Salvo pelo STF, prefeito acusado de lavagem de dinheiro anuncia retorno

Após vitória em votação na suprema corte, Ney Santos, prefeito afastado de Embu das Artes (SP), anuncia que voltará ao cargo, mas não diz quando

O prefeito Ney Dantas durante jogo de futebol beneficente em Embu das Artes | Foto: Facebook

O prefeito afastado de Embu das Artes (Grande SP), Ney Santos (PRB), anunciou que pretende voltar ao comando da prefeitura, após uma decisão do  Supremo Tribunal Federal (STF) ter garantido que Santos poderá continuar a responder em liberdade às acusações de lavagem de dinheiro e liderança de organização criminosa.

Na tarde de ontem (7/3), o secretário de comunicação da Prefeitura, Jones Donizette, informou à Ponte que Santos pretendia voltar a ocupar o cargo na semana que vem. Minutos depois, voltou atrás e disse que “ele vai voltar”, porém não sabe quando.

Santos havia pedido o afastamento do cargo na segunda-feira, na véspera da votação de seu habeas corpus no STF, segundo ele, “para que a disputa judicial não atrapalhe os projetos que estão sendo desenvolvidos em prol de nosso povo”. Os vereadores aprovaram seu pedido e ele foi substituído pelo vice, Peter Calderoni (MDB).

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público Estadual, estaria investigando a hipótese de que Santos teria fugido em uma aeronave clandestina para o Paraguai, a fim de evitar a possibilidade de prisão, conforme informações da desembargadora Ivana David Boriero, responsável pelo processo. A informação, divulgada no site da Band, é negada pela assessoria e pelos advogados de Santos.

“[A notícia sobre a fuga é] fake news fabricada para tentar influenciar negativamente o julgamento. Claudinei esteve na cidade de São Paulo durante o julgamento, onde localiza-se o escritório contratado para sua defesa. Hoje [7/3] está em São Paulo participando de reuniões no escritório dos advogados”, afirmou o advogado de Santos, Humberto Barrionuevo Fabretti.

No julgamento do STF, a Primeira Turma da corte analisou o habeas corpus que o ministro Marco Aurélio de Mello havia concedido a Santos e outras 13 réus do mesmo processo. O advogado Fabretti atacou as provas levantadas pelo Ministério Público, que chamou de “argumentos puramente subjetivos, que não encontram qualquer respaldo nos autos”, e disse que não fazia sentido invocar risco de fuga para justificar a prisão preventiva do prefeito. “Em nenhum momento o paciente [réu] demonstrou que poderia fugir. Ele estava eleito prefeito e lutou bravamente para ter seu mandato reconhecido”, disse.

O prefeito Ney Santos | Foto: Facebook

Na votação, deu empate. Os ministros Marco Aurélio de Mello e Alexandre de Moraes manifestaram-se a favor do habeas corpus. Para Mello, “não se pode ter a justiça a ferro e fogo, invertendo-se a ordem natural do processo”, que é a de só prender após comprovar a culpa do réu. Já os ministros Luís Roberto Barroso e Rosa Weber votaram a favor da prisão de Santos. “Os autos parecem efetivamente indicar que, desde data já distante até o presente, o paciente, contando com o concurso dos corréus, capitaneia sofisticada organização criminosa, que lavou e continua lavando expressivas somas de dinheiro, provenientes do tráfico de entorpecentes”, disse Barroso. Com o empate, a vantagem é dos réus, que permaneceram soltos.

Ex-Gordo

Em 2003, quando foi preso acusado de participar de um roubo a uma empresa de transporte de valores, em Marília, interior de São Paulo, o hoje prefeito era conhecido como Nei Gordo. Inicialmente condenado, cumpriu dois anos de pena, até ser absolvido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Ao sair da cadeia, resolveu mudar de visual. Fez uma cirurgia de redução de estômago e deixou o antigo apelido. Montou uma rede de postos de combustível e comprou uma mansão de R$ 2 milhões na cidade de Embu.

Em 2010, então filiado ao PSC, Santos se candidatou a deputado estadual pela cidade de Taboão da Serra. Não foi eleito. No mesmo ano, o candidato foi acusado de enriquecimento ilícito. Apontado como detentor de uma fortuna de R$ 50 milhões, teve uma Ferrari avaliada em R$ 1,5 milhões apreendida.

Ney Santos foi eleito vereador pela cidade em 2012, com cerca de 8.000 votos. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral, Santos declarou uma renda de cerca de R$ 1,4 milhões. Porém, segundo a Polícia Civil de Taboão da Serra, o patrimônio do político superaria R$ 100 milhões de reais.

Após seu êxito na corrida à Câmara Municipal de Taboão da Serra, Santos concorreu em 2016 à Prefeitura de Embu das Artes, pelo PRB. Eleito, foi impedido de tomar posse sob acusação de associação com organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Para a desembargadora Ivana David Boriero, um prefeito com as acusações de Santos não deveria exercer mandato. “Se somar todas as acusações dele [Ney Santos], fazendo uma soma, dá no mínimo 30 anos de prisão. O STJ, a Polícia Civil e o MP acreditam que ele é culpado e não deveria estar solto”, afirma.

Um habeas corpus, concedido no STF pelo ministro do Marco Aurélio Mello, garantiu sua posse como prefeito em 12 de fevereiro do ano passado.

No final do ano passado, a gestão de Santos foi alvo de mais uma polêmica. Em 28 de dezembro, o jornalista Gabriel Binho, do site Verbo Online, acusou a gestão do prefeito de ordenar um ataque contra ele na rodovia Régis Bittencourt, quando Binho foi derrubado da moto que dirigia e, segundo ele, escapou por pouco de ser baleado. A polícia indiciou pelo crime o então subsecretário de Gestão Tecnológica e Comunicação, Renato Oliveira, e o agente penitenciário Lenon Roque.

Afastado da prefeitura, Oliveira foi denunciado, junto com Roque, por tentativa homicídio triplamente qualificado contra o jornalista. Ambos respondem em liberdade. À Ponte, Oliveira admitiu que seguiu Binho com o carro na rodovia, mas diz que esbarrou nele sem querer, e nega ter atirado.

 

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