luta é uma urgência. Não é possível viver em paz sem lutar. Então os momentos de desistir existem e são rapidamente superados pelo desejo de uma sociedade mais justa, em que todo mundo possa ser livre para viver em paz”, aponta.

Outro lado

A reportagem pediu ao governo federal e ao governo estadual do Rio de Janeiro um posicionamento sobre as denúncias de Talíria e aguarda resposta.

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