Porta-voz da PM de SP sugere que Ponte recebe dinheiro do crime, mas recua

05/10/16 por Ponte Jornalismo

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Emerson Massera questionou em rede social: “Haveria uma Ponte entre o jornalismo e o crime?”. Depois, pediu desculpas

Ao compartilhar, na madrugada desta quarta-feira (5), a publicação do desembargador Ivan Sartori, que acusou parte da imprensa e de organizações de Direitos Humanos de receberem dinheiro do crime organizado, o major Emerson Massera, porta-voz da Polícia Militar do Estado de São Paulo, sugeriu que o recado foi dado à Ponte Jornalismo. “Haveria uma Ponte entre o jornalismo e o crime?”, questionou, em alusão a este site. Depois, arrependido e reconhecendo que errou, excluiu a publicação.

Relator do processo que anulou os julgamentos que condenavam 74 PMs pelos 111 homens mortos no Massacre do Carandiru, em 2 de outubro de 1992, Ivan Ricardo Garidio Sartori deu a entender, em um texto divulgado em sua página no Facebook, que a imprensa e organizações de Direitos Humanos poderiam ser financiadas por dinheiro do crime organizado.

“Diante da cobertura tendenciosa da imprensa sobre o caso Carandiru, fico me perguntando se não há dinheiro do crime organizado financiando parte dela, assim como boa parte das autodenominadas organizações de direitos humanos”, afirmou o magistrado. Em seu voto, no processo da anulação dos júris, ele sugeriu que todos os PMs fossem absolvidos, sob o argumento de que os presos estavam armados e que os policiais agiram em legítima defesa.

Major Emerson Massera (Foto: Reprodução/Rádio Joven Pan)

Major Emerson Massera (Foto: Reprodução/Rádio Joven Pan)

Repúdio 

Em nota oficial, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo repudiou “tanto a posição expressa pelo desembargador Ivan Sartori, quanto a posição expressa pelo porta-voz da PM, o major Emerson Massera, em sua rede social.” Confira, abaixo, na íntegra, a nota assinada pelo presidente do sindicato, Paulo Zocchi:

“Primeiro, o Massacre do Carandiru é um crime hediondo. E que chocou, não só a sociedade brasileira, como a consciência democrática mundial. E a decisão tomada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, 20 anos depois, choca pelo apoio à impunidade diante de um crime tão grave.

Quando o desembargador e o major da PM atacam a imprensa, no caso do major explicitamente, a Ponte Jornalismo, que tem como especialização a defesa dos Direitos Humanos, eles, além de estarem praticando infâmia, tratam o Massacre como se fosse a solução contra a criminalidade, quando a gente sabe que é exatamente esse Massacre que está na origem do PCC.

O Estado tem que garantir as condições de quem prende, e, se não faz isso, está favorecendo uma posição de barbárie e guerra aberta. Veículos como a Ponte fazem um trabalho fundamental ao acompanhar o trabalho policial de forma crítica e independente, praticando, assim, a defesa da democracia brasileira ao fiscalizar e questionar o braço armado da sociedade, que é a polícia.

Então, a Ponte faz um trabalho que tem que ser defendido e fortalecido. Quando o porta-voz da PM ataca um veículo critico à decisão do tribunal, como foi o caso, ele quer proteger todo tipo de abuso e violência ilegal praticados pelo braço armado da sociedade.”

Protesto

A jornalista Claudia Belfort, uma das fundadoras da Ponte Jornalismo, respondeu em seu Facebook pessoal a postagem do major Massera. “Se o senhor Emerson Massera, porta-voz da PM, tem dúvidas se há uma Ponte entre jornalismo e crime, posso responder em alto e bom som: HÁ! Uma Ponte Jornalismo que leva a sociedade a ver um cenário de crimes que muitos querem manter debaixo do tapete“, afirmou.

“Uma Ponte que sempre vai buscar ligar os pontos entre criminosos poderosos, entre um Estado criminoso e a obrigação de revelar seus espúrios interesses e delitos à população.”

Uma Ponte que abre caminhos para expor uma polícia militar criminosa, que mata negros e pobres pelas costas, que mata jovens dentro de uma escola com tiro no peito, que joga rapazes rendidos de um telhado, que “suicida” homens algemados.

Uma Ponte para levar aos olhos da sociedade a complacência também criminosa de integrantes do judiciário cegos diante de provas que inocentam um rapaz de 17 anos preso injustamente dentro de sua casa.

Eu faço parte de uma Ponte como essa e com muito orgulho, a Ponte Jornalismo. Espero que surjam outras e que isso acabe com suas dúvidas. Ou prefere que desenhe?”.

Retratação

Após excluir a postagem em sua rede social, o major Massera pediu desculpas pessoais a alguns integrantes da Ponte Jornalismo. E não à Ponte Jornalismo. Ele reconhece que, na “declaração que fez na noite passada”, “foi interpretada como insinuação de que a Ponte Jornalismo recebe dinheiro do crime. O fato de você ter se sentido ofendida [Claudia Belfort], a ponto de fazer uma postagem em sua rede social, mostra-me que errei, motivo pelo qual busco a retratação”, disse.

“Conheço e tenho relação de cordialidade com alguns profissionais que colaboram com o site e lamento ter me expressado de forma infeliz e injusta, pois reconheço que os coloquei num mesmo patamar, evidenciando meu erro. O trabalho sério e competente que você faz, aliado aos inúmeros elogios que já ouvi a seu respeito, como sendo uma profissional correta e muito honesta, me levaram a escrever esta carta para pedir desculpas”, afirmou Massera e completou: “Já retirei o texto de meu perfil no Facebook, como demonstração do que falei acima. Não pleiteio que retire suas críticas ou que faça menção ao pedido de desculpas, somente que as aceite. Estenda, por favor, este pedido a todos os que eventualmente eu ofendi”, conclui.

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