Suspeito de matar mulher segue foragido e postando no Facebook

02/05/20 por Caê Vasconcelos

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Família da vítima conta que sempre cruza com jovem no Morro Doce, periferia de SP, mas a polícia não consegue prendê-lo: “só quero justiça para minha filha”

Foto publicada por Gabriel Pacheco Ferreira, 20 anos, cinco dias depois do assassinato de Pamela Cruz Ville, 27 anos | Foto: reprodução Facebook

O dia 21 de novembro de 2019 terminou de forma inesperada para a família de Pamela Cruz Ville, 27 anos. A família começou um churrasco no dia anterior, mas, no começo da madrugada do dia 21, uma confusão acabou não apenas com a festa, mas com a vida de Pamela.

A jovem foi assassinada na frente da casa onde a família morava no Jardim Rosinha, no Morro Doce, periferia da zona noroeste da cidade de São Paulo. O motivo foi uma brincadeira mal recebida que uma das irmãs dela, Rosana de Almeida Cruz Ville, 29 anos, fez em um ponto de ônibus perto do local da festa. Até hoje, Gabriel Pacheco Ferreira, 20, que esfaqueou Pamela no pescoço, não foi preso.

Rosana estava com o filho de 11 anos e decidiram pregar peças nas pessoas que desciam dos ônibus. Com uma máscara de um personagem de filme, o palhaço “IT: A coisa”, inspirado em um romance do escritor norte-americano Stephen King, Rosana e o filho assustavam as pessoas. Sem querer, acertaram uma das passageiras.

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A adolescente, que tem 17 anos, não gostou da brincadeira e partiu para cima de Rosana. A outra irmã de Rosana, Priscila de Almeida Cruz, 25, veio intervir na briga, mas acabou envolvida na confusão. Foi quando Pamela viu o que estava acontecendo e foi separar a briga.

“A Pamela sempre foi da paz. Eu e a minha outra irmã que somos mais briguentas. Ela ficou protegendo a menina. Desde criança ela sempre foi a mais calma de nós, nunca gostou de briga ou confusão. Quando tinha alguma coisa na família, era ela que fazia todo mundo fazer as pazes”, contou Rosana em entrevista à Ponte.

Pamela Cruz Ville, 27 anos, foi morta com uma facada no pescoço depois de uma brincadeira que acabou em briga | Foto: arquivo pessoal

A confusão parou e a família Cruz voltou para a festa. Um pouco depois, a adolescente voltou com a mãe, Claudia Pacheco Falcão, e o irmão Gabriel para tirar satisfação. Pamela disse à família da adolescente que tudo fora culpa dela, que ela que fez a brincadeira.

“Aí teve outra discussão. Nessa confusão, o Gabriel esfaqueou ela. A Pamela falou que foi ela porque ela não queria mais briga, ela pediu desculpas, mas eles não quiseram entender. A gente não percebeu que ele estava com a faca”, lamenta Rosana.

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A irmã conta que Pamela chegou com vida no Pronto Socorro de Pirituba. Mas, três horas depois, ela faleceu. A Polícia Militar foi acionada por volta das 4h30 da manhã daquele dia, informada que “uma vítima do sexo feminino deu entrada no PS por ferimento a faca”.

Apesar de ser considerado foragido e ter sido reconhecido pela família no 46º DP (Perus), onde o caso é investigado, Gabriel nunca foi preso pela morte de Pamela. Segundo a SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), a polícia solicitou a prisão temporária do jovem e que “a equipe realiza buscas para localizá-lo e prendê-lo”.

Foto postada por Gabriel em dezembro de 2019 | Foto: Reprodução/Facebook

Mas não é o que a família conta. Gabriel ainda mora no mesmo bairro que Pamela foi morta e, por diversas vezes, cruzou com familiares da vítima. Ele também mantém o seu perfil do Facebook atualizado, com fotos e postagens diversas.

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“Todas as vezes que vemos ele na rua, ligamos para a delegacia. A gente fala ‘o Gabriel está em tal lugar, com tal roupa’ e depois eles falam que não encontraram ele. O bairro é muito pequeno, não tem como não achar ele. É mais fácil a gente levar ele para a delegacia”, afirma Rosana.

“A gente tem medo. Um dia o meu cunhado foi pedir para o delegado deixar o caso em sigilo, mas viu o pai do Gabriel lá, falando com o delegado sobre o caso. Ele [pai do Gabriel] chegou a me ligar, falar que o filho iria se entregar no Natal. Mas não aconteceu”, completa.

O sentimento de impotência ronda a família Cruz, que se sente de mãos atadas e sem poder fazer justiça pela morte de Pamela. “A minha mãe vai no cemitério todos os dias, tira foto e coloca no grupo da família. Fica o dia inteiro vendo as fotos da minha irmã. Ela é outra pessoa, não é mais a mesma. A gente mudou de endereço. Minha mãe vendeu a casa dela porque tudo aconteceu lá na frente. Agora ela vive de aluguel”, desabafa Rosana.

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“Eu só quero justiça. Pamela faleceu, me deixou duas netas. Eu peço todos os dias para Deus que exista justiça, para que eu possa ficar sossegada que a pessoa que tirou a vida da minha filha pague por isso. Me doí todo dia saber que a pessoa não foi presa e fica andando por aí”, desabafa Rosa de Almeida Cruz, mãe de Pamela, à Ponte.

A reportagem tentou contato com Gabriel e sua irmã pelas redes sociais, mas, até a publicação da reportagem, não obteve retorno.

A Ponte questionou a pasta sobre como não conseguem capturá-lo, uma vez que a própria família sabe onde o suspeito está, mas a pergunta específica não vou respondida.

Apenas 24% dos homicídios são solucionados

Para a socióloga Samira Bueno, diretora do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), esse é um caso preocupante que aponta falta de engajamento das forças policiais, uma vez que o autor já foi reconhecido pelos familiares.

“É muito grave que os familiares da vítima, que morre por um crime completamente banal, tenham que encontrar com o homicida recorrentemente porque a polícia não está fazendo o trabalho dela”, argumenta Bueno.

“É caso para uma denúncia formal na Corregedoria da Polícia Civil, para entender se tem alguém dentro da delegacia que está acobertando esse cara, se ele está sendo beneficiado de algum modo. Se os familiares sabem onde ele está, não é possível que a polícia não consiga prendê-lo”, pontua.

Boa parte dos homicídios, explica Bueno, decorrem de situações banais e, por essa razão, flexibilizar o acesso a armas de fogo é muito perigoso. “As pessoas matam pelos motivos mais banais e nas situações mais inusitadas que elas encontrarem na frente. Se a pessoa tem uma faca, ela vai matar com uma faca”, argumenta.

Bueno lembra que apenas 24% dos homicídios são esclarecidos, considerando os critérios de denúncias aceitas pelo Ministério Público. “Por ano, temos uma média de 60 mil assassinatos, então dá para gente ter uma ideia da impunidade. Se a gente tem que falar em impunidade, a impunidade é vista nos crimes letais, contra a vida, porque o que dá cadeia no Brasil não é isso, é dependência química e furtos e roubos”, critica.

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