Sarna é ‘porta de entrada’ para doença que atingiu presos em Roraima

22/01/20 por Maria Teresa Cruz

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Governo de Roraima informa que diagnóstico é de piodermite e admitiu que a infecção é causada em pessoas com quadro de doença de pele, como a sarna

Doença ataca a pele, provoca feridas e muitas dores, segundo relatos de infectados | Foto: arquivo pessoal

O Governo de Roraima, sob comando de Antonio Denarium (sem partido), informou à Ponte que os detentos da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, a PAMC, foram infectados por uma bactéria que causa piodermite, infecção de pele que pode provocar feridas pustulentas e descamação. Ainda, segundo a nota, é uma doença oportunista, ou seja, que afeta o paciente que já tem um quadro de lesões na pele pregresso, por exemplo, de escabiose, a sarna humana.

A Pastoral Nacional Carcerária divulgou uma nota nesta quarta-feira (22/1) em que destaca que o diagnóstico comprova que já havia um surto de sarna não controlado. “O caso não é isolado, é regra no sistema prisional. A piodermite é uma infecção de pele causada por bactérias e resultado de uma sarna não tratada. Os presos já estavam doentes muito antes do surto atual, mas a administração da penitenciária e o Estado, que são responsáveis pela vida dos presos enquanto eles estão sob sua custódia, nada fizeram”, diz o texto, que também destaca que as condições de saúde nas prisões, em geral, são extremamente precárias.

A Ponte tentava desde o início da semana saber as causas da doença. O diagnóstico foi feito com base em análises laboratoriais da CGVS (Coordenação Geral de Vigilância em Saúde). No domingo, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Roraima denunciou a doença e informou que pelo menos 24 presos estavam sendo tratados. Os relatos indicavam que os infectados sentiam muitas dores, tinham feridas espalhadas pelo corpo e a sensação de estarem sendo “comidos vivos”.

A sarna é provocada por ácaros que atacam a superfície da pele e ali se reproduzem. “O macho morre e a fêmea penetra na pele humana, cavando um túnel, por um período aproximado de 30 dias. Depois, deposita seus ovos. Quando eles eclodem, liberam as larvas que retornam à superfície da pele para completar seu ciclo evolutivo”, segundo definição da Sociedade Brasileira de Dermatologia. É ela que deixou o terreno livre para as bactérias que causam a piodermite chegarem.

A Sejuc (Secretaria de Justiça e Cidadania) informa que 15 presos estão em tratamento no Pronto Atendimento Airton Rocha, em Boa Vista, neste momento, sendo que 7 deles passam por tratamento de pele. A pasta informa ainda que “outros 14 reeducandos encontram-se internados em blocos do HGR (Hospital Geral de Roraima) em tratamento de outras doenças não relacionadas à bactéria, totalizando 29 presos doentes”.

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A Pastoral Carcerária também destacou que recebeu “recentemente relatos de que há presos com sarna em São Paulo, Goiás e Ceará” e que “não seria surpreendente se um novo surto de piodermite, como o ocorrido em Roraima, ou de alguma outra doença, acontecesse em qualquer outro Estado brasileiro”.

Por causa da doença, o Ministério Público de Roraima pediu a interdição parcial da unidade prisional. A Justiça de Roraima esteve na PAMC e aguarda a manifestação do governo para tomar uma decisão, que até esta quarta-feira (22/1), não havia sido tomada.

A Pastoral Nacional Carcerária divulgou, ainda em nota, relatos coletados pela equipe da entidade que atua em Roraima. “Os presos são jogados lá dentro como se fossem objetos. Dentro da PAMC, os presos são atendidos por médico, mas não tem remédio ou kit higiene suficiente para todos, aí não tem condições”, denunciou uma representante.

Sobre o pedido de interdição feito pelo MPRR à Justiça, o governo informa que ainda não foi notificado oficialmente e que só irá se pronunciar quando isso acontecer, mas adianta que o sistema prisional de Roraima passa por “transformações físicas” com pelo menos cinco obras em andamento.

“Construída próxima da Pamc, a nova Cadeia Pública Masculina de Monte Cristo, tem capacidade para 286 vagas. A obra está mais de 50% concluída e é realizada por meio de recursos de R$ 16.223.114,56. Para resolver o problema de infraestrutura no sistema prisional está em reforma do módulo A da Penitenciária de Monte Cristo que poderá ter em média 600 reeducandos. A obra está com 65% concluída e é o que resta para ser finalizado na estrutura da Pamc, sendo que o mesmo feito no B reformado e concluído em 2019. O recurso investido nos Módulos é em torno de R$ 9.605.000,00”, diz outro trecho da nota.

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