Projeto artístico nas ruas expõe discurso de ódio contra população LGBT

05/01/19 por Paloma Vasconcelos

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Criado por designer periférico como trabalho de conclusão de curso, ‘Lambe da esquina’ tem como objetivo explicitar ataques e causar reflexão na sociedade

Designer Bruno Herbert com o livro apresentado na faculdade | Foto: Arquivo pessoal

A violência contra LGBTs, do discurso de ódio aos assassinatos, é tema central de uma pesquisa feita por Bruno Herbert, 22 anos, morador de Parelheiros, periferia da zona sul de São Paulo, a fim de explicitar os danos causados pelo discurso de ódio e gerar reflexão da população como um todo . O projeto foi apresentado como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de design gráfico no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e ganhou corpo ao ser disseminado pelas paredes da cidade.

De TCC para a vida real, o artista optou por passar a mensagem ao usar lambe-lambe (cartazes artísticos colados em espaços públicos como postes, paredes e praças) espalhados por diversos locais. A arte está desde o vão livre do Masp, na região central de São Paulo, até bairros periféricos, como Parelheiros e Grajaú, ambos na zona sul da capital paulista.

A intervenção artística teve como foco expor o discurso de ódio contra LGBTs para causar incômodo na população. Em entrevista à Ponte, Bruno conta que falar do seu projeto é mergulhar em seus processos pessoais, entendendo como eles guiaram e moldaram sua trajetória enquanto LGBT. Ele explica que, durante a graduação, seu ativismo veio junto do processo de autoconhecimento.

“Minha vontade de falar [sobre o discurso de ódio] veio depois de muitas negações pessoais, depois de me permitir e de entender a complexidade de atitudes que eu enxergava como normal. Veio [do processo] de entender quem sou e o que isso significa, veio de experiências boas e ruins dentro e fora de uma comunidade, veio com o pensar plural e entender que há histórias e situações dentro da diversidade. Minha vontade de falar sobre isso veio da vontade de aprender, e isso é constante. Veio de cansar das notícias, das mesmas falas, da falta de responsabilidade, veio da tristeza, da raiva”, desabafa Bruno.

Lambe-lambe colado em Parelheiros, extremo sul de São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

O designer relata que percebeu a importância de mostrar para as outras pessoas a urgência de falar sobre a LGBTfobia, uma vez que o Brasil é o país que mais mata a população LGBT em todo o mundo. Segundo um relatório feito pelo GGB (Grupo Gay da Bahia), um LGBT morre a cada 19 horas no Brasil. Somente em 2017, 445 homicídios foram registrados, número 30% maior comparado aos 343 casos de 2016 e 242% acima em relação aos 130 assassinatos de 2000.

“Meu TCC virou uma pauta social e ativista por conta de tudo o que tive conhecimento e acesso, veio de uma urgência de pedir para que as pessoas tenham responsabilidade social sobre aquilo que dizem, porque o que dizemos chega em alguém com algum impacto – bom ou ruim – , e o grande ponto é que há todo um discurso de ódio naturalizado indo de encontro com as pessoas”, explica Herbert.

O “Lambe da esquina” nasce, segundo Bruno, com a necessidade de dizer que “o discurso tingiu a bandeira de sangue”. Para ele, além das reflexões pessoais acerca do ódio disseminado na atualidade, o projeto ganha vida como um estudo histórico de como as narrativas geraram contextos em solo nacional.

“O projeto nasce de um resgate pessoal e coletivo sobre os xingamentos, as coerções e as centenas de histórias de vidas interrompidas. Ele surge com o propósito de trazer reflexão sobre situações naturalizadas mostrando que os discursos cotidianos geram consequências e ações, que necessitam de uma mudança. Então, ele se materializa numa tentativa de denunciar e questionar, de informar e sensibilizar, de fazer as pessoas apontarem os dedos para elas mesmas analisando os locais que ocupam socialmente e como, às vezes sem perceber, reiteram uma opressão no simples ato de falar, pois a fala se materializa em ações coletivas”, defende o designer.

O projeto

Uma das maiores dificuldades enfrentadas por Bruno Herbert ao longo do desenvolvimento do projeto foi encontrar fundamentos teóricos sobre a LGBTfobia, conforme explica o designer. Buscando um projeto acessível, de fácil entendimento para todos, Bruno usou uma linguagem visual mais literal e textos mais simples, para não gerar ruído. “Essa preocupação foi importante para que não fosse um trabalho acadêmico que chegasse apenas para quem acessou a universidade, mas também pessoas como a minha mãe”, explica o designer.

Lambe-lambe colocado no vão livre do Masp | Foto: Arquivo pessoal

Agora, Bruno quer colar mais cartazes e experimentar outras formas de comunicar a LGBTfobia no design, expandindo o aprendizado. Num primeiro momento, o designer criou doze versões de cartazes, sendo seis narrativas textuais e seis narrativas visuais, que, apesar de serem diferentes, conversam entre si.

“A quantidade foi pensada para que fossem contempladas algumas das siglas do grupo LGBT+ e as histórias cotidianas sobre o que cada uma de as siglas já passou ou pode passar. A demanda de histórias é certamente muito maior, mas foram necessárias algumas delimitações de casos para que o trabalho pudesse ser concluído. O projeto comporta peças que falam de uma bicha, uma lésbica, uma pessoa bissexual, um homem trans, uma travesti, e uma pessoa não-binário em situações de opressão e convidam as pessoas a repensarem seus discursos”, explica Herbert.

Bruno conta que voltou em alguns locais para saber como seu projeto foi recebido. Para ele, os cartazes lambe-lambe têm vida curta, uma vez que ficam expostos e podem sofrer desgastes, seja pela ação humana ou fatores da natureza.

“Voltei em alguns espaços para ver como as mensagens foram aceitas, para ver em quais espaços elas mais incomodaram. Isso me mostrou mais uma face da LGBTfobia, uma vez que, quando rasgados, os cartazes evidenciam a intolerância e comprovaram a recepção da mensagem provando que o diálogo, principal ponto deste projeto, de fato se estabeleceu para que a reflexão se estabelecesse. Se ele chegou em alguém que rasgou, certamente chegou até outras pessoas”, conclui o designer.

Cartaz do projeto aparece rasgado na Vila Madalena | Foto: Arquivo pessoal

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