‘Saudade? Tenho todo dia. Ainda é difícil acreditar’, diz irmã de Marielle Franco

04/10/19 por Carolina Moura, especial para Ponte

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Anielle Franco critica quem ‘usa nome de Marielle para se promover’ e diz que ainda não decidiu entrar para política: ‘não aguentaria metade dos desaforos que ela aturou’

Anielle Franco posa para foto em frente ao altar em homenagem à irmã | Foto: Carolina Moura/Ponte Jornalismo

Aos 35 anos, Anielle Franco lembra todo dia da irmã, a vereadora Marielle Franco, 38, assassinada em 14 de março do ano passado, junto com o motorista Anderson Gomes. Mas são às sextas-feiras, quando o final de semana se aproxima, que a saudade aperta. “São as horas que sinto mais falta, porque era quando estávamos mais juntas. Esse ano mesmo aconteceu de eu me pegar dizendo ‘preciso ligar para Marielle, não falei com ela hoje'”, lamenta Anielle.

Foi justamente em uma sexta-feira que ela recebeu a reportagem da Ponte no condomínio onde vive, em Del Castillo, zona norte do Rio de Janeiro, para falar como tem sido a vida desde a morte da irmã mais velha, as expectativas de um desfecho para o caso, a militância quase inevitável desde a morte da irmã pelos direitos humanos, pelas mulheres, pela favela, e o livro “Cartas para Marielle”, lançado durante a Flip (Festa Literária de Paraty), em julho deste ano.

Da pequena varanda do apartamento que fica no 10º andar e tem vista para a favela do Rato Molhado e o Complexo do Alemão, o barulho do trem que passa bem em frente, vez ou outra, nos pegava de sobressalto durante a entrevista. No apartamento modesto de dois quartos, um canto chama a atenção: uma mesa que parece uma espécie de altar homenageia Marielle Franco.

Os traços físicos e até a forma de se expressar da caçula lembram bastante a irmã mais velha: a voz forte, bastante expressiva, falante e brincalhona. Mas quando o assunto é política, Anielle trata de colocar os “pingos nos is”. À Ponte ela afirma que não descarta entrar para a política, mas nega ter afirmado publicamente que vai lançar candidatura. “Eu não aturaria metade dos desaforos que Marielle aturou ali. Não sei lidar com a falta de vergonha e caráter que as pessoas [da política] têm”, afirma.

Nesta quinta (3/10), Polícia Civil e Ministério Público prenderam quatro pessoas suspeitas de ocultar provas do crime – entre elas a esposa do PM da reserva Ronnie Lessa, que, junto com o ex-PM Élcio Queiroz, é acusado pela morte de Marielle.

Anielle Franco afirma que ainda tem esperança de que a polícia ache um culpado e não usa meias palavras para definir o assassinato na irmã. “Marielle foi vítima de um feminicídio político. É um silêncio muito grande, mais de 500 dias sem resposta”.

Confira entrevista completa:

Ponte – Como está sua rotina atualmente?

Anielle Franco – Costumo dizer que hoje minha rotina está totalmente diferente. Uma das partes importantes e que demanda tempo é cuidar da Luyara, né? Essa coisa de levar, buscar, ver se ela está comendo direito, se está fazendo o acompanhamento certo, digo que a gente ganhou outra filha. Em relação a parte institucional, minha vida é ir trabalhar, hoje eu dou aula em duas escolas, cuido da minha filha, dos meus pais e trabalho no Instituto Marielle Franco. Dou aula de inglês pela manhã três dias na semana e um dia na parte da tarde. Ano passado eu dava aula em quatro escolas, só que duas me mandaram embora. Acho que rolou um “ser irmã da Marielle”, não sei. A rotina é cuidar do legado da Mari, cuidar dos nossos, trabalhar, ser mãe, esposa, mulher. Quase sempre bate o cansaço, na verdade ele tem sido meu sobrenome. Tenho andado muito cansada, só não estou mais porque eu tento tirar um tempo para mim. Semana passada mesmo teve conselho de classe quarta-feira aproveitei o tempo para fazer unha. As vezes assisto a um capítulo de uma série que tem um ano que não consigo terminar. A gente não tem tido muita escolha.

Ponte – Como foi a ideia de escrever um livro?

Anielle Franco – Eu estava vendo meus pais escreverem muito uma época. Quase todo dia eles chegavam em casa e escreviam. Meu pai virou um dos poetas, escritores, que eu mais admiro. Vendo isso, pedi permissão a eles para digitalizar as cartas e fazer um livro. Peguei as fortes, mas tem muita coisa que deixei de digitalizar por serem mais fortes ainda. Eu cheguei a conversar com uma amiga, quando eu ainda estava pensando em um título, foi quando ela disse “coloca cartas para Marielle!” e ficou. As cartas são inéditas, tem dos meus pais, minhas, da Luyara e o Marcelo Freixo fez o prefácio. Para mim, o livro tem a ideia de eternizar o que estávamos passando nesse um ano sem ela. Os 12 primeiros meses sem a Mari foram os piores e eu não desejo isso para ninguém. Foi um misto de emoção com vontade de resposta, militância talvez. Ele está bem bonito. A carta que eu mais curto é a do meu pai e da minha mãe. Tem uma do meu pai, que abre o livro, que é bem duro de ler. Ele descreve o momento em que recebeu a noticia da morte dela.Fiquei muito contente porque o livro foi um sucesso na Flip [Feira Literária de Paraty]. Levamos uns 300 exemplares e ainda faltou. Fomos na Flup [Festa Literária das Periferias, que acontece no Rio] também tem sido muito bom o resultado. 

Ponte: O que é o Instituto Marielle Franco? Qual a ideia dele? 

Anielle Franco – Nós somos um bebê ainda, estamos em processo de construção na verdade. Ainda não temos sede, nos reunimos na laje da minha mãe, em Bonsucesso. Estamos pensando em lançar uma campanha para conseguir um lugar para o instituto. Estamos construindo um projeto mas já temos dois prontos. O primeiro é o “Papo Franco”, que é levar a história da Marielle pelo Brasil. Vamos nos lugares falar sobre quem foi ela, o que fez, enfim. O segundo, que eu estou com muito empenho, é a “Escola de Formação Política Marielle Franco”, ainda estamos criando e estudando como será a inauguração e como vai funcionar a inscrição. A ideia é que esse curso seja voltado principalmente para mulheres negras. Também estamos construindo o memorial da Mari. O site foi lançado tem duas semanas mais ou menos e é tudo muito novo. O objetivo desse instituto é dar voz a quem não tem, é fazer com que a Marielle não seja esquecida, que não seja apagado a memória, o legado, o que ela já fez. 

Imagem e semelhança: caçula nega ter falado que vai se candidatar, mas abraçou a militância dos direitos humanos e do povo favelado | Foto: Carolina Moura/Ponte Jornalismo

Ponte – Como foi para a família ir para a França, para inauguração de uma praça com o nome da Marielle?

Anielle Franco – Meus pais ficaram muito animados com a praça. Isso foi um cala boca para quem achou que a Marielle foi mais uma que morreu, porque não foi. Ela foi vítima de um feminicídio político. Nunca imaginamos que ela ia chegar a esses lugares e ao mesmo tempo é triste, né? Queríamos essas homenagens feitas com ela aqui, falando, quando estava viva. Sem dúvida valorizaram muito mais ela depois da sua morte, até porque, se ela não tivesse morrido da maneira que foi, talvez as pessoas nem saberiam quem é Marielle. 

Ponte – Há alguma atualização das investigações?

Anielle Franco – O que a gente sabe é o que está na mídia. Meus pais têm ido frequentemente no Ministério Público, eles sabem que as coisas estão caminhando, mas também tem ideia de que há muita coisa por trás disso tudo. A gente fica naquela dúvida, naquela incerteza se vão ou não descobrir os mandantes do crime. Eu ainda tenho esperanças que a polícia ache quem foi, quero muito que esse dia chegue. É um silêncio muito grande, mais de 500 dias sem resposta. A gente sabe que está demorando. 

Ponte – O que vocês acharam sobre o pedido de federalização do caso? 

Anielle Franco – Eu acho surreal. Ela [Raquel Dodge, ex-procuradora geral da República] esperou até o último dia para fazer, né? Mas por que ela fez isso? Para quem? A Dodge nem sequer perguntou à família. Agora o caso vai para instância federal, eles vão ter acesso, eles vão poder mexer. Hoje está aqui no MP do Rio, a gente pode perguntar, pode ir lá, agora é nível governo federal. O que isso significa não sei. Não acho que o Bolsonaro tenha algo a ver porque ele não se importaria tanto com isso. Claro que bate a dúvida. Será? Deve ter caroço nesse angu. 

Ponte – O que você acha do governo do Witzel e do Bolsonaro?

Anielle Franco – É um governo que tem muito ódio de favela, de preto, da minoria. É uma política para matar mesmo. Eles são extremamente radicais. Essa coisa do matar, mirar na cabeça, entrar na favela atirando de helicóptero, intensifica mil vezes as operações e as mortes. Esse ano foi surreal. Fico preocupada com os nossos, dar aula em comunidades não tem sido fácil. É o discurso do ódio e varredura em quem está na favela principalmente. Eu acho que é um governo de censura, um governo que traz medo. Acho que a gente corre risco sim, desde censura até, sei lá, boicotar a família da Marielle. É um governo que me assusta muito. Não sei até que ponto são capazes com esse ódio da esquerda que eles têm. Eles veem a esquerda como uma pedra no sapato. 

Marielle e Anielle Franco | Foto: reprodução Facebook

Ponte – O que você achou do pedido de desculpas dele pelo que fez com a placa da Marielle?

Anielle Franco – Ele nunca me pediu desculpas, graças a Deus. Saberia nem minha reação. Meus pais aceitaram, fizeram a política de boa vizinhança. No momento estava ele e a esposa, meu pai e minha mãe. Sinto nada por esse pedido de desculpa. Sei que eles estão pouco se importando pela Marielle, eu tenho pena deles. Pena de quem faz política desse jeito. Queria ver o Rodrigo Amorim pedindo desculpas. Ele não só quebra a placa mas emoldura e põe no gabinete dele. Eu queria perguntar para ele se fosse o irmão dele assassinado como foi a Mari, se faria o mesmo. A atitude dele foi patética. Não sei se o que senti foi ódio, eu fiquei indignada, achei uma atitude ridícula. Tenho nem palavras.

Ponte – Você tem planos de entrar para política?

Anielle Franco – Eu tenho planos de fazer política como eu faço. No nosso dia a dia, com nossas lutas, militâncias, com movimento, mas ainda não me decidi em relação a isso. Muitas matérias falam que eu estou vindo como candidata. Eu nunca expressei isso, até porque eu tenho medo, acho a política da gente imunda, depois eu não irei me sujeitar a passar e a fazer coisas que as pessoas que estão lá dentro fazem e eu não quero usar minha irmã como trampolim político. É a minha irmã. Eu sei que ela não é somente minha hoje, ela é do mundo. As pessoas têm ela hoje como símbolo. Mas hoje não me vejo nesse lugar de Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Não me vejo na Alerj [Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro]. Esses lugares são tóxicos, adoecem. Quero fazer a política que eu acredito, ajudar mulheres a entrar na política. Não descarto a possibilidade mas também não falo hoje para você que eu venho como candidata. Hoje, setembro, eu não tenho planos. Não sei se amanhã ou depois mudaria, se eu tivesse segurança privada ou formação diferenciada, talvez. Eu não aturaria metade dos desaforos que Marielle aturou ali. Não sei lidar com a falta de vergonha e caráter que as pessoas têm. Para mim, como pessoa, é difícil. 

Ponte – E a saudade da Marielle?

Anielle Franco – Todo dia. Acho que assim, esses momentos, sexta-feira, datas comemorativas, fim de semana, fim do dia, são as horas que sentimos mais falta. A gente estava sempre junta nessa hora. Éramos muito parceiras em tudo. Ainda é muito difícil acreditar o que fizeram com ela. Esse ano ainda aconteceu eu falar ”preciso ligar para Marielle, não falei com ela hoje” e aí vejo que não, ela não está aqui. Foi um lapso. Dá uma vontade de chorar quase sempre. Vai rolar muita gente ainda usando o nome da Marielle para se promover. A gente ainda vai passar por bastante coisa que a gente não quer, não gostaria. Mas vamos ter força.

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