PM confirma morte de soldado negro desaparecido em Heliópolis

Buscas por Leandro Martins Patrocínio resultaram em mais duas mortes na favela paulistana, uma durante ação da Rota e outra do Comandos e Operações Especiais, ambas do Policiamento de Choque; Ouvidoria quer apuração rigorosa sobre os três casos

Corpo do soldado Leandro Martins Patrocínio foi localizado em uma área de mata na Favela Heliópolis | Foto: Arquivo pessoal

A Secretara da Segurança Pública e a Polícia Militar confirmaram na tarde deste domingo (6/6) que exames periciais apontaram que o corpo encontrado na noite de sábado (5/6) em uma área de mata ao lado da Favela Heliópolis, no Sacomã, zona sul, era realmente o do soldado negro Leandro Martins do Patrocínio.

O cadáver foi localizado em um terreno na Avenida Guido Aliberti, via que faz divisa com a cidade de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Segundo a SSP, “as investigações sobre o caso prosseguem pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), que identificou três suspeitos envolvidos e representou pela prisão temporária deles ao Poder Judiciário”.

A Polícia Militar e o governador João Doria (PSDB) também lamentaram a morte do policial em suas redes sociais. Leandro Martins Patrocínio, que estava lotado na 1ª Cia do 1ª Batalhão da Polícia Militar Rodoviária, com sede às margens da Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, estava desaparecido desde a noite do sábado anterior (29/5). A última imagem do homem com vida foi captada por câmeras de segurança, que o mostram deixando a estação Sacomã do metrô e seguindo em direção à comunidade.

Durante as operações de buscas ao policial militar, ao menos duas pessoas foram mortas em ações da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e do COE (Comandos e Operações Especiais), ambas tropas do Comando de Policiamento de Choque. No mesmo dia em que o corpo foi localizado, policiais da Tropa de Choque e do Canil prenderam dois homens por tráfico. De acordo com a PM, foram localizados em uma casa 1.000 porções de cocaína, 150 porções de maconha, 400 pedras de crack, 114 porções de skunk, anotações sobre o tráfico e um prensa. A ocorrência foi apresentada no 16º DP (Vila Clementino).

A reportagem esteve na Favela Heliópolis durante a tarde e início da noite de sábado (5/6). Além de muitos carros da polícia, incluindo blindado, o clima na comunidade era de tranquilidade, com muitas pessoas em bares e lanchonetes. A presença policial se dava apenas nas vias principais, como Estrada das Lágrimas, Almirante Delamare e Guido Aliberti.

Procurado pela Ponte o ouvidor da Polícia Elizeu Soares Lopes informou “que a morte do soldado Leandro Martins Patrocínio precisa ser rigorosamente apurada”. “A Ouvidoria vai acompanhar o caso com atenção. Precisamos de uma cultura de paz no país. Vou requisitar à Corregedoria da Polícia Militar, ao DHPP e ao Ministério Público que apurem rigorosamente as mortes ocorridas na operação de buscas, conforme divulgado nas redes sociais e na Ponte Jornalismo. Violência não se combate com mais violência”. De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 35% dos policiais brasileiros são negros, ao mesmo tempo em que 65% dos policiais mortos no país são negros.

Policia militar estava lotado no Batalhão de Policiamento Rodoviário | Foto: Reprodução

Natural do Rio de Janeiro e sem familiares em São Paulo, a ausência do PM Patrocínio foi notada por seus colegas de trabalho, uma vez que ele deveria ter se apresentando no batalhão ainda nas primeiras horas do domingo anterior (30/5). Sem informações de seu paradeiro, iniciou-se uma varredura, que resultou na obtenção do vídeo, além da informação de que teria realizado uma compra em um bar no interior da favela.

A partir daí, diversas unidades da Polícia Militar, como COE, Rota, Tropa de Choque, Canil e Segundo Batalhão de Choque, além da Polícia Civil e do Canil da Guarda Civil Metropolitana, sitiaram a comunidade em busca de informações que levassem ao paradeiro de Patrocínio.

Com ajuda de denúncias anônimas, a força-tarefa encontrou, em um possível cativeiro, o relógio que era utilizado pelo policial. Denúncias também apontaram o local em que o corpo havia sido enterrado, num área de mata entre as avenidas Almirante Delamare e Guido Aliberti. Foi nessa área que, com o auxílio de cães e retroescavadeiras, o Corpo de Bombeiros encontrou o cadáver.

Mesmo com a morte do soldado Patrocínio sob investigação, já é possível se dizer que ela é semelhante ao assassinato da cabo Juliane dos Santos Duarte, ocorrida na Favela de Paraisópolis, em agosto de 2018. Segundo reportagem do UOL, ambos foram colegas de turma na corporação. Os dois ingressaram no Batalhão Rodoviário no mesmo ano. Leandro ficou três anos em Campinas, no interior, e Juliane atuou no batalhão por um ano. Negra, lésbica e periférica, cabo Juliane foi sequestrada, torturada e assassinada por integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). Seu corpo foi deixado em um carro abandonado no Socorro, nas proximidades da Marginal Pinheiros.

Cabo Juliane dos Santos Duarte foi assassinada em 2018 na Favela Paraisópolis | Foto: Arquivo pessoal

Outras mortes

O assassinato de Leandro Martins Patrocínio não foi o único em uma semana no entorno da Favela de Heliópolis, a maior de São Paulo, com cerca 200 mil habitantes.

Assim que o comando da PM soube do desaparecimento do soldado Patrocínio, diversas unidades de elite e blindados se dirigiram à região, na chamada Operação Saturação, que tem como uma das finalidades asfixiar o tráfico de drogas e mostrar o poderia bélico da corporação. Uma das primeiras tropas a chegar ao local foi a Rota.

No início da noite de segunda-feira (31/5) um homem foi morto na Rua Attílio Bartalini, na Cidade Nova Heliópolis. Segundo a versão da Secretaria da Segurança Pública, “equipes do 1º Batalhão de Choque iniciaram a abordagem a quatro suspeitos que fugiram. Houve acompanhamento e um deles atirou contra os agentes, que intervieram. O homem foi baleado e prontamente socorrido por uma equipe do Resgate, ao PS Ipiranga, mas não resistiu aos ferimentos”.

A nota da SSP afirma que “uma arma de fogo e duas mochilas contendo porções de drogas foram apreendidas no local”. O caso é investigado pelo DHPP. O texto da Secretaria da Segurança Pública se preocupou em afirmar que a ação ocorreu “fora da comunidade de Heliópolis”, no entanto, tal local fica a poucos metros da Avenida Guido Aliberti, mesmo ponto onde o corpo do PM foi localizado.

A morte se deu poucos dias antes da Rota, a tropa mais letal da PM de São Paulo, passar a usar câmeras junto ao uniforme, o que está em funcionamento desde a última sexta-feira (4/6).

A outra morte ocorreu na quinta-feira (3/6). Policiais militares do COE (Comandos e Operações Especiais), especialistas em ingresso em mata ou áreas consideradas de difícil acesso, mataram a tiros de fuzil Bruno Silva Pereira, 24 anos. O jovem, que já havia sido preso por envolvimento com o tráfico de drogas, foi morto dentro de casa.

De acordo com o boletim de ocorrência, os PMs Diego Luiz de Oliveira e Wesley Croce de Sousa foram acionados para verificar uma denúncia anônima sobre um indivíduo que estaria envolvido no desaparecimento do soldado. Ao chegarem no local, uma casa na Rua Capitão do Mato, informam que avistaram Bruno Silva Pereira na cama e que ele efetuou um disparo ao avistar a dupla. O registro diz que “os militares foram obrigados a revidar” e que Bruno foi atingido e levado ao Hospital de Heliópolis, mas não resistiu.

A equipe de perícia do DHPP, da Polícia Civil, informou que não conseguiu constatar os ferimentos de Bruno porque o corpo se encontrava no hospital e que não foram ao local por “protocolos de segurança” em virtude da Covid-19. Informaram que localizaram câmeras na Avenida Estrada das Lágrimas e na Rua Castelo dos Sonhos, próximas ao local.

Depois, diz o documento, os policiais retornaram à casa com o auxílio da equipe de canil e teriam encontrado substâncias que aparentavam ser drogas. Foram apreendidos dois fuzis pertencentes aos policiais, um revólver calibre 38, uma mochila, folhas de papéis contendo contatos telefônicos, documento sobre benefício de regime aberto relacionado a Bruno, um cortador de unha, 68 invólucros com substância esverdeada, sete tijolos prensados com substância esverdeada, 76 embalagens com substância branca, comprimidos, chaves, um celular e R$ 1.902 em espécie. Também a perícia apreendeu seis munições deflagradas correspondentes aos fuzis dos PMs, um projétil amolgado (“amassado”) e quatro fragmentos de projétil. Todo o histórico do boletim de ocorrência foi narrado pela equipe de perícia do DHPP.

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