Ponte faz parceria com Black Adnet, rede afrocentrada que une veículos a anunciantes

Valorizando o protagonismo negro e o jornalismo de causas, a Black Adnet quer atrair grandes marcas para fortalecer coletivos e mídias independentes como a Ponte

Black Adnet é a primeira rede de sites e creators pretos da América Latina | Foto: Reprodução site BlackAdnet

Fazer jornalismo exige tempo, dedicação e investimento. Toda pauta e denúncia precisa ser trabalhada desde a sua apuração até a sua divulgação. Nas mídias independentes, esse processo se torna ainda mais desafiador, pois todo o apoio para sua realização vem de leitores, fundações, serviços e conteúdos produzidos. Visando a sustentação do seu trabalho, a Ponte fez uma parceria com a Black Adnetwork, uma rede pensada para aproximar grandes marcas de veículos e coletivos.

Criada em 2020, a rede foi fundada pela agência Alma Preta Jornalismo em parceria com a agência Zygon Adtech, uma empresa de tecnologia que também cuida da distribuição e monitoramento das campanhas. Hoje, a Black Adnet conta com 26 mídias especializadas em direitos humanos, nas questões raciais, de gênero e voltadas para as periferias. Esse coletivo impacta mais 2 milhões de usuários por mês e acabou viabilizando a conexão com os anunciantes de uma forma específica. Toda campanha intermediada precisa ser afrocentrada e voltada às temáticas abordadas pelos veículos, ou seja, é imprescindível que o conteúdo tenha relevância social.

Em entrevista à Ponte, a cofundadora da Black Adnet e sócia e diretora da Alma Preta, Elaine Silva, explica o caminho para que o conteúdo seja aprovado: “Primeiro, esses anúncios passam por mim. Então, não aprovo nenhum tipo de conteúdo que aborde racismo e que não conversa com o que os veículos de comunicação distribuem nas suas plataformas, por exemplo, empresas de aplicativo de entregas. Olhamos muito o histórico de cada empresa para fazer a veiculação dos anúncios”.

Cofundadora da Black Adnet e diretora do Alma Preta, Elaine Silva faz a ligação entre as mídias independentes da rede. | Foto: Divulgação

Segundo ela, cada mídia, como a Ponte, também tem a liberdade de escolher o que será veiculado de acordo com os seus princípios editoriais. Em dezembro de 2020, por exemplo, a Ponte publicou em suas redes sociais e fez um publieditorial de uma campanha da Avon sobre a luta antirracista. Neste mês de julho, uma campanha em vídeo do guaraná Kuat sobre pluralidades regionais e culturais está sendo anunciada no Youtube e no Google. Os critérios adotados pela Ponte são de diversidade de gênero e raça, respeito às diferentes formas de expressão e a valorização de culturas.

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O contato com as agências de publicidade e o acompanhamento da criação e produção das campanhas fica sob responsabilidade da Black Adnet. Como o custo dos banners nos sites varia a cada mil visualizações, o pagamento é feito de acordo com a audiência de cada meio de comunicação. Na negociação, as agências não têm acesso à audiência específica de cada veículo, somente ao volume total.

“Pensamos muito mais na estrutura da campanha. Diferentemente das outras ad networks, o nosso público é extremamente segmentado. Quando os anunciantes procuram ad netwoks, geralmente é uma gama de sites que eles não sabem para onde vai o anúncio e podem ir em sites de fake news por exemplo. No nosso caso não. Não fazemos leilão e não temos exclusividade com o anunciante”, explica Elaine Silva sobre a credibilidade das mídias e o compromisso com as causas sociais.

Para ela, os conteúdos das marcas chegam de forma objetiva e clara ao público que a rede atende, que são em sua maioria pessoas negras, periféricas, LGBT. “A gente faz um trabalho com as marcas de continuidade e não de imediatismo. Hoje se uma marca lança um produto específico existe a necessidade de que aquele produto chegue as pessoas para que possa vender em grande escala, por exemplo. Esse imediatismo não é prioridade e sim construir um elo entre consumidor e marca”, afirma. A Black Adnet também tem o propósito de estimular que as marcas direcionem seu trabalho à população negra, desde a produção das peças publicitárias, e que afroempreendedores ganhem protagonismo.

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Por outro lado, a parceria com os veículos independentes vai além do público. “A ideia é fazer com que a nossa rede cresça para que a gente possa captar cada vez mais recurso. Por exemplo no Ceará e em Manaus, que tem muitos veículos de comunicação lutando para sobreviver em meio à pandemia e não tem recursos para se manter. A ideia principal da BlackAdnet é não só fazer com que a gente consiga furar essa bolha da publicidade e propaganda, mas fazer com que esse recurso chegue a lugares de difícil acesso e a pessoas que não são percebidas nas grandes mídias”, reitera a cofundadora.

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