Emicida: Quando 18 pessoas morrem em uma cidade e ninguém fala nada, essa cidade também está morta

24/08/15 por Luís Adorno

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Rapper relembra série de atentados em Osasco e Barueri enquanto cantava a música “Chapa” em apresentação no Sesc Pinheiros
Emicida no lançamento oficial do álbum "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa", no Sesc Pinheiros

Emicida no lançamento oficial do álbum “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, no Sesc Pinheiros

O horário era aproximadamente 22h30. A data, sábado (22). Nove dias antes, na mesma hora, as cidades de Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, eram atacadas por criminosos que mataram 18 pessoas. Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, que, nos seus recém completados 30 anos de vida já se tornou um nome importante na luta contra o racismo e a desigualdade social no Brasil, relembrou a noite daquela quinta-feira (13) em uma apresentação no lotado Sesc Pinheiros.

Em meio à letra “Chapa”, que narra a história de alguém que sumiu e a angústia daqueles que amam e querem o bem do personagem, o rapper lembrou das vítimas do maior ataque no Estado desde os Crimes de Maio, em 2006. “Chapa, quando 18 pessoas morrem em uma cidade e ninguém fala nada, essa cidade também está morta”, afirmou Emicida. “O que dói mais do que a chacina, muito mais do que os mortos, é o silêncio”, emendou.

Em “Chapa”, está explícita a dor da saudade. “Chapa, desde que cê sumiu / Todo dia alguém pergunta de você / Onde ele foi? Mudou? Morreu? Casou? / Tá preso, se internou, é memo? Por quê?”. No final, o sentimento é de esperança. “Mal posso esperar o dia de ver você / Voltando pra gente / Só voz avisar, o portão bater / Você de um riso contente / Vai ser tão bom, tipo São João / Vai ser tão bom, que nem réveillon / Vai ser tão bom, Cosme e Damião / Vai ser tão bom, bom, bom”.

As famílias de Fernando Luiz de Paula, Eduardo Oliveira dos Santos, Thiago Marcos Damas, Leandro Pereira Assunção, Antônio Neves Neto, Tiago Teixeira da Souza, Adalberto Brito da Costa, Igor Silva Oliveira, Rafael Nunes de Oliveira, Presley Santos Gonçalvez, Eduardo Bernardino César, Rodrigo Lima da Silva, Deivison Lopes Oliveira, Jailton Vieira de Silva, Joseval Amaral da Silva e Wilker Thiago Correa Osório jamais terão o mesmo final de “Chapa”.

Investigações

A Corregedoria da PM (Polícia Militar), que investiga o caso desde o dia 15, suspeita que 11 soldados, cinco sargentos e dois cabos da corporação estejam envolvidos nos ataques de Osasco e Barueri. Seis dias antes dos crimes, um policial militar que trabalhava em Osasco foi executado. Um dia antes, um GCM (guarda civil metropolitano) foi morto em Barueri. Desde a morte do cabo Avenílson Pereira de Oliveira, de 42 anos, no dia 7, alguns policiais se movimentaram entre si para buscar a arma que foi levada do PM após o assassinato.

Na segunda-feira (17), o secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, afirmou que a polícia já tinha os nomes de possíveis envolvidos na chacina. “Conseguimos definir a existência de três grupos distintos. Um grupo que atuou em Barueri, porque as armas são as mesmas nos dois eventos de Barueri, não só os estojos encontrados no local do crime, como também os projéteis nas vítimas. E dois grupos diferentes, que atuaram com armas diferentes, com veículos também diferentes em Osasco”, disse.

Laudos parciais do Instituto de Criminalística confirmaram que os estojos e projéteis encontrados nos locais dos atentados pertencem a armas de calibre 38, 380 – ambas de uso da GCM (Guarda Civil Metropolitana); 9 mm – de uso restrito das Forças Armadas e PF (Polícia Federal); e 45 – utilizada pelas polícias federal, militar e civil.

Na terça-feira (18), a Corregedoria ouviu todos os policiais que trabalhavam em Osasco e Barueri na noite do dia 13. Ao todo, 32 agentes – do 42º BPM, em Osasco, onde Avenílson estava lotado, e do 20º BPM, em Barueri – foram ouvidos. Testemunhas dos crimes também foram convocadas para prestar esclarecimentos.

Os atentados

Ao todo, as 18 pessoas morreram em oito endereços diferentes, num raio de 10 km. O primeiro e maior dos ataques da chacina aconteceu às 20h30. Foi contra frequentadores de um bar na rua Antônio Benedito Ferreira, no Jardim Munhoz Júnior, na divisa entre Osasco e Barueri. Dez homens foram baleados – quatro morreram no bar e outros seis, no hospital.

Com dez vítimas, essa foi a terceira maior chacina (um ataque com três ou mais vítimas no mesmo lugar) no Estado de São Paulo. As duas primeiras ocorreram também em cidades da região metropolitana, nos anos 1990: 12 mortos em um bar em Taboão da Serra, em junho de 1994; e 12 mortos também em um bar de Francisco Morato, em junho de 1998.

Depois, ainda em Osasco, outras cinco pessoas foram assassinadas nas ruas Moacir Sales D’Ávila, Cuiabá, Professor Sud Menucci, Vitantônio D’Abril, além da avenida Eurídico da Cruz. Em Barueri, duas pessoas foram mortas dentro de um bar localizado na rua Irene. Imagens do circuito interno de segurança do estabelecimento flagraram três homens colocando as pessoas de costas na parede. Antes de atirar, perguntaram que tinha passagem na polícia. Aqueles que responderem positivamente foram assassinados à queima roupa. Um outro rapaz foi morto na rua Carlos Lacerda, também em Barueri.

O “Profissão Repórter”, da Rede Globo, revelou na terça-feira (18) que outras cinco pessoas foram mortas em Osasco na madrugada do dia 8 de agosto, um dia depois da morte do cabo Avenílson. Naquele final de semana, uma outra pessoa também foi executada. Assim, pelo menos seis pessoas morreram na cidade antes da noite com 18 vítimas fatais. No primeiro semestre deste ano, Osasco teve uma média de cinco assassinatos por mês.

Outro lado

Procurada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) não se manifestou.

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