Troca de comando das polícias em SP muda pouca coisa, avaliam especialistas

Novo comandante da PM nomeado por Rodrigo Garcia é próximo do anterior e indica continuidade; na Polícia Civil, opção foi por um delegado considerado “midiático” para o período eleitoral

Em sequência: coronel Ronaldo Miguel Vieira e delegado Osvaldo Nico Gonçalves, que passam a comandar, respectivamente, as polícias Militar e Civil | Fotos: Governo do Estado de SP

Em menos de um mês após ser empossado depois da renúncia de João Doria (PSDB), que deve concorrer às eleições presidenciais, o governador de São Paulo Rodrigo Garcia (PSDB) resolveu fazer uma série de mudanças na gestão. Uma delas foi a troca de comando das polícias Civil e Militar paulistas cujas nomeações foram publicadas na edição desta quarta-feira (27/4) do Diário Oficial do Estado.

O coronel Fernando Alencar Medeiros deixou o cargo de Comandante-Geral da PM e foi substituído pelo coronel Ronaldo Miguel Vieira. Já na Polícia Civil, Osvaldo Nico Gonçalves passou a ocupar a cadeira de Delegado-Geral no lugar de Ruy Ferraz Fontes.

O ex-Rota Alencar Medeiros liderava a tropa desde março de 2020 e deve ir para a reserva. Ele assumiu a corporação na época em que houve um desgaste com o então comandante coronel Marcelo Vieira Salles, após o Massacre de Paraisópolis, em dezembro de 2019. As mortes pela polícia bateram recorde no primeiro ano de pandemia e o projeto das câmeras corporais, gestado desde 2014 pela corporação, passou a ser implantado de fato, com os índices de letalidade e vitimização policiais passando a cair, apesar de ainda abusivos. É nesse cenário que assume o coronel Ronaldo Vieira, que comandava o Batalhão de Choque e está na corporação há 32 anos, e, segundo especialistas ouvidos pela Ponte, não deve atuar de forma muito diferente do seu antecessor.

Ele foi promovido a coronel em 2019 e esteve à frente dos comandos de Policiamento de Área Metropolitano-1, Casa Militar, Regimento de Polícia Montada 9 de Julho e de cinco batalhões. Um contemporâneo de Miguel Vieira da época em que estudavam na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, onde oficiais se formam, descreveu o colega como “um cara tranquilo, discreto e que sempre fugia de embates”, “apaixonado pela cavalaria quando serviu enquanto tenente e tenente-coronel” e com “nada de desabonador moral e tecnicamente”.

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública e coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho aponta que o fato de Medeiros ser um comandante que atuou nas ruas “é muito importante porque é uma pessoa que está em contato com a tropa, com a sociedade, com as interações da polícia com a sociedade”. “Não o conheço pessoalmente, mas ele traz um perfil de experiência de comando, isso é muito importante, porque às vezes nas polícias em geral vai alguém por uma indicação política e não tem uma experiência operacional tão grande que esse cargo exige”, avalia.

Porém, afirma que como não houve mudanças na cúpula da pasta, já que o general João Camilo Pires de Campos permanece como secretário de Segurança Pública e o coronel Álvaro Batista Camilo continua como secretário-executivo da PM (cargo criado por Doria), não devem ocorrer alterações significativas, ainda mais em um ano eleitoral em que o vice passa a governar por um período muito curto. “Os dois chefes [ex-comandantes da PM e da PC] estavam há dois anos, tendo feito um bom trabalho pelos resultados obtidos e pelo exitoso enfrentamento da crise da pandemia”, explica.

Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), concorda. “É comum os vices, quando assumem o governo, escolherem pessoas para os cargos de confiança. Agora, com sete, oito meses de mandato, é difícil ter algo substancial em termo de política de pública”.

Além disso o coronel José Vicente destaca que, apesar de diversos pré-candidatos, incluindo o próprio Rodrigo Garcia, terem colocado em xeque o projeto das câmeras, a tendência é de continuidade. “O projeto deve continuar porque é um projeto desse governo, embora mudou o governador, é o mesmo governo de certa forma, que adotou um projeto da PM, alocou recursos orçamentários para a ampliação, o projeto avançou e havia alguma dúvida do emprego dessas câmeras nas unidades especializadas de Choque, como é o caso da Rota, e o governador foi na Rota ontem conversar com os oficiais a respeito disso e eles disseram que a câmera é muito importante, muito útil para o serviço”, pontua.

Rafael Alcadipani, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, enfatiza que os escolhidos pelo governador têm “competência” para atuar nos cargos designados, mas o problema foi a época da troca, já que Garcia é pré-candidato ao governo paulista. “A impressão que eu tenho é que o Rodrigo Garcia precisa criar fatos políticos para sua popularidade aumentar e a segurança pública nesse momento está enfrentando algumas questões que são delicadas, principalmente quanto aos crimes patrimoniais no estado inteiro, em especial na capital, e ele está querendo mostrar que é diferente do governador João Doria ao fazer essas trocas nas duas polícias”, analisa.

Ele argumenta que as polícias precisam ser vistas como “figuras de Estado” e não como “figuras políticas”. “Considero que as trocas têm muito mais uma cara política do que objetiva, os dois comandantes das polícias vinham fazendo um trabalho adequado, estavam tocando projetos importantes, como das câmeras corporais, o novo sistema [de boletins de ocorrência] da Polícia Civil, e tecnicamente não vejo que haja explicação para fazer essas trocas. É algo pouco elegante para pessoas que se dedicaram nos últimos anos à construção de expressivas melhorias na segurança pública de São Paulo, como a diminuição da letalidade, a profissionalização das polícias, e no final do governo faz essas trocas, o que gera insegurança, porque não tem nenhuma garantia de que ele vai ser eleito no ano que vem e podem ocorrer novas trocas”, critica.

Para Samira Bueno, o governador tenta criar uma “marca” para a sua gestão, já que a segurança pública sempre acaba sendo uma pauta de maior cobertura e interesse da população. “Se formos ver os pré-candidatos, de um lado temos o Haddad (PT) que é apadrinhado pelo Lula, do outro temos o Tarcísio (Republicanos) que é ligado ao Bolsonaro e quem é o Rodrigo Garcia? O vice do Doria. Mas como todas as políticas de segurança anterior foram implantadas pelo Doria, não tem como ele se utilizar disso, então ele precisa criar uma marca. Estamos com casos de violência contra a mulher, aumento de latrocínio que está aterrorizando a população, então qual resposta ele, Rodrigo Garcia, vai dar para isso?”, questiona.

Delegado “midiático”

Na Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes ocupava o cargo de Delegado-Geral desde o primeiro dia de mandato do governador João Doria, em 2019, e era conhecido pela especialidade de atuação contra o crime organizado. Famoso por ser figura carimbada em programas policialescos, o novo ocupante do cargo deve trazer “capital político” ao governador, avaliam especialistas.

O delegado Osvaldo Nico Gonçalves está há 43 anos na corporação e se destaca por ter atuado a maior parte da carreira em grupos de elite, quando se tornou delegado em 1992. Antes de ser nomeado, era responsável pelo Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope), que foi criado em 2019 a partir da extinção do Grupo de Operações Especiais (GOE) – este que foi criado por Nico em 1998 – ampliando a unidade e com uma das principais atribuições a investigação de extorsões mediante sequestro, absorvendo atribuições de outras delegacias especializadas, e operações de alto risco. O antecessor, Ruy Ferraz Fontes, foi rebaixado ao cargo de diretor do Dope.

Além disso, na carreira, Nico chefiou ainda as equipes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), do Grupo Armado de Repressão a Roubos (Garra), e do Grupo Especial de Resgate – GER (que é ligado ao Deic), unidade especializada na soltura e livramento de reféns, e foi delegado de polícia na capital, estando à frente de grandes eventos, como a visita do Papa Bento XVI em 2007 e a Copa do Mundo de 2014.

É ele quem costuma aparecer em entrevistas sobre algumas dessas operações de repercussão nacional, como a que prendeu Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado estadual e hoje senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), em Atibaia, no interior de São Paulo, em 2020. Chegou a chamar o jogador do Flamengo Gabigol de “folgado” por ele e o funkeiro MC Gui terem tentado, segundo ele, se esconder quando foram detidos em uma ação da polícia em um cassino clandestino em 2021, época em que as festas e aglomerações eram proibidas no estado. Também prendeu no gramado o jogador argentino Desábato, em 2005, que proferiu ofensa racista ao jogador Grafite; e participou das prisões do médico Roger Abdelmassih, em 2014, e do jornalista Pimenta Neves, em 2011.

Para Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “a impressão é de que o Garcia quer mostrar mais o trabalho da Polícia Civil com um delegado midiático, talvez mostrar mais operações, mas a efetividade disso só vamos saber nos próximos meses”.

À Ponte, um policial civil da ativa que pediu para não se identificar disse que o perfil de Nico “nunca agradou” a categoria mais baixa da corporação, que são investigadores e escrivães, e que a troca do comando também não vai trazer mudanças efetivas dentro da polícia. “Ele só atuou na coordenação de grupos táticos e não presidiu inquéritos, tudo que ele aparece é [fruto] do trabalho dos outros, ele pega uma prisão que um policial se arrebentou para fazer uma investigação, chega na mídia, toma o crédito e fala ‘meus meninos trabalharam’, desqualificando os profissionais envolvidos”, critica.

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“Na polícia de São Paulo, a gente chama de ‘virada’ e ‘viradinha’ essas mudanças de comando: virada é quando assume um governador novo, com um secretário novo, um Delegado-Geral novo, que tem seus preferidos para assumirem os diretores na Civil e o coronelato na PM, cada um tem seus divisionários e capitães, seus titulares, e equipes; quando faltam esses seis meses para o governo terminar, a gente chama de viradinha, que tem a função de colocar alguém para segurar a tropa, ou seja, evitar que aconteça qualquer escândalo, qualquer ocorrência duvidosa. Não é novidade nenhuma, sempre aconteceu”, prossegue.

Além disso, a família do delegado é dona de uma rede de pizzaria que leva o seu nome e que, segundo perfil feito pela Folha, “deu uma fortuna que garantiria o sustento até dos netos” e que Nico tem “tem uma boa relação com empresários, artistas, jogadores de futebol e médicos”, sendo que “quando governadores ou secretários recebiam pedidos de autoridades em casos particulares, era o delegado que era mandado para atendê-los”. Segundo o policial civil ouvido pela Ponte, esse seria o trunfo da nomeação por Garcia: “a força do Nico é mídia, é fora da polícia”.

O que diz o governo

A Ponte pediu entrevista com os novos comandantes das duas polícias, mas até a publicação a Secretaria da Segurança Pública não respondeu.

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