Três PMs são suspeitos de assassinar ativista de direitos humanos na Bahia

Pedro Henrique Santos, que denunciava violência policial, foi morto dia 27 de dezembro na cidade de Tucano, interior do estado

Pedro Henrique Santos militava contra violência policial | Foto: arquivo pessoal

Pelo menos três PMs são suspeitos de participar do assassinato do ativista Pedro Henrique Santos Cruz Souza, 31 anos, ocorrido em 27 de dezembro de 2018, em Tucano, interior da Bahia. Logo após o crime, uma testemunha prestou depoimento à Corregedoria Geral da Segurança Pública do Estado da Bahia e afirmou que foram policiais militares que mataram o jovem. O Correio 24h já havia dado a informação, que foi confirmada pela mãe de Pedro, Ana Maria Cruz, 53 anos, que tem acompanhado todo o desdobramento do caso. “Eu nunca vou perder a esperança”, disse em conversa com a Ponte.

A testemunha informou que reconheceu os PMs pelas características físicas e o tom de voz e chegou a citar nominalmente pelo menos dois suspeitos. O crime está sendo investigado pela Polícia Civil da Bahia e pelo Ministério Público.

Nas redes sociais, a dor e saudade de Ana transbordam em publicações diárias. “Ontem eu tive esse sonho, nele encontrava com você. Não sei se sonhava o meu sonho. Ou se o sonho que eu sonhava era seu”, diz o trecho de uma música da banda Nação Zumbi compartilhada por ela neste domingo (27/1), quando a morte de Pedro completa exatamente um mês. “30 dias após o assassinato de Pedro, uma pergunta ainda sem resposta: Por que os atiradores, já identificados, continuam livres e impunes?”, diz a outra postagem.

Pedro tinha longa trajetória na militância contra violência policial e foi o criador da “Caminha pela Paz”, após ter sofrido uma abordagem violenta em outubro 2012, na frente da casa de seu pai. De acordo com ele mesmo, que na época registrou o fato nas redes sociais, um tenente da PM-BA se aproximou e sem pedir documento ou fazer qualquer pergunta, partiu pra cima, “iniciando ali mesmo, uma série de agressões, humilhações e xingamentos, situação esta que se perdurará por mais de trinta minutos”. Ainda no relato, Pedro, que escreveu em terceira pessoa, seguiu dizendo que “tudo isto aconteceu na frente de dezenas de pessoas que se aglomeravam e, apesar de conhecerem a vítima, se calaram, se acovardaram, optaram por assistirem inertes àquela selvageria, temendo, certamente, se tornar mais um alvo daquela brutalidade. Enquanto agredia o jovem com socos, pontapés, empurrões e golpes de cassetetes, o Tenente ainda proferia xingamentos diversos, se dirigia à multidão ali presente dizendo que aquele rapaz que ele sequer conhecia se tratava de um ladrão de moto, assassino, matador de polícia e assaltante, chegando inclusive a obrigá-lo a ficar em frente a sua casa do seu genitor e posar para uma foto, dizendo, em tom de zombaria, que era pra ficar mais bonito”, escreveu.

Pedro, em 2012, com olho ferido após apanhar da Polícia Militar | Foto: arquivo pessoal

No sábado (26/1), Ana Maria compartilhou a postagem antiga do filho com a seguinte legenda: “Aqui é o início de uma história macabra, marcada por agressões covardes, ameaças e perseguições, cujo desfecho culminou com o assassinato bárbaro e sem precedentes na história da pacata cidade de Tucano, interior do estado da Bahia”.

Segundo Ana Maria, após as agressões, Pedro processou os PMs Alex Andrade e Edvando Cerqueira. “Quando o policial saiu do fórum, logo depois da audiência em que ele foi condenado a pagar uma multa, ele teria dito a Pedro: ‘este dinheiro que você me fez gastar, vai lhe custar caro’. Seis anos depois, a promessa se cumpriu”, diz Ana. Na época, Pedro divulgou os abusos nas redes sociais e o tenente Alex Andrade chegou a mover uma ação por injúria e difamação. Na decisão judicial, Pedro entrou em um acordo, apagou as postagens e prestou serviços à comunidade.

A Ponte teve acesso a uma série de termos de declaração feitos no Ministério Público e assinados por Pedro entre 2014 e 2018. O ativista denunciou abusos da PM em pelo menos quatro oportunidades ao MP. Em setembro de 2014, por exemplo, Pedro compareceu ao MP e informou que havia sido abordado de forma violenta e relembrou que, em abril daquele ano, Aderbal, que havia presenciado a agressão contra Pedro em 2012, foi morto. Na ocasião, Pedro assinalou que acreditava que a motivação foi “preconceito do Tenente Alex, que comandava a operação, por ele ser usuário de maconha e adepto da cultura ‘Rastafari’.” Na ocasião, Pedro informou também à promotoria as tentativas do tenente em desqualificar a “Caminhada pela Paz”, criada pelo ativista, ao dizer, sem nenhuma prova, que havia envolvimento com tráfico e que o evento era financiado por facções criminosas.

Uma das marchas realizadas por Pedro contra violência policial | Foto: arquivo pessoal

Em abril de 2017, há um novo termo de declaração assinado por Pedro em que ele conta que o tenente Alex foi cobrá-lo sobre a multa que teve que pagar quando condenado pela abordagem de 2012. “O declarante [Pedro Henrique] informa que o Tenente Alex disse que o declarante deve a quantia de R$ 50 mil e afirmou que é sorte o declarante não ter dinheiro para pagar”. Pedro havia sido condenado anos antes justamente nesse processo e pagou a pena com medidas alternativas.

Um mês depois, novo termo de declaração informava que os policiais Sidnei Santana e Bruno Montino estiveram no bairro Nova Esperança, onde a família de Pedro mora, e perguntaram se ele era o “rasta” que foi processado pelo Tenente Alex. “O declarante informa que teve a impressão que os policiais estavam ali para cobrar a dívida, que os policiais perguntaram se o declarante é usuário de droga ilícita e qual o significado das tatuagens”, fazendo com que Pedro ficasse praticamente nu em via pública, aponta o documento.

O último termo, datado de maio do ano passado, traz um relato de nova abordagem da PM, feita mais uma vez por Santana e Montino, quando Pedro voltava do mercado. O ativista afirma que foi obrigado a virar de costas, colocar as mãos na cabeça, que levou chutes e sua sandália chegou a arrebentar. Os policiais também teriam mexido nas sacolas de compras e lançado para longe uma caixinha de remédios. “Sidnei mexia nos bolsos e questionava sobre as suas publicações no Facebook. Que neste momento, Sidnei pegou o seu celular que estava no bolso e jogou no chão quebrando a tela. Após isso, levou um tapa no ouvido, um soco no pescoço e disse: ‘vá tomar suas providências, porque você tem o seu advogado e eu tenho o meu’, momento em que o policial mostrou a arma para o declarante”, diz o trecho do documento do MP.

Pedro Henrique seria assassinado sete meses depois disso, em dezembro do ano passado. A Ponte procurou a Polícia Civil para saber o andamento das investigações, mas até a publicação da reportagem não havia resposta. Também tentamos contato com o MP pra questionar o conteúdo dos termos de declaração e se o órgão fazia algum tipo de acompanhamento específico do caso, uma vez que os documentos comprovam reiteradas situações de humilhações e agressões contra a vítima, mas também não obteve retorno. Por fim, a reportagem questionou a Polícia Militar da Bahia sobre duas coisas: o fato de três PMs terem sido apontados como suspeitos do assassinato do ativista e como a corporação avalia a conduta de abusos denunciada por Pedro ao MP dos policiais Alex Andrade e Sidnei Santana – apontados por Pedro como protagonistas das abordagens violentas – e Bruno Montino e Edvando Cerqueira, citados como participantes secundários. Até o fechamento da reportagem, a PM havia enviado a seguinte nota: “A demanda foi encaminhada para a Corregedoria Geral da Polícia Militar e, assim que tivermos acesso às informações responderemos”.

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