Procurador aponta incapacidade da PF em monitorar fóruns de ódio na internet

Discussão sobre grupos de racistas, misóginos e que incitam crimes na deep web ganhou força depois que massacre em Suzano foi comemorado no Dogolachan; terroristas que atacaram mesquitas na Nova Zelândia publicaram manifesto em fórum

Velório de vítimas do massacre em Suzano, comemorado em chans | Foto: Renan Omura/Ponte

A existência dos chans, fóruns anônimos racistas, homofóbicos, misóginos e que incitam crimes como pedofilia e estupro, não é novidade. A Ponte investiga a atividades desses grupos desde 2017, já fez denúncias e traçou o perfil dos usuários, que são, majoritariamente, incels – os celibatários involuntários – homens que não conseguem fazer sexo e culpam as mulheres e o mundo por isso. Mas o tema voltou com toda força nesta semana, depois do massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, quando dois ex-alunos entraram na instituição e mataram 7 pessoas – 5 estudantes e duas funcionárias. Em seguida, se mataram ao verem a chegada da Polícia Militar.

Imediatamente, os integrantes de um desses fóruns, o Dogolachan, começaram a postar comemorações e mensagens que atribuíam heroísmo à barbárie que os dois atiradores – Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro – tinham acabado de cometer. Não demorou muito para que os participantes do chan começassem a questionar se os dois seriam “dogoleiros”, ou seja, frequentadores do fórum. Até o momento, a verdade é que não há nada que comprove isso. Contudo, o delegado-geral de SP, Ruy Ferraz Fontes, em coletiva na quinta-feira (14/3), admitiu que essa é uma hipótese que ainda não foi descartada e que será apurada. O Ministério Público de SP também se pronunciou a esse respeito e disse que essa suspeita de que o ataque possa ter sido planejado nesses fóruns hospedados na deep web será investigada.

Nesta sexta-feira (15/3), terroristas invadiram duas mesquitas na Nova Zelândia com rifles e mataram pelo menos 49 pessoas, além de deixar dezenas de outras feridas. Um deles, Brenton Tarrant, 28 anos, publicou um manifesto de extrema-direita em um chan, intitulado 8chan, antes do crime. O texto de mais de 70 páginas fala de supremacia branca e é contrário à imigração. Ele transmitiu a barbárie pelo Facebook, que excluiu o vídeo e a conta.

Embora os crimes não sejam comparáveis, em ambos o tema dos “chans” aparece. No Brasil, a Polícia Federal vive uma antiga queda de braço com esses fóruns. Em alguns casos, teve êxito, como na Operação Bravata que prendeu Marcelo Valle Silveira Mello, apontado como um dos criadores do Dogolachan, que existe desde 2012. Marcelo foi condenado, no ano passado, a mais de 40 anos de prisão por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação ao cometimento de crimes – como estupro e feminicídio – e terrorismo cometidos na internet. Quando tudo isso aconteceu, o Dogolachan saiu do ar na surface web, ou seja, que está na superfície, que é visível e pode ser detectada por buscadores que qualquer um conhece como Google, por exemplo, e foi para a deep web, que é justamente o contrário. Nesse local, de difícil acesso e onde é possível ficar totalmente anônimo, o participantes do Dogolachan atualmente operam livremente, cometendo os mesmos crimes pelos quais Marcelo foi condenado.

Foi em um desses “chans” que Wellington Menezes de Oliveira, responsável pelo Massacre de Realengo, Rio de Janeiro, virou herói. André Luiz Gil Garcia, conhecido como Kyo, frequentava o Dogolachan e matou uma jovem, em junho do ano passado, em Penápolis, interior de São Paulo, por pura misoginia. Nunca tinha visto a vítima na vida. Quem melhor relatou essa história é a blogueira feminista e professora universitária Lola Aronovich, que já foi vítima de tentativas diversas de assassinato de reputação por parte dos “dogoleiros”, além de ameaças de morte.

Em janeiro deste ano, a Ponte descobriu que parte das ameaças de morte que fizeram o ex-deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) decidir sair do país eram arquitetadas e saíam do Dogolachan. Um dos e-mails era de 28 de janeiro de 2019 e faziam ameaças ao parlamentar e à mãe dele: “Meu maior desejo é te decapitar e postar o vídeo na Deepweb. Você e sua querida mãe”. Importante destacar que a autoria é atribuída a Emerson Rodrigues Setim, que chegou a ser preso na mesma operação que capturou Marcelo, em maio do ano passado, mas conseguiu fugir. No entanto, como a trollagem é muito comum entre os “dogoleiros”, não é possível ter certeza se foi Emerson mesmo quem escreveu o e-mail ou se é uma vingança do grupo contra ele.

Na ocasião, uma fonte ligada à Polícia Federal admitiu que a corporação estava apurando as ameaças a Jean mas desconhecia a operação do Dogolachan ou de qualquer outro fórum semelhante.

O procurador federal Daniel de Alcântara Prazeres, do grupo de combate a crimes cibernéticos com enfoque em racismo e pornografia infantil, investiga um caso específico desse tipo de fórum e explica que um monitoramento qualificado não existe por falta de estrutura. O procurador, que também já foi vítima de doxxing no chan – prática que consiste em escrutinar dados pessoais como CPF, endereço, telefone da vítima e divulgar – disse que a falta de técnicos especializados deixa investigações como essa ainda mais vagarosas.

“Não funciona [monitoramento]. São dois delegados, sendo que a delegacia chama DELINST (Delegacia de Assuntos Institucionais), que atua junto ao MPF nesse tema. Eu não tenho perito na polícia. O núcleo de perito na Polícia Federal do Rio é desfalcado. No caso de pornografia infantil, quando a gente apreende o computador do cara, nem é deep web. Mas a perícia às vezes demora três meses e a gente fica com o réu preso esperando. Eu posso te dizer com quase toda certeza que não existe acompanhamento disso. Pelo menos na deep web não. O que a gente tem é o acompanhamento, por exemplo, de quem está baixando e compartilhando de pornografia infantil, que é mais fácil. E tem uma questão territorial aí que complica a investigação”, explica, em referência ao fato de que esses sites ligados ao Dogolachan são hospedados fora do país.

Para Renato Opice Blum, advogado e professor coordenador dos Cursos de Direito Digital e Proteção de Dados do Insper, o monitoramento eficiente da deep web é difícil, mas não impossível. “É possível monitorar e ter bons resultados. É difícil, mas dá para fazer” afirmou à Ponte. Ele explica que a questão do anonimato e da “maquiagem” do IP (a identificação do computador) que é feito por softwares como TOR impedem a identificação da autoria. “Com o IP é possível identificar o autor. Já a navegação em TOR vai mascarando a identificação. São diversos IPs falsos em forma de ‘cebola’. Dá mais trabalho a investigação e são necessárias mais informações para se chegar até o autor”.

Sobre a imputação de crimes a esses participantes, Renato alerta que é preciso investigar para identificar autoria e materialidade. “O fato, por exemplo, de acessar não tem crime algum. Compartilhar, sim. Aí depende do que foi compartilhado”, pondera o especialista.

Atualmente sabe-se que o Dogolachan já foi ou é alvo de investigações no Rio de Janeiro, pelo processo do Rio de Nojeira e no Paraná, de onde foi acionada a Operação Intolerância e Bravata em 2011 e 2018 respectivamente.

A Ponte procurou a seção Rio, Paraná e a seccional São Paulo da Polícia Federal, mas nenhuma dessas respondeu às perguntas mandadas pelas reportagens. Os questionamentos às duas primeiras giravam em torno de acompanhamentos de processos relacionados ao Dogolachan nos respectivos Estados.

A assessoria da comunicação da Polícia Federal em Brasília também não respondeu as perguntas enviadas, em especial o questionamento se é possível para a instituição – em âmbito nacional – criar um grupo de monitoramento cibernético a esse e outros fóruns de natureza semelhante.

Até esta sexta-feira (15/3), o Dogolachan funcionava normalmente e seus participantes, que sofrem de carência aguda e necessidade de atenção, adorando a publicidade, que eles chamam de “lulz”. O delegado-geral de SP, Ruy Ferraz Fontes, inclusive, citou um termo a respeito dos atiradores de Suzano que coaduna bastante com o perfil dos dogoleiros: gostar de aparecer. “Como não são reconhecidos na comunidade onde vivem, ou ao menos não se sentem reconhecidos, querem mídia”, declarou.

No fórum, repórteres que estão denunciado a atividade do grupo estão sendo alvo de ameaças e tentativa de doxxing. Como todo frustrado, algum deles chegou a questionar: “Quanto tempo até surgirem as primeira Suzanetes?”.

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