Gabriel, morto em Paraisópolis, ajudava o pai desempregado e a mãe diabética

15/12/19 por Arthur Stabile

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Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, foi ao baile comemorar aniversário do amigo Bruno Gabriel dos Santos, que também morreu no Baile da Dz7

Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, não gostava de funk, mas foi ao baile comemorar o aniversário do amigo Bruno, que também morreu no massacre | Foto: arquivo pessoal

Em frente ao Palácio dos Bandeirantes, Reinaldo Cabral de Moraes relembra do único filho com amor: Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, é uma das 9 vítimas do massacre de Paraisópolis.

O rapaz, natural de Mogi das Cruzes, cidade na Grande São Paulo, estava no Baile da DZ7 comemorando o aniversário de um amigo, Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, que também morreu na ação da PM há exatos 14 dias em Paraisópolis, favela da zona sul da cidade de São Paulo.

“O Gabriel nem gostava de funk, ele ia para baile por causa dos amigos. Quando chegava lá, ficava no celular jogando”, conta o pai, que atualmente está desempregado.

Reinaldo largou o emprego em uma fábrica de Mogi para cuidar da esposa, que apresenta quadro de diabetes. A doença é piorada por questões emocionais, segundo o pai. Isso o fez conversar com seu chefe, pedir para ser demitido e colocar o filho como aprendiz.

“Ele estava em fase de aprendizagem, ganhava R$ 800. Eu juntava com meu seguro-desemprego e sustentava a casa”, relembra Reinaldo.

Nomes dos nove mortos grafitados na viela em que sete morreram | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Naquele dia 1° de dezembro, data do massacre, Gabriel seria efetivado no emprego. O chefe já tinha separado o uniforme para fazer uma surpresa. Não deu tempo, pois a tragédia interrompeu a vida e os sonhos do jovem.

“Meu filho era simples, queria ajudar. Queria comprar um carro como todo jovem”, conta o pai sobre o “filho do coração”. O jovem era o filho único do casal, que enfrentou problemas para conseguir uma gravidez. O pai cita que sua companheira teve três abortos espontâneos antes de Gabriel nascer.

“Minha esposa não podia ter mais filhos, perdemos três no ventre e ele veio para nos alegrar e nos alegrou em 20 anos. Foi para nós a maior benção que Deus tinha nos dado”, afirma Reinaldo. “Somos evangélicos, procurando, com falhas, sermos pessoas do bem. Como ele era do bem. No velório dele tinham muitas pessoas, jovens, e só diziam o bem do meu filho”.

Reinaldo participou de reunião com o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB) na noite desta segunda-feira (9/12). Ele e membros de outras sete famílias estiveram reunidos com representantes de Paraisópolis, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana).

O grupo forma a comissão externa criada por Doria para acompanhar as investigações do massacre. Além do governador, participaram pelo poder público o secretário da Segurança Pública do estado, general João Camilo Pires de Campos, representantes da Procuradoria-geral do Estado e da Defensoria Pública.

A principal promessa do encontro foi o afastamento dos 38 policiais militares que atuaram na madrugada do dia 1° de dezembro em Paraisópolis. Inicialmente, apenas seis PMs estavam fora do serviço de rua, atuando em serviços administrativos enquanto a investigação acontece. Agora, os 38 estão afastados, conforme promessa do governador, com manutenção integral de seus salários.

“Falar que ele estava no lugar errado na hora errada? Não! Quem estava no local e hora errada eram aqueles que foram fazer essa maldade, que foi premeditada”, critica Reinaldo, cobrando mudanças na atuação nos bailes funks.

“Por que ter repressão se pode ter a prevenção? Se tivesse mais prevenção não teria tanto desastre, tantas tragédias, pessoas morrendo e famílias chorando se houvesse mais prevenção”, sugere. “Isso precisa mudar e nós que estamos chorando esperamos ser os últimos para não ter mais pais e mães chorando a perda do seu filho”, finaliza.

Reportagem atualizada às 16h40 do dia 15/12 para alteração do título e retirada da informação de que o jovem não gostava de funk

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